Ouroboros


Twins
Não lembro ao certo o horário, nem mesmo o dia, guardo apenas aquele fato, as suas cenas, seus detalhes e tudo aquilo que me marcara profundamente. Havia gemidos de prazer ou dor, não sei dizer bem... Talvez um pouco dos dois. Quando parou o barulho eu já havia saído do meu quarto e estava sentado no chão, entre a porta de meu quarto e a porta do quarto de meu irmão. Foi quando vi uma garota nua saindo do quarto dele, e se não me falha a memória, fora a primeira vez que vi uma mulher nua, com seu pequeno par de glúteos e suas costas, tão alvas e brancas... Uma bela imagem, que eu queria ter pra mim. Mas doutor, acho que isso não vai solucionar o problema... 

Você pode ter razão. Seu irmão está voltando para casa, e você está casado com a antiga esposa dele, que por sua culpa acreditava que seu irmão havia falecido... 

É doutor, e isso está destruindo minha paz e meu sono. Fico com essas lembranças, de quando a vi pela primeira vez. Também me pergunto se ele recuperou a lucidez, se ele se lembra de tudo que aconteceu e se vai querer se vingar de mim. Na verdade doutor, eu não sabia que um louco podia se recuperar... 

E eu não sabia que um morto podia voltar à vida. 

Concordo que seria melhor que ele estivesse morto. 

Sabe que não eu disse isso. 

Sim, sim, mas não importa. Talvez dessa vez eu devesse matá-lo de verdade e simular um acidente... 

Nem brinque com isso, porque quando você alimenta uma ideia em seu íntimo, ela acontece em algum plano da existência, ela se torna real no campo das ideias, em uma realidade paralela a essa, até que se consuma e se torna realidade na injunção social na qual está inserido, e você pode acabar dando vazão a esse desejo nutrido em seu inconsciente, o que será muito pior pra você... 

E seria pior por qual motivo? Eu quero que ele desapareça e passei a querer isso desde que ele se casou com a mulher que eu amava. 

Mas você tem que ter em mente que você está dentro de um Sistema que controla as ações sociais de todos os indivíduos, e esse Sistema tenta se desenvolver aos poucos para um modelo mais justo e harmônico, e não pode deixar que uma anomalia dessas ocorra. Não pode deixar que um “ente” da vida destrua outro. Você estaria desestruturando algo que é maior que você, e poderia chamar a atenção do Sistema para você. E ele iria ficar olhando pra você, para te corrigir, senão para te eliminar. 

Você está querendo dizer que sou escravo de uma condição exterior a mim e não posso fazer nada para mudar? Papo furado! Você deve estar ficando é maluco! 

O Sistema não impôs nada a você. Foi você que escolheu como ele funcionaria em sua vida. Você quis que seu irmão roubasse a garota que você amava. Você quis conhecê-la naquela condição que me narrou, e também foi você quem quis o afastamento e agora o retorno de seu irmão. 

Você fala como se entendesse perfeitamente o funcionamento desse grande Sistema. Aposto que a sua mulher está agora te traindo, emitindo aquele gemido que você gosta enquanto ela transa com seu melhor amigo. O que acha? 

O assunto aqui é o seu problema. 

Não quer falar disso? Acho que vou visitar sua esposa, quem sabe ela também não me faz uma consulta. 

Do que está falando? Estou tentando te ajudar a entender essas questões e você quer ironizar e atacar a minha vida. Realmente acha que isso pode te ajudar de alguma maneira? 

Eu sei que não vai resolver, assim como toda essa história de Sistema também não vai. 

Meu jovem, a vida real se expressa por linhas invisíveis que ninguém pode perceber. A realidade do pensamento coexiste com o mundo dito real, e isso a todo o momento. Cada escolha que faz é um momento de definição para o ser humano, não excluindo a ocorrência da alternativa deixada de lado, que ocorre em um plano distinto desse, sendo o mundo real para aquela escolha. Em seu universo de construções, você matou seu irmão inúmeras vezes e de diversas formas, você foi preso, foi morto, teve uma vida feliz, criou filhos, se casou com outra mulher, é um solteirão de meia idade, e ainda mais, todas as realidades que você pôde conceber em algum momento da sua vida ocorreram em algum lugar desse Universo, mas a escolha pertence a você, a este cara que está na minha frente, porque é você quem define a sua vida e traça o próximo passo do Sistema, e isso tudo é devido ao livre-arbítrio, que é absoluto, tão absoluto que nem mesmo Deus pode intervir e interferir nele. 

Eu não contei ainda a verdade para o doutor... 

Então conte. 

Eu já matei meu irmão centenas de vezes. Eu já me matei centenas de vezes, e ainda estou aqui, e esse é o meu problema... 

Este não é o seu problema, esta é a sua solução. 

Desculpe doutor, mas não estou entendendo. 

Você não está entendendo, mas agora pode entender. A questão é que tudo isso está ocorrendo em um plano de consciência distinto ao comum e você vai voltar para aquilo que chamamos realidade, voltaremos para a minha sala e você vai perceber que tudo poderá ser resolvido, porque o universo estará sendo refeito, você escolheu reprogramar o Sistema, e ele está corrigindo as falhas, você sentirá uma sensação de vazio, sentirá falta de algo sem saber o que exatamente é e num futuro vai me procurar novamente, com novos conflitos e novas dificuldades. Esse é o ciclo que você escolheu. 

Espere doutor. Entendi o que está fazendo, você invadiu meu Universo particular, está brincando com minhas crenças, minhas paixões e minhas dores. É hora de parar, quero acordar! Sair desse lugar! Chega! 

Você não pode. O Sistema está inicializando. 

Não quero saber essa história de Sistema. Quero acordar agora! 

Você não pode acordar porque ainda não quer acordar. E já sabe o que você vai escolher fazer quando sair desse lugar? 

Ainda não sei, e isso não importa! Mas... como você fez isso? 

Você é quem fez. Eu não existo, sou fruto da sua imaginação, você me criou para entender e encontrar as respostas que procurava. 

Então qual é a resposta? 

Eu não sei. Sou uma ferramenta da sua mente. Você talvez nem esteja aqui, talvez você esteja dormindo. Ou já esteja até morto. 

Não. Eu já sei o que vou fazer. Se isso for um estado de consciência que pode ser proposto por um conflito íntimo, vou provocar esse conflito em meu irmão e ele não vai voltar. 

Não existe irmão algum. 

Como? É lógico que existe! 

Não existe. Ele foi mais uma ferramenta criada pelo seu inconsciente para se livrar da culpa de certas atitudes tomadas por você. Não foi ele quem dormiu a primeira vez com a sua esposa, mas foi você mesmo, que assustado com o sangue de lhe romper a virgindade fugiu. Assim como em todas as brigas que você teve, assim como em todas as dificuldades. Você criou centenas de personagens fictícios que existem com você no mundo e que servem apenas para tornar sua existência mais cômoda e superficial. Acredito que agora seja o melhor momento para você voltar para a sua vida, destruindo esses personagens fictícios, apagando os ídolos que escolheu adorar. 

Está dizendo que meu livre arbítrio e meu pensamento fizeram com que eu brincasse de Deus? Está dizendo que minha vida foi toda uma mentira? Então o que é real? 

Ela não foi uma mentira, porque ela existiu, ela só não foi real. E esse seu questionamento é válido, principalmente agora que você percebeu que as pessoas vivem em um mundo projetado, que não significa necessariamente a realidade. 

Pode até ser que você esteja certo. 

Então está disposto a acordar? 

Sim. Quero ver até onde minha imaginação e essa interação com esses universos me levou e quero ver como é a minha vida real. 

Temos que dizer adeus. 

Não, não temos, porque você sou eu. 




Acordamos todos os dias e não temos respostas para nada. Algumas vezes tentamos procurá-las, outras vezes tentamos ignorá-las, mas é preciso saber que o universo particular existe e ele guarda os segredos de cada Espírito que habita este Universo onde o nosso Mundo gira.

3 comentários:

Cronicas de Gaia disse...

Bem Borgiano. A parte dos distintos planos coexistentes me lembrou muito "O Jardim das Veredas que se bifurcam" que, por sinal, como o seu conto, também é uma metáfora do aboluto livre-arbítrio. Caso o autor deste texto não tenha conhecimento do "Jardim...", recomendo que o faça. Certamente será uma leitura proveitosa!. O tema do duplo e o brincar com esta linha tênue que separa realidade e sonho muito me agrada. Também há ecos Borgianos nestas passagens e, sei, é um tema recorrente e sedutor e, por isso, muitos o utilizam. A parte em que dialogam sobre o livre arbítrio e o pensamento resultarem na invenção de uma mentira "brincando de Deus" lembrou-me uma cena memorável de Cidade Dos Sonhos, do David Lynch em que, pra mostrar que tudo não passa de um sonho, a protagonista vê um músico no palco fingindo que toca e gritando "No hay Banda!"
Enfim, parabéns pelo conto. Marcos

Flauzino disse...

Metassombro

eu não sou eu

nem o meu reflexo

especulo-me na meia sombra

que é meta de claridade

distorço-me de intermédio

estou fora de foco

atrás de minha voz

perdi todo o discurso

minha língua é ofídica

minha figura é a elipse

(Sebastião Uchoa Leite)


A sensação de olhar-se e assombrar-se consigo mesmo. Isso muitas vezes acontece comigo, seja na frente do espelho, seja na frente de outras pessoas. Por isso me vejo no poema “Metassombro”, de Sebastião Uchoa Leite, já que não me vejo quando deveria me ver. O ser estranho que mira sua própria imagem e a imagem que mira o ser estranho são como o poeta que mira o leitor e o leitor que mira o poeta. O oroboro também assombra e faz sombra.

“Eu não sou eu/nem o meu reflexo”, diz o eu-lírico do poema e também diz o “eu” que está dentro de mim, esse “eu” que é o que lê, cuja vida se espelha nos textos literários. Eu sou aquilo que eu leio, logo não sou eu e minha reflexão sobre o lido, na verdade, vem no navio de outras influências. Minha interpretação são interpretações de outros. O que eu consumo acaba me consumindo. Fico na “meia sombra” de outros, tendo como meta a luz e perco minha própria voz.

Também perco minha voz, no entanto, porque tenho medo do reflexo das minhas palavras. “Perdi todo o discurso”, não consigo, e nem posso, dizer o que penso, porque se o dissesse encontraria problemas. “Minha língua é ofídica”, tem veneno, mas a peçonha não pode ser inoculada, afinal tenho que ser político, não me indispor com uma porção de pessoas que não gostariam de ouvir o que eu penso. Preciso me cuidar, tenho interesses e, por isso, me calo ou não publico o que escrevo, as palavras guardadas nos desvãos do cérebro ou nos arquivos do computador.

O oroboro come sua cauda e some. Ao não ser eu mesmo, ao fazer sombra sobre mim, desapareço. “Minha figura é a elipse”.


(Trabalho apresentado por Cassionei Petry para a disciplina Leitura e texto poético, ministrada pelo Prof. Dr. Norberto Perkoski, no Mestrado em Letras da Unisc.)

Hygor Zorak disse...

Obrigado pelas indicações, já vou ler e assistir! E também gostei das referências (o poema e o trabalho acadêmico).