Cérebros flatulentos não pensam na eternidade

*Nelson Alexandre

DSC_7087Lá fora Maringá dorme. As formigas destrincham uma barata morta no canto do cativeiro. Nenhuma radioatividade vinda dos raios solares pode penetrar as engomadas sendas cerebrais do raptado. Modigliani não existe. Namoradas não existem. Só os filmes de terror. O medo. O medo...
O quê cê acha?
Sei lá, parece que ele tá meio pálido, né?
Frescura desse cara.
Dá um rango pra ele.
Tá com fome ô gente fina?
Fala, pode falar.
Como é que ele vai falar com a mordaça na boca, esperto?
Pronto tirei, pode falá, gente fina.
NÃO... NÃO ESTOU COM FOME...
Não falei que era frescura desse cara.
EU QUERO IR AO BANHEIRO, PORRA...
O quê cê acha?
Cê não vai querê que o cara faça nas calças, vai?
É... Mas essa gente rica é cheia de história pra querer enrolar a gente, fica esperto.
Bala nele se tentar alguma gracinha.
Sei não, o Perivaldo não tá aí, melhor a gente esperar ele chegar.
MAS EU PRECISO IR AO BANHEIRO, PORRA...
Cala boca gente fina, tâmo resolvendo a parada!
Então, quem vai com ele ao banheiro?
Você!
Eu!?
Cê que tá dando uma de anjo protetor do cara, cê que limpe o rabo dele ué?
Tá achando que eu sô viado é?
Não é nada disso, cê tá entendendo errado.
VOCÊS JÁ RESOLVERAM?
Mais uma palavra e cê vira peneira, tá ligado, gente fina?
Cê é que vai levar o cara!
Não vô não, o problema é seu, cê é quem se preocupou com o gente fina aí, não vô bancá a mamãezinha de ninguém, tá ligado?
E o cara? Vai cagá nas calças?
Cê que sabe.
PORRA, EU QUERO IR AO BANHEIRO...
Tá vendo, vai logo com o gente fina no banheiro, fião!
Quem cê acha que é? Já tá querendo mandá na operação?
Vai se fudê.
Vai se fudê você, seu merda.
Que merda tá acontecendo aqui?
Aí, fala pro Perivaldo o que tá acontecendo aqui, boiolão.
Boiolão é seu rabo.
Bico fechado os dois. Que porra de confusão do caralho é essa? Tão querendo que a vizinhança toda fique sabendo que esse cara tá aqui?
EU SÓ QUERO IR AO BANHEIRO...
Ô gente fina, você só fala aqui quando eu mandar, sacou? Eu sou o chefe dessa baiuca aqui, tá sabendo?
É isso aí, Perivaldo.
Puxa saco do caralho.
Cala boca, boiolão.
Tá querendo sair no braço? Já falei que boiolão é o seu pai, seu irmão, seu...
Já mandei os dois calarem a boca, não mandei.
Porra, Perivaldo, é que a boneca aí tá querendo dar uma de anjo protetor do gente fina.
Não é verdade, só tava tentando explicar pra esse cretino a situação do bacana aí. O cara vai cagá nas calças!?
É, mas se for frescura desse cara pra chamar atenção, todo mundo se fode aqui, Perivaldo.
NÃO É NÃO, JURO, EU SÓ QUERO IR AO BANHEIRO, NÃO AGUENTO MAIS.
Já falei, ô gente fina, que você só fala quando eu mandar.
A família já tá ciente do valor exigido pra ter de volta o gente fina?
Não precisa se preocupar, não é a primeira vez que faço esse tipo de trampo. Além do mais, a família do bacana tá colaborando. Não são idiotas. Sou bem convincente pelo celular.
Mas Perivaldo, e o cara? Vai ou não vai ao banheiro?
Não falei, Perivaldo, não falei que o boiolão aí quer dar uma de protetor do cara!
Eu te arrebento seu filho da puta!
Se eu ouvir mais uma discussão aqui vai todo mundo pra pica!!! O gente fina vai ter que segurar as pontas aí, vô comprá um rango pra gente, quando eu voltar você caga, copiô?
MAS EU PRECISO IR AGORA!
Aguenta aí, bacana.
ESPERA, EU PRECISO IR AGORA!
Cala a boca, porra, já falei, quando eu voltar.
Deixa o cara cagá, mano.
Quando eu voltar ele caga.
Caralho, esse cara não vai parar de reclamar.
Se ele continuar falando eu vou enchê ele de porrada.
Legal, aí cê enche ele de porrada e fode o esquema. Ele tem que tá inteiro seu burro.
Eu vô batê de leve.
Ah, cala essa boca e liga a televisão.
Em qual canal?
O canal que vai passá o jogo do Galo.
Ah, vai assisti jogo do Galo lá na puta que te pariu. Eu vou assisti um filme, isso sim.
Então vai ao cinema seu cuzão.
Seu boiolão vai se comê com o dedo vai. E me dá um cigarro aí.
Vai fumá lá na cadeia, seu escroto.
Me dá um cigarro se não te arrebento na porrada.
VOCÊS DOIS, PELO AMOR DE DEUS, TÔ PRA DEFECAR NAS CALÇAS. AI, PORRA!
Aguenta as pontas que o negócio agora é entre a gente, bacana. Vai me dá o cigarro ou não?
Vem pegar ele aqui.
Tá me provocando?
Nunca leu uma frase que picharam lá num muro perto da UEM?
Quê?
Sabe ler?
Vai tomá no cu.
“Cérebros flatulentos não pensam na eternidade.”
Que porra é fratulento?
Flatulento, seu babaca, peido, exatamente o que você tem na cabeça. Um monte de bosta em estado gasoso.
Tá vendo o meu ferro, boiolão? Você para bala no peito? Cê pensa que é o superman? Merda na cabeça teve a sua mãe em botá você no mundo.
Você não tem coragem de atirar.
Qué vê?
Duvido.
AI, MEU DEUS, AI MEU DEUZINHO DO CÉU, TÁ NA PORTINHA JÁ.
Seu puto vô te enchê de chumbo.
Perivaldo entra carregando quatro marmitas. Vê o canhão apontado.
Que merda é essa?
AI, MEU DEUS, AI, MEU DEUS!
Larga a arma Tião, tô mandando.
Vai se fudê você também, Perivaldo.
Seu bosta, eu sô o chefe dessa baiuca.
Era, toma.
Um disparo seco.
Você atirou no Perivaldo, seu burro.
Tá morto?
Mortinho.
EU NÃO AGUENTO, EU NÃO AGUENTO!
Desamarra o cara, vai.
Você sempre quis ser o chefe, né?
Anda logo.
Tudo bem vou desamarrar o cara.
Anda logo.
Pronto tá solto.
Agora vira de costas.
Nem fodendo.
Então atiro pela frente mesmo.
Outro corpo no chão.
E aí gente fina? Seu célebro é fratulento?
HEIN?
É fratulento?
NÃO...
Me diz a razão.
Silêncio.
Me diz, vai!
EU ME CAGUEI TODO...
Huuummm... Porra, então vai fedê lá no inferno.
Terceiro corpo no chão.
Na televisão nenhum filme interessante. Tião senta na poltrona e rasga a tampa de alumínio de uma marmita. Arroz, feijão, uma coxa de frango enorme e batatas fritas. Troca de canal, e por um instante percebe que está assistindo ao jogo de futebol. O Galo abre o placar contra o Nacional de Rolândia.

2 comentários:

Cronicas de Gaia disse...

AHAHHAHAHAHAHAHHA

Animal! Muito bom, Capitão Nelson!

Engraçado a memória. Li o conto e senti uma familiaridade com algo, mas algo distante... incerto...
Pensei e tentei procurar por um termo no Google. Achei, de fato, um conto do Eça de Queiroz que li na sétima série obrigado por uma professora chata de literatura que tinha óculos fundo de garrafa e suspirava ao ler Senhora e Pata da Gazela.
Há algumas diferenças – até pelo tempo, pelos costumes – mas há algumas boas analogias! Pros desocupados, o conto está aqui:

http://www.gargantadaserpente.com/coral/contos/eca_tesouro.shtml

Vamos que vamos, Capitão!

Ninguém José disse...

Ri pra caralho! Você é a personificação de um Bukowski contemporâneo. Yeah!