A produção literária dos blogs maringaenses

* Texto de Rafael Zanatta


Publicar um livro, um conto ou um poema era uma das grandes tormentas na vida de um escritor. Não mais. Nesse final de década – a segunda da revolução tecnológico-comunicacional provocada pela internet – os blogs romperam com o paradigma estabelecido pelas editoras no âmbito da produção e publicação literária.

José Samarago, o mais famoso escritor em língua portuguesa (vencedor do prêmio Nobel em 1998 e falecido na última semana), bem sabia desta transição paradigmática e mantinha, há algum tempo, o blog Cadernos de Saramago, que considerava “um espaço pessoal na página infinita de internet”.

Ora, se Samarago - com seus oitenta e oito anos – era consciente da importância do blog para um homem das letras, que dirão os jovens escritores contemporâneos de Maringá?

Eles bem sabem e fazem uso de tal ferramenta. Entretanto, o problema já não é tornar público uma produção literária, mas sim fazer com que possíveis interessados tenham acesso aos seus textos.

O desafio é firmar o nome através da escrita virtual e, neste aspecto, a produção é vasta em Maringá.

Na poesia, Ana Guadalupe destaca-se como uma das jovens artistas da cidade, após ter seus poemas selecionados para a antologia bilíngue espanhola Otra Línea de Fuego – Quince poetas brasileñas ultracontemporáneas (selo MaRemoto, 2009). Em Junho deste ano, Guadalupe integrou o rol de poetas do livro Peso Pena – antologia de poetas contemporâneos, lançado em São Paulo. Desde 2007, Ana Guadalupe publica seus textos no blog Roxy Carmichael Nunca Voltou.

Na Cidade Canção, Aguinaldo Cavalheiro (o Guiga) também é escritor com forte inspiração pós-moderna, de difícil conceituação literária, em razão de seus poemas corridos sem pausas parágrafos ou acentuações tudo em letra minúscula. O escritor publica os poemas em seu blog.

Outro excelente escritor neste universo on-line maringaense é Nelson Alexandre, que mantém desde 2007 o blog Encruado. Lá, Alexandre publica seus poemas, que ora levam um tom mais sombrio e pessimista, ora instigam o leitor ao processo criativo da arte - raio de sol.

Há também o blog A Ferrugem Está na Moda, do músico e escritor Michel Gomes, que vem publicando seus poemas desde o ano passado.

O blog Outras Palavras, do Departamento de Letras da Universidade Estadual de Maringá, também traz poemas e textos de jovens escritores maringaenses, como Nívea Martins e Rodrigo César Carreira, entre outros.

Já no gênero conto, são muitos os conterrâneos pés-vermelhos que vem produzindo e publicando na internet, em diversos estilos.

Talvez o mais famoso blog deste gênero seja o agora extinto A Poltrona, do escritor Wilame Prado, que lançou recentemente o e-book Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida – uma coletânea de contos escritos por Prado durante os últimos três anos em sua página virtual. Atualmente, Wilame é cronista do maior jornal em circulação de Maringá e publica seus textos no blog do O Diário.

Outro escritor de contos de destaque em Maringá é Alexandre Gaioto, que também é conhecido por suas matérias jornalísticas. Gaioto, formado em Letras pela UEM, escreve sem medo sobre sexo, violência e o lado sórdido do ser humano – impossível aqui não pensar em outro paranaense, Dalton Trevisan. Apelidado pelos amigos de “Canalha”, Alexandre Gaioto publica textos inéditos mensalmente em seu blog.

Em se tratando de mini-conto, deve-se atentar para Michel Queiroz, jovem escritor maringaense que venceu o concurso literário da Revista Piauí com o conto “Edifício Três Marias”. Todo o trabalho de Queiroz está disponível no blog que leva seu nome.

Influenciado por Borges e Eco, outro jovem escritor da Cidade Canção é Marcos Peres, autor do blog Crônicas de Gaia. Peres, que é formado em Direito pela UEM, escreve longos contos, que esbanjam referências literárias. Um escritor do fantástico em ascenção.

Ainda nesta safra de novos escritores com formação jurídica, temos Michel Roberto de Souza e Bruno Vicentini, ambos contistas que estão se iniciando neste emaranhado virtual. Os dois possuem concisão e densidade em seus textos e os publicam em blogs que tem nomes semelhantes. Enquanto Souza mantem o blog Comentários impertinentes, Vicentini publica seus contos no blog coisas sem ênfase.

E isto só para relatar uma parte dos escritores de Maringá que publicam seus trabalhos (sem conotação econômica) em blogs. Afinal, elenquei aqui (ou ao menos tentei reunir num só texto) a produção literária dos blogs maringaenses que eu, Rafael Zanatta, conheço. Conhecimento, este, limitado – o que nos leva necessariamente ao problema do acesso trazido pelo novo paradigma da publicação literária virtual, conforme discutido no início do texto.

Talvez seja a hora de tentar reunir os textos dos jovens escritores de Maringá num só local.

Por isso a pertinência de um projeto como o “Contos Maringaenses”, que tem por objetivo lançar um e-book lançar um livro de contos que tenham alguma conexão com a Cidade Canção.

Não se trata necessariamente de uma nova geração de membros da Academia de Letras de Maringá, mas tão somente da utilização de um velho ditado há muito nos ensinado, de que “a união faz a força” para registrar a obra de artistas locais.

Quem sabe só assim seja possível superar o obstáculo do anonimato dos blogs pessoais, fenômeno comum em tempos de democratização da produção literária.

9 comentários:

Wilame Prado disse...

Belo artigo Zanatta. Vamos tentar unir essa classe aqui em Maringá. Nem que for para tomarmos umas cervejas de vez em quando e falar de livros. Porra: os caras lá do Rio Grande são bastante unidos e já conseguiram frutos com isso.
Um abraço.

Wilame Prado disse...

Só um detalhe: meu e-book já foi esgotado (risos). Fui aconselhado pela editora a tirá-lo da internet porque, ainda este ano, "Charlene Flanders..." ganhará versão impressa pela editora Multi Foco. Vai ser bem bacana o projeto do livro, que, pelo selo Literarte, terá ilustrações feitas por um fotógrafo, de acordo com os contos. Espero ajuda de todos para tentar vender alguns livros, já que nem rifa para a minha avó eu consigo vender! Valeu!

Michel Roberto disse...

Com certeza, Wilame! Já pode reservar o meu exemplar! Apresentei seu e-book para alguns amigos e eles curtiram bastante!

Bruno Vicentini disse...

Caras, eu sempre penso nisso de reunir. No bar mesmo, pra tomar uma cerveja junto. Ainda mais quando essas idéias do Michel começaram, e trocamos alguns e-mails "coletivos", eu sempre pensava, "seria muito melhor discutir isso tudo no boteco". Quem faz isso? A gente devia fazer, porra. Nem que seja pra contar o que tá lendo, o que tá escrevendo, que pérola garimpou nos sebos da cidade. Nós devíamos marcar alguma coisa aí. Não é?

Um abraço.

Lívia S. Z. disse...

Que os frutos dessa idéia se multipliquem para que muitos que vivem no mundo da ignorância virtual possam conhecer um campo vasto de conhecimento que é tão acessível e interessante na rede...

Flauzino disse...

Como se faz para apresentar/enviar um texto que valha para a coletânea deste e-book? Tem que ser blogueiro?

Bruno Vicentini disse...

tem nada! manda pro Michel. se bem que agora já são vários michels! que beleza.

Guiga disse...

Meu que é isso cara. Só fui ver agora, mas valeu Zanatta.

Michel Queiroz disse...

eu mal sabia desse artigo! muito bom!