Voz e Meu

*João Gustavo

Me @ 02-JUL-2006
- Zoraide.

- Vai pôr esse?

- Vou. Achou bom?

- Péssimo.

Longa pausa.

- É. É ruim, sem dúvida.

- Péssimo. Repito e sentencio.

Cozinha. Lata de cerveja, só pra ele.

- Gosto de Sebastiana.

Volta pro sofá, primeiro gole.

- Imprime uma ideia de grandeza.

- Concordo. – gole – Mas não condiz. Há uma fraqueza irreprimível aqui.

- Não era na outra?

- Não.

- Hum.

Cozinha. Lata de cerveja também.

- Fica com esse. Um ponto fora da curva pode cair interessante no papel.

- Sei não... – gole – Tem essa história da ilusão primeira.

- Facilmente desfeita se houver convencimento, meu bem. – gole.

- Você não tinha prometido a si mesma que deixaria o álcool?

- Não diz a coisa desse jeito. Pareceu falar pra uma alcoólatra.

Longa pausa.

- Emprestei seu cd do Caetano pro Laurinho.

- Caramba, Ju... Já falei pra você...

- O seu preferido. O do Tempo de Estio.

- .... – gole, gole.

- Não faz essa cara. O menino devolve. Devolve mesmo, sério.

- ...

- Fiz ele prometer.

Pausa. E gole.

- Du, te falei que encontrei a Marina?

- Não.

- Encontrei. Ela engordou um pouco, mas ainda é bonita.

- “Ainda é”...

- Que foi?

- Sei lá. Engraçado o “ainda”. Melhor um “tava”. Sem é. Sem continuação.

- Nunca achei ela feia.

- Eu sei.

- Como?

- Sempre soube.

- Nunca te falei nada.

- Desnecessário.

Pausa. E goles, s, s, ... O conteúdo acaba.

- Ai, que chato isso.

- ...

- Certas coisas, meu queridinho, devem ficar em silêncio.

- Eu sei. Desculpa.

Pausa. Lata vazia indo pro chão.

- O Laurinho disse que prefere o Edu Lobo.

- Numa comparação feita com quem?

- Com o Caetano.

- E o cd foi emprestado por quê?

- Porque ele queria ouvir.

- Sei.

- Verdade. Emprestei porque ele pediu.

Rodopio da lata feito com os dedos.

- Ela ainda gosta de você.

- ...

- Não há disfarce, eu vejo. Não nos olhos. Nem nos gestos. Vejo na boca.

- ...

- A boca dela quando fala o seu nome, imantado à saliva.

- ...

- Sai melífluo, sabe? E-du-ar-do. Causa uma interrupção na frase. Teu nome quebra a estrutura, o período, e irrompe, derretendo as sílabas nos lábios dela. E-du-ar-do...

-....

- A boca sai do tom e se agarra ao nome, aquosa. Chega a ser bonito.

Pausa. Longa.

- Foi o Edu Lobo quem compôs Tarde em Itapuã com o Vinicius?

- Não.

- Acho que não sei muita coisa sobre ele.

Pausa. Breve.

- Você transou com ela no banheiro do apê do Laurinho?

- ...

- É uma pergunta que deve ser respondida.

- Quem disse?

- A Rê.

Intervalo pra uma coçada na perna.

- Quase na mesma posição que usamos sábado passado.

- “Usamos”... Soa estranho.

Bocejo inoportuno, daqueles que duram pouco, mas que imprimem um efeito de indolência que se prolonga num tempo superior à mecânica do movimento.

- Ela parece mais divertida.

- Sossega, Juliana.

- Verdade. Dessas que sempre são associadas a uma tarde de verão.

- ...

- E ainda gosta de você.

- ...

- Até o Laurinho prefere ela. Tão nítido...

- E esse “até” tem fundamento?

- Porque a Rê também.

- ...

- Talvez você.

Pausa. Razoavelmente breve. Ligeiramente longa.

- Põe Ruth.

Espaçamento.

- Tem a ver.

- Fico feliz por ter gostado.

- Ruth acrescenta.

- E é um nome curto, passa rápido pela cabeça. Mas, ainda assim, não deixa de se prolongar num eco esquisito, pra dentro.

Nova pausa. Atemporal. Apenas pausa.

- Quem foi que você encontrou mesmo?

- Hum? Tá falando da Marina?

- ...

- Que foi?

Intervalo de segundos.

- Na tua boca vira um monossílabo.

Rodopiou a lata. E lá fora um pai empurrava o filho que aprendia a andar de bicicleta.

Um comentário:

Pretti disse...

Gostei bastante.