A velhinha

* Texto de Michel Roberto, maringaense

Ela não suportava mais olhar para a namorada de seu filho. Tinha náuseas só de imaginar o dia do casamento. Isso mesmo, casamento. Augusto havia lhe falado dias antes que iria pedir a mão de Maíra. Isso não, era demais para ela. Imaginava como seriam os almoços de domingo, sua nora sentada na frente da TV assistindo Silvio Santos enquanto a velha cozinhava para toda a família. A megera nunca a ajudara em nada, pior ainda: reclamava de tudo.

Lembrava bem daquele dia em que resolveram ir à Expoingá para se divertirem. Foi o dia mais insuportável de sua vida. Seu primogênito teve que comprar quatro maçãs do amor até que aquela mulher insignificante ficasse satisfeita. Como assim quatro maçãs!? Ela havia dado uma mordida nas três primeiras e em seguida recusado: “Não, esta não tá de acordo”. E depois da cena ainda quis ir à roda gigante. Era o cúmulo! Só de ter essa recordação, cerrava o punho direito e o batia na coxa.

Não era a primeira namorada de Augusto. As outras três foram iguais àquela, mas do mesmo modo que as maçãs, logo foram descartadas. Não eram muito melhores que a da vez, mas com certeza lhe agradavam mais. Não que lhe agradavam, eram suportáveis. As outras pelo menos perguntavam como ela estava, se o dia havia sido proveitoso, essas coisas de rotina.

Essa não fazia perguntas, apenas mandava. A única pergunta que fazia era “Por quê” e com um “e” tão prolongado que lhe dava vontade quebrar aqueles dentes brancos. Além de mandar, também reclamava. A megera tinha um repertório extenso de vontades, e por qualquer coisa dizia “Ah, amorzinho, eu preferia...”. A situação se mostrava cada vez pior para nossa querida mãe desesperada.

Certa vez, convidou o filho e a respectiva para lhe acompanharem no casamento de uma amiga. A celebração seria na Igreja Santo Antônio, próxima da casa da noiva. Porém, como de costume, a insuportável pelo  o caminho inteiro dizendo que na semana seguinte seria madrinha de uma amiga e que o casamento seria na Catedral. Isso sim que era uma igreja digna de presenciar o “sim” e não aquela que ficava num bairro de gente pobre. Não, a velhinha não ouviu isso, ou fingiu não ouvir, apenas cerrou o punho.

A gota d’água foi a festa de despedida da faculdade. Augusto estava se formando em Engenharia Mecânica e, como seria o último encontro somente da turma, foi dar aquele último tchau para seus amigos antes da formatura. Era na chácara Alice, velha conhecida dos universitários. Acontece que no dia anterior havia chovido, então havia barro em todo lugar.

Augusto deixou o carro fora da chácara, pois por ter chegado tarde na festa, já havia perdido todas as vagas que ficavam dentro da chácara. Ele e sua namorada foram pisando naquela mistura de barro com pedras. O barro de Maringá parece ser mais complicado que o barro das outras cidades. Como a terra é vermelha, ou roxa, quem sabe, o barro acaba por ficar extremamente pegajoso ou espesso. Aquela coisa de virar uma crosta no sapato de qualquer um.

Mas tudo bem, eles haviam levado chinelos e com aquele calor que fazia, já ao chegarem à chácara trataram de tirar os sapatos que já pesavam quase um quilo cada par. Todos de chinelos, biquínis, shorts, canecas da faculdade, dirigiram-se à piscina.

Confesso que aquilo perturbou Augusto. Duas horas de conversa cheia de risadas com alguém que até então era desconhecido acaba por abalar qualquer namorado. Ainda mais quando o desconhecido era o presidente da atlética, ou seja, o cara de papo fácil que pegava todas tranquilamente. E Augusto quando chegava perto não conseguia entrar no assunto, puxar uma conversa com os dois. Diante disso, foi para a piscina brincar de vôlei com o pessoal da sua sala.

Quando acabou a conversa com o presidente, Maíra procurou como uma águia seu namorado e o encontrou na piscina jogando para o time das mulheres. Não disse nada. Apenas olhou para os olhos de Augusto, franziu a testa e fez um bico. Aquele era o sinal, era a chegada a hora de partir.

No carro, nenhum comentário também. Clima pesado, Augusto não sabia se se desculpava ou se brigava com sua amada. Afinal, o que tanto aqueles dois haviam conversado ao lado da piscina? Será que Maíra não via os olhares do presidente para o seu corpo? Ele parecia um faminto vendo um prato de feijoada! Resolveu não falar nada até que ela se manifestasse. Foram para a casa de Augusto, como sempre. A casa da namorada era um território proibido, não podiam namorar em paz.

Chegaram de chinelo mesmo, levando os pesados sapatos nas mãos. Depois de abrir a porta com dificuldade, entram no apartamento e encontram a velhinha na sala fazendo um cachecol para o frio que estava por vir. Augusto apenas ouve o grito estridente de sua amada: “Amor, não esquece de lavar meu sapato!”. Aquilo fez a velhinha enrubescer de raiva. Deixou a sala com passos firmes e determinados. Parou na cozinha e pegou uma saladeira de vidro.

Já na lavanderia, ergueu aquele objeto de vidro com as duas mãos e acertou seu querido que caiu no tanque na mesma hora. Não estava morto, via-se a sua respiração. Ao ouvir o barulho, Maíra correu horrorizada para a cozinha. Só teve tempo de dar dois passos no piso de cerâmica quando levou uma pancada bem no meio da cara.  Depois desse golpe, a velhinha pulou em cima do pescoço de sua maior inimiga, fazendo-a bater a cabeça no chão, enquanto estrangulava sua vítima até o seu derradeiro suspiro.

No jornal do meio-dia do dia seguinte, o repórter questiona sobre o motivo de um crime tão torpe. A velhinha olha fixamente para o repórter. Demora alguns segundos para responder enquanto segura entre os dedos da mão direita seu cigarro que faz uma curva de cinzas e com a esquerda faz movimentos repetidos lentamente para frente e para trás.

- Filho meu não foi criado pra lavar sapato de mulher.

2 comentários:

Lívia S. Z. disse...

Apoio a bela iniciativa !!

Vamos abrir a mente ...
evoluir sempre !

gusmuradao disse...

hoahaooahohaohoahohahoa
Parabéns a todos pela idéia...
Michel... sensacional
Lembrei até daquela lenda urbana marigaense da velhinha que tomou chá de fita e lavou o microsystem no tanque...