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A voz forte daquela mulher


Então, pela primeira vez na vida, ela resolveu me ligar. Empapuçadas suas palavras, saindo de uma garganta que já teve de gritar muito e, por meio do som alto da sua voz, conter ânimos, bradando sempre em busca de paz. Mesmo com tantas dificuldades na vida, aquela mulher nunca se abalou. É forte, e consegue até sorrir, ainda que percebendo um monstro depressivo tentando, no dia a dia, e no dia após dia, consumir suas entranhas, chupar teu sangue, comer suas vísceras. Dor. Sofrimento. Solidão. E ela resolveu me ligar. E fez questão, talvez com a ardência e loucura de uma febre que nunca mais vai passar, de cantar versos rimados, ensaiados, compostos por ela e muito bem interpretados. A voz daquela mulher é linda. É forte, ainda. É tradução de lamentação, mas que aquece a alma e aquieta o coração. Naquele domingo, completamente bêbado de sono, ouvi a sua voz. O relógio marcava 8h17. 

Irritação


Ouvia o som vindo lá de fora. Alto-falantes acoplados em um automóvel emanavam um som esbravejante. O intuito era anunciar que o sabão em pó lavador de roupas está custando apenas R$4,90. E o quanto aquele som me incomodava! Irritante era a voz do locutor. Irritação. Será mesmo que alguém, ao ouvir aquele som irritante, resolve escolher aquele supermercado para comprar um sabão em pó?

Por isso ainda prefiro os folhetos promocionais. Eles não falam, apenas sujam a cidade. Mas servem também para embrulhar porcelanas ou forrar gaiolas com periquitos cagadores. Assim como os jornais, que desempenham excelente função no embrulho de peças de polimento na oficina do pai de um amigo meu, que, curiosamente, é jornalista.

Esse meu amigo me conta histórias engraçadas sobre o jornal que embrulha as peças tão bem. Ele me disse que não é raro o pai dele já ir logo embrulhando as peças polidas com a edição do dia, sem nem sequer ler uma notícia.

O meu amigo jornalista leva na esportiva o fato de que nem mesmo o seu pai acompanha o seu trabalho diário com o jornalismo. Faz chacota quando, por coincidência, encontra uma bela peça polida perfeitamente forrada com uma página contendo uma reportagem que demorou uma tarde inteira para ser produzida.

Fazia calor naquela tarde de janeiro em uma cidade pequena, insuportável e arrogante. Jornais espalhados pelo chão da sala ficavam se mexendo com a força do vento de um ventilador trazido do Paraguai. Foi quando, sentado em um desconfortável e pinicador sofá laranja, eu me lembrei da história contada pelo meu amigo jornalista sobre as peças forradas com as suas reportagens sanguinolentas. Foi quando, por um impulso causado pela raiva e pela irritação, peguei um revólver e atirei nas caixas de som daquele carro de propagandas e calei a voz do locutor que anunciava o preço da caixa de sabão em pó.

Passou em frente à lotérica e quis metralhar todo mundo


Passou em frente a uma casa lotérica e percebeu considerável fila invadindo a calçada do estabelecimento. Pessoas com alguns papéis nas mãos e com caras de poucos amigos. Raciocinou e se recordou que era dia 20 do mês, data em que muitos recebem um adiantamento do salário. Estariam pagando as contas? Ou seria a Mega Sena, prometendo pagar, no dia seguinte, quase R$ 50 milhões? Por uma fração de segundos, vacilou, sentiu sua pressão cair, não controlou bem seus pensamentos e quase pegou no banco de trás do carro a metralhadora que acabara de utilizar, não fazia nem vinte minutos, em um assalto à banco. Em uma rajada de balas só, veria corpos caindo ao chão e papéis picotados de documentos, que já não valeriam mais nada, flutuando no ar. Depois do som ensurdecedor causado pelos trovões de sua arma, sairia dirigindo tranquilamente pela ruas, ao som de um velho e bom blues. Ao ouvir a buzina do carro de trás, meio sonolento e assustado, sentiu um calafrio e quase afogou o carro ao pisar no acelerador vacilante. Em poucos minutos, conseguiu se livrar daqueles pensamentos tórridos e também do trânsito caótico. Já na rodovia, sentiu a refrescância do vento batendo em sua cara, momento em que notou que havia suado frio e que poderia estar com um princípio de febre. Acendeu o último cigarro do maço e se deixou levar pela sonoridade da música enquanto olhava as plantações de milho ao lado e imaginava o quanto seria bom ter uma garrafinha gelada de refrigerante para beber. Parou em um posto de gasolina para comprar uma lata de Coca-cola. Já com a lata na mão, destravando o alarme do carro, quase não conseguiu controlar a bambeada de suas pernas ao ver, bem ao lado do seu carro, um viatura da polícia. Nada fez, o enfardado. Apenas se concentrava no ato de devorar um cachorro quente melecado de mostarda e catchup, que parecia já ter sujado seu uniforme. Devagar, nem sabe como conseguiu entrar e ligar o carro. Saiu. Olhou para trás. Olhou para a frente. Nada nem ninguém, a não ser o asfalto eterno, o acompanhava. Começou a rir alucinadamente! Tomou sua lata de refri quase quê de um gole só e acelerou o seu Gran Torino 72.

Não tem Tezza na estante do Clariovaldo


Então perguntaram para Clariovaldo se ele daria o ar da graça no bate papo literário com o escritor Cristovão Tezza, que estaria na cidade só para discorrer sobre tal assunto e que certamente reuniria uma multidão de estudantes de Letras, poetas, escritores, músicos, artistas plásticos, jornalistas e apreciadores de contação de histórias infantis.

Ele respondeu nem que sim nem que não. Chateou quando soube que o outro convidado famosinho, Moacyr Scliar, o homem dos 100 livros publicados, não poderia conferir de perto as árvores, a Catedral e as moças bonitas de Maringá. Homem de família, talvez não pudesse viajar sossegadamente sabendo que o sogro se encontrava em uma cama de hospital. Tentou imaginar o quanto de idade poderia ter o sogro de um homem que já publicou 100 livros. Bom. Talvez, como fazem muitos velhos ricos, Scliar tenha casado com uma mulher 30 anos mais nova e, certamente, teria um sogro com idade semelhante a sua.

Acabou não indo, o Clariovaldo, ao Sesc, conhecer de perto o autor de dois ou três livros que sentiu prazer em ler. Mas, mesmo com o público e crítica extremamente contrário ao seu gosto, ele não achava tão bom assim o “O filho eterno”. Gostava mais é do “Trapo”. Identificava-se bastante.

Já perdido pela indecisão, no meio da rua, lembrou-se de uma história que um jornalista de Curitiba o contou uma vez e que dizia respeito ao Tezza, grêmio estudantil e certa prepotência por parte do escritor, que, na época, deveria ser estudante de Letras ou já professor universitário. História estranha, ouvida enquanto tomava uma garrafa de vinho doce Paschoetto. Para conseguir tal proeza, a de tomar um vinho doce Paschoetto, colocava meio copo de vinho e meio de água. No final das contas, já não tão sóbrio, acabou sentindo que talvez houvera, no discurso do jornalista contador de histórias, uma pitada de inveja. Naqueles tempos, com seu último romance publicado, Tezza estava ganhando tudo quanto é prêmio de literatura.

Clariovaldo, reclinando mais uma vez a sua ida ao reconhecimento pessoal dos homens das letras, sentiu-se amedrontado e preferiu ficar só com os escritos dos escritores e não com as palavras faladas. Ainda não conseguia ser convencido de que um homem que escreve bem vai falar bem, ou para o bem de algo.

No final das contas, teve de inventar uma desculpa. E, para não mentir, foi procurar algum livro do Tezza na sua estante, para depois justificar a sua ausência de uma maneira nobre: diria a todos que, enquanto todos estavam ali, ouvindo o Tezza, ele estaria acolá, lendo o Tezza. Brilhante, pensava. Ficou extremamente zangado quando se recordou que, na sua estante, não havia livro algum daquele autor. Emprestara o seu “O filho eterno” e, os demais livros lidos de Tezza, tinham sido consumidos vorazmente em uma época em que a biblioteca era praticamente a casa de Clariovaldo.

Mesmo assim, conseguiu dormir tranquilamente naquela noite seca de setembro. Amanhã cedo, poderia ler algumas crônicas de Tezza no jornal da capital.

Fuga


Caçando por aí, costumo andar atrás de meninas que estão sozinhas pelas ruas. Acho que sinto o cheiro delas. Costumo dizer aos meus amigos no bar: “as que estão mais fedidas, são as que mais querem sexo fácil”. Acho que sou um homem bom. Acordo todos os dias cedo. Quem madruga, dizem, Deus ajuda. Acordo todos os dias cedo e não peço ajuda pra ninguém. Acordo todo dia cedo pra fumar meu primeiro cigarro. É quase uma doença. Se eu acordo cedo e percebo que fumei todos os meus cigarros na noite anterior, fico bravo. Meu dia estraga. Tenho que ir na padaria comprar cigarro. É quando resolvo trocar o cafezinho pela pinga, que me desce rasgando, a danada. Se estou com fome, como um ovo cozido e fica tudo certo. Quando chega de noite, inicio minha caça. Pego minha magrela e vou andando pelas ruas de bairros afastados da minha casa. Todo dia, consigo alguma coisa. Uma emoção diferente. Uma história nova pra contar no bar do Jair. Ontem mesmo, acho que nunca me senti tão realizado, sexualmente falando. Persegui uma gorda, jovem ainda, que viu graça no meu tesão por ela. Ficamos amigos. Assim foi mais fácil. Conversamos uns dez minutos, meu recorde em diálogo com mulheres. Disse a ela das minhas características melhores. Vocês sabem: o velho papo que eu faço isso, que eu sou aquilo, que o meu mede tanto. Enfim. Balela. Senti que ela gostava do papo sacana. A coitada devia estar há alguns anos sem ver homem, não é possível. Depois disso, ela me levou pra um terreno baldio que ficava perto de sua casa. Fizemos amor gostoso, como nunca. Acho que me apaixonei. É por isso mesmo que hoje, logo pela manhã, passei na padaria, tomei meu primeiro pingão e comprei dois maços de cigarro pra vazar daqui de Maringá. Vou passar uns tempos na casa da minha mãe, em Santa Fé, tentando esquecer aquela mulher lá no bar do Vargas, 24 horas por dia bebendo, jogando sinuca e contando vantagem pros parceiros do truco, aqueles velhos tolos. Pensando bem, meu único erro, naquele dia, foi anotar o telefone dela no meu celular. Nunca faço isso. Não quero compromissos. Peguei o telefone só pra não ficar chato, mas agora não consigo apagar da memória o bendito número. Deus me livre de ligar pra ela. Guarda minha bicicleta lá no fundo e tranca com o cadeado. Meu busão chegou. Se cuida malandro. Um abraço. Fui.

Alexandre Gaioto, um canalha

* Texto de Wilame Prado, publicado originalmente em seu blog em O Diário.


Quem já teve a oportunidade de conhecer o Alexandre Gaioto, 22 anos, formado em Jornalismo e Letras, repórter de O Diário, não tem dúvidas: ele realmente é um canalha. Mas um canalha gente boa! “Canalha”, aliás, é como Gaioto chama gentilmente seus colegas. Quando inspirado, gosta de chamá-los também de “calhordas”.

Detentor de um texto conciso, claro e ousado, quando escritor, Gaioto investiga as podridões que estão escondidas em nossa Maringá, uma cidade que, de dia, enche-se de capa e perfumes importados do Paraguai, mas, que de noite, madrugada ou no amanhecer, transfigura-se.

É quando os personagens de Gaioto – ladrões, anões, prostitutas, desdentados, pedófilos, feios, toscos, crianças molestadas – ganham vida em casas de prostituições, ruas daquele bairro pobre, em Sarandi, perto do Bar do Vermelho, em pontos de ônibus, dentro da circular ou até mesmo naquele bosque movimentado da cidade.

Possuidor de uma verve jornalística que não poupa distâncias geográficas e nem solas de sapato (Gaioto já foi atrás do Chico Buarque em Goiás, bisbilhotou a vida e trocou palavras com o Dalton Trevisan em Curitiba, bateu um papo, no Rio de Janeiro, com o Rubem Fonseca e, mais recentemente, entrevistou o Lourenço Mutarelli em São Paulo em seu próprio apartamento), quando jornalista, Gaioto produz reportagens sem temer a primeira pessoa jamais e que, justamente por isso, presenteia seus leitores com muita sinceridade, veracidade e, graças às técnicas do jornalismo literário, textos saborosos de se ler.

Alexandre Gaioto e sua produção incansável de contos, crônicas, resenhas literárias e reportagens você só se encontra no blog deste canalha! Eu recomendo!