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Paridos e Rejeitados

Seria injusto dizer que não ganhei nada com os Contos Maringaenses. Nada financeiro, é verdade. Ganhei amigos, alguns bons parceiros de bar e alguns textos que ficaram e ficarão gravados em minha mente por muito tempo. Muitos destes textos são de autoria de um cara chamado Nelson Alexandre.
Vê-lo publicar seu Paridos E Rejeitados não traduz apenas o sentimento bom de ver um amigo alcançar um sonho. É Também a alegria de ver as letras maringaenses brilharem na voz de um grande escritor. Ver o Nelson com seu livro editado é, desde já, histórico: um dos grandes escritores de uma nova safra, advinda de blogs e de espaços virtuais. É o porta-voz de uma geração que se conheceu antes pela internet do que por um simples aperto de mão e, antes de qualquer um tecer elogios pro outro, já haviam proliferados Curtir nas redes sociais.
Ver o Nelson ao vivo autografar seu Paridos e Rejeitados é, desde já, memorável, desde já um marco para ser lembrado entre os nossos e entre a literatura maringaense. Tenho certeza – como já a tive em alguns momentos – que nesta quarta-feira a história estará sendo feita diante dos nossos olhos. Um curto passo para um feio barbudo que não escreve sobre Maringá, mas sim sobre Space City. Um grande passo para um escritor que, certamente, publicará muitos e muitos livros em sua vida.
Tenho a mania – e alguns tomam o ato como mostra de exibicionismo ou de tentar demonstrar cultura – de, redundantemente, citar excertos de livros alheios. Pelo contrário, justifico-me: não cito para me promover, mas simplesmente para dizer que, se eu reproduzo determinados trechos, é porque eu nunca seria capaz de condensar a profundidade daquelas linhas com algo que seja de minha autoria. Gosto, confesso, de condensar as obras alheias que me agradam em máximas que possam sintetizar o pensamento do autor, naqueles aforismos que entram por nossa cabeça a deixam martelando, martelando. Por que digo isso? E agora?
   Porque simplesmente o Nelson é um desses escritores (como Borges, como Saramago), que quando o leio, penso, algumas vezes: “porra, esse trecho tem que ser a citação de algum conto meu!”
Exemplifico com alguns trechos:

“Que cheiro de queimado”.
“É o cheiro do inferno”, eu disse num lamurio que saiu entre os dentes.
Ela balançou a cabeça de forma negativa, colocou o jornal na minha frente, serviu o café, e não trocamos mais nenhuma palavra.

***

“E aí gente fina? Seu célebro é fratulento?
HEIN?
É fratulento?
NÃO...
Me diz a razão.
Silêncio.
Me diz, vai!
EU ME CAGUEI TODO...
Huuummm... Porra, então vai fedê lá no inferno.”  

***

“Sou o Homem Elefante.” Disse.
“Tente não ser, como eu tento não ser uma boneca de plástico.” Respondeu

***

“Dançavam entrelaçados como dois cavalos marinhos, quando as luzes do mundo resolveram se apagar. Dez horas. Toque de recolher”.

***

Nunca gostei de despedidas, mas o suicídio sempre me atraiu. Deus me livre, você deve estar pensando, mas e daí, não gostou? Vá ler Bianca. Ninguém é obrigado a ler o que não gosta.

***

Sou um cronista encruado, mas em meu coração sou o piloto do maior foguete envenenado rumo à lua, essa musa de abandonados e reconciliados. Pra quem quiser me amar, meu coração é um bar de portas abertas esperando uma cerveja gelada e um par de mãos femininas para fazer suturas daquilo que já está curado. E tenho dito

***

"Sou mulher e sou tua". Encontrado anos depois numa praia de Santos, dentro de uma garrafa de merlot, um bilhete tinha o seguinte dizer: "Que venha a primavera, inverno aqui, não há mais..."

***
E a minha preferida:

Depois dessa escolha, o negócio é agarrar-se a essa ideia com dentes e unhas. Desejar e colocar em prática esse desejo que quer se libertar de correntes e cadeados.  É  preciso, ainda, extrair desse desejo todo o sumo que nele existe, cuspindo toda a sobra, todo o resíduo que insiste em querer retardar esse processo mágico.

Você fica na distinta problemática de querer matar ou morrer.

Ler o Nelson, para um apreciador de aforismos e frases impactantes, como eu, é um verdadeiro néctar, pérolas devidamente separadas dos porcos. Mas não é só isso. Ler o Nelson é sentir a poesia crua e delicada que vem de Space City. E se eu, mero leitor, pudesse conceituar na Wikipédia a definição deste incerto local, assim definiria: “Local em que prevalece a antinomia de brutalidades de mortes e vidas sem sentido coexistindo pacificamente com delicados poetas que se vangloriam de torcer para o time local e buscam incessantemente o amor. Local em que habitam sujeitos que não sabem se desejam matar ou morrer, Sheilas Chocolate, Grutas das quais jorram ouro puro e verdadeiros Capitães que sabem a importância que tem seu navio e seu leme”.
Não por acaso chamo meu amigo Nelson de Capitão. Consta no conto “E que venha a Primavera” a história do Capitão Nelson e do provinciano Alexandre, respectivamente Jekyll e Hyde de Space City.
Que venha a primavera, Capitão Nelson. Que venha a primavera, pai do prodigioso Arturo. Que venha a primavera de uma História que começará nesta quarta-feira. Que venha a primeira primavera de muitas de nossas vidas.

Seu fã.
Marquinhos. Ou Astorga. (Marcos Peres)

Mar de Netuno

*Nelson Alexandre

Neptune & Cherubs
Com o calor, a atmosfera começa a mostrar um ar sufocado. Um ar rarefeito. O calor traz desidratação e disenteria. Mulheres e homens numa cagança dos diabos. O sol refletia o brilho que saía da garrafa de cerveja que o Junior acabava de matar num longo gole. Junior, também conhecido como “Mão preta”, era o tipo de sujeito que não estava nem aí se o carro perdesse o freio na ribanceira. Se a gente fosse morrer, era apenas um detalhe. Ele não perdia o seu jeito de moleque safado, mesmo diante do caos. Se o mundo estivesse desabando na sua cabeça, ele não tava nem aí. Ficava sempre rindo, com seu copo de cerveja na mão, comprimindo os olhos até sumirem, como se você olhasse a imagem contrária do desabrochar de uma flor. O reverso da criação. Junior havia recebido uma bolada, tinha saído de um emprego de oito anos. Oito anos em cima de uma moto entregando peças de carro. 

“Vamos torrar uma grana!” Disse, com os olhos quase sumindo da cara. Pegamos a rodovia e saímos do perímetro urbano de Space City. Fomos pra um lugar chamado “Mar de Netuno”, uma zona que fica à margem da rodovia, entre os municípios de Sarandi e Marialva. 

Na entrada do lugar, havia uma grande estátua de plástico, uma grande sereia com uma coroa e um tridente. Na ponta do seu rabo de peixe, tinha uma plaqueta com seu nome escrito: “Deise”. Deise era a anfitriã do local. Apontava na direção onde os carros deveriam ficar estacionados. Havia pouco movimento naquele fim de tarde de segunda-feira. Descemos. A casa era uma grande construção de alvenaria cercada, de fora a fora, por um enorme muro coberto em toda a sua extensão por pontiagudos cacos de vidro. Quando entramos, no céu começavam a querer despontar algumas estrelas distantes e opacas. Lá dentro, via apenas a minha imagem em todos os lados, por causa dos espelhos que cobriam todas as paredes. O bar ficava bem no meio do grande salão, onde estava posicionado um sujeito vestido com camisa branca e gravata borboleta. As garotas ficavam sentadas em pequenas mesas, rodeadas por sofás revestidos por uma espécie de couro sintético. 

Junior escolheu uma mesa bem em frente ao bar. Pra mim não tinha problema nenhum. Duas garotas que estavam sentadas em uma das mesas levantaram a bunda do lugar assim que nos viram pedir umas bebidas. Eram mulheres experientes, uns trinta anos cada uma, mas se fôssemos contabilizar a quilometragem das meninas, a extensão pavimentaria a rodovia Space City-Sinop. 

“Oi”, disseram. 

“Oi”, respondemos. 

Nem deu tempo das garotas esquentarem o banco, ela apareceu, a “novilha” do pedaço. Seu nome era Paloma. Paloma tinha dezenove anos, quero dizer, ia completar daqui a alguns meses. Junior logo perdeu o “amor” pelas duas garotas que estavam com a gente e se engraçou pro lado de Paloma. 

“Você tem um piercing na bucetinha? Ah! Só acredito vendo!” 

Junior estalou os olhos pra cima de Paloma. Parecia a cara de um grande sapo escuro com os olhos transformados em dois grandes globos com o mapa do mundo desenhado neles. Junior dispensou a minha companhia e a das garotas, olhando fixamente pr’aquelas enormes pernas, e sem abrir a boca, fez apenas um sinal com os olhos, mostrando o caminho dos quartinhos, lá no fundo. Paloma era uma deusa da safadeza. Uma morena-índia, uma cabocla vestida de sereia. Tinha uma coroa na cabeça, assim como Deise. Novas bebidas chegaram e eles partiram. Paloma agarrou o pau do “mão preta” e seguiu pelo salão arrastando o mecenas da anarquia. Todos no recinto começaram a aplaudir o sujeito que abocanhara a grande novilha da noite. Eles caminharam sobre flores e arroz. Um casamentão no Norte do Paraná. 

Fiquei sozinho na mesa, assim que as garotas perceberam que o “cara do dinheiro” não era eu. Minha única companhia era a da cerveja depositada no meu copo. Senti o líquido descer pela garganta, suave, até ouvir o tumulto na porta de entrada da zona. Um sujeito enorme, branco, rompeu a porta com uma 45 na mão direita. Ela brilhava tão intensamente quanto o relógio e as várias pulseiras de ouro que ele tinha em ambos os braços. “Merda”, pensei. O sujeito parecia loucamente transtornado, além de apresentar um comportamento de quem havia passado um bom tempo do dia mandando “farinha” pra dentro das narinas. 

“Onde ela tá?” Ele gritou pro cara de gravata borboleta e camisa branca. Ele ficou imóvel. Tomei mais um gole pra botar as idéias no lugar. Chamei discretamente uma das garotas, mas elas não deram a mínima. Bem, era compreensível, o cara era de botar medo. Parecia um urso polar com as garras pra fora. Compreendi que aquele enorme urso polar estava atrás daquela cabocla safada, e se Junior tivesse que lutar com ele, com certeza, ele seria devorado como um salmão indefeso, destrinchado com toda a força e o ódio daquela selvageria exposta. 

“Onde ela tá?” Repetiu, com mais força e raiva. 

O cara da gravata borboleta ficou mudo como se tivessem cortado a sua língua. Estava imóvel como um gato cagando de medo. Seus olhos mexiam pra lá e pra cá, enquanto ele engolia saliva sem parar. Uma das garotas começou a tremer as mãos feito um terremoto, aí, um neurônio em pânico, juntamente com outro em colapso, fizeram um estalo na cabecinha dela. Ela levantou os braços pro ar e começou a mexer rápido e a gritar: “Chama o Leonel!” O cara da 45 foi em direção à putinha e agarrou-a pelo cabelo; um enorme cabelo pintado de vermelho. Ele a rodou por cima dos ombros como se ela fosse feita de palha, jogando-a ao lado do banheiro. Ouvi seu corpo estatelar-se no chão e tudo ficar em silêncio. O cara da 45 perguntou novamente, agora, não só pro cara da gravata borboleta, mas olhando pra mim e bufando como um zebu que arrebentou a cerca. 

“Onde ela tá?” 

A garota que foi arremessada no chão saiu correndo em direção aos fundos da zona. Quando estava próxima a uma porta, que tinha um adesivo escrito: “O lugar dos sonhos”, o cara da 45 disparou um balaço na coxa direita dela. Pobre coxa, agora tinha um túnel escuro e melado de sangue. A garota ficou deitada no chão, urrando de dor e gritando sempre pelo nome de “Leonel”. Gritou tanto que deu resultado. 

Leonel apareceu no meio do salão. Pra minha surpresa, o filho da puta era idêntico ao cara da 45, não tinha diferença alguma. Duas cópias perfeitamente iguais. Ficaram alguns segundos encarando um ao outro, aí o cara da 45 disse: “Eu falei, Leo... eu falei pr’aquela piranha safada não abrir mais a boca, mas ela não me ouviu!” 

“Você quer foder com o meu negócio, não quer!? Já é a terceira vez, Hugo, a terceira vez que você vem ao meu negócio e faz cagada...” 

Leonel tirou do bolso da calça um pequeno 38 e apontou a arma pro cara da 45. 

“Não é pelo fato de termos o mesmo sangue correndo nas veias que eu não possa meter uma bala bem no meio da sua cara. Você pensa que eu tenho alguma fábrica de piranhas, pra você viver atirando nelas!?” 

A garota urrava desesperadamente no chão da zona. Pressionava o ferimento, tentando estancar o sangramento. O inferno está próximo, pensei, e ela nem ao menos pode andar. Se o chão rachasse e começasse a pegar fogo, e das rachaduras saíssem enormes lacraias, o cara da 45 não estava nem aí. 

“Onde ela tá, Leo!? Ou eu juro por Deus que eu...” 

‘Você o que, seu saco de bosta!? O que você vai fazer? Vai atirar em todo mundo porque sua mulherzinha é uma vadia!? É isso!? Por que você se casou com uma putinha que já trabalhava pra mim antes mesmo de você ter metido o pau nela!? Eu disse pra você, há um tempo atrás, pra nunca se apaixonar por uma das minhas meninas. Você é um merda, Hugo, um tremendo de um merda, burro e apaixonado por uma puta!” 

O cara da 45 sentiu o baque. Seus olhos brilharam. Ele tinha um oceano todo represado nas grandes bolsas roxas dos seus olhos. Já soltava algumas lágrimas pelo rosto. Grandes lágrimas pelo rosto gordo. 

“Mas eu a tirei da pocilga, dei casa, comida, um nome. Mas isso parece que está no sangue, como uma doença infecciosa que não cura nunca. Esta desgraçada sumiu de casa já faz mais de uma semana. Olha, eu não vou ficar discutindo com você como devo lidar com a minha mulher, entendeu? Eu só quero saber onde ela tá. Ela tá ou não tá num desses malditos quartinhos dos fundos?” 

Leonel ficou um tempo pensando, ainda com a arma apontada pro cara da 45. 

“Pode dizer a verdade, eu aguento, você sabe que eu aguento, eu só não aguento não saber onde ela tá.” 

Leonel olhou sua cópia, ali, impotente, e seu rosto estava em ruínas. Disse em bom tom. 

“Tem um cara com ela, lá nos fundos, não vou mentir. Já estão lá faz um tempão. Agora, eu quero que abaixe a arma e fique frio. Você mesmo disse que aguentaria o baque, lembra? Vamos, me dê a arma.” 

O cara da 45 soltou lágrimas mais pesadas, parecia que todo o seu rosto gordo havia se desmanchado. Ficou um tempo imóvel, depois pôs as enormes mãos sobre a cabeça e começou a gritar feito um doido. 

“Burro, como sou burro, como sou uma grande besta!” 

Caiu de joelhos, chorando como uma criança. Parecia que iria arrebentar os espelhos da parede com toda a força do choro de um urso polar. Um longo choro de agonia e dor. Leonel abaixou-se ao lado do cara da 45 e pegou a arma de suas mãos. Não houve reação por parte do cara da 45. Leonel levantou o irmão do chão e os dois passaram com dificuldade pela estreita entrada do “Mar de Netuno”. Eu os acompanhei, à distância, até o estacionamento. Entraram numa caminhonete e partiram pros lados de Marialva. Lá se foram os gêmeos. 

Fiquei um tempo lá fora, olhando pro céu. Era uma noite quente, com estrelas brilhantes e putas baleadas. O mar tinha ganhado um tom avermelhado. Fiquei ali, sozinho, e de repente, uma frase de Blake veio à minha cabeça: “O verme perdoa o arado que o corta”. 

O cara da gravata borboleta apareceu no estacionamento com a garota ferida. Carregava-a nos braços. Sua camisa branca tinha uma longa faixa vermelha que ia do peito até a barriga. Ele a colocou delicadamente no banco traseiro de um dos carros estacionados. Ela fumava um cigarro e tremia muito, mas parecia menos chocada. Partiram pra um hospital, assim que o cara da gravata borboleta trocou de camisa. 

Entrei novamente no salão e Junior estava no balcão, segurando um copo de cerveja e falando com uma das garotas. Perguntei sobre a “novilha” e ele disse que ela tinha dado no pé, assim que ouviu a confusão. “Bom”, eu disse. 

Um outro cara de gravata borboleta substituiu o antigo. Pedimos uma última cerveja (em lata, é óbvio) e caímos fora. Já no carro, colocando o cinto de segurança, ouvi Junior rir o suficiente pra acordar um berçário na China. 

“Posso saber por que tá rindo tanto? Você teve sorte, poderia estar agora dentro de uma geladeira, com uma placa de identificação.” 

Junior parou um pouco de rir, mas por pouco tempo, falava e ria ao mesmo tempo, até os olhos sumirem da cara. 

“Pelo menos teve alguma coisa de bom na noite, a trepada foi de graça, não deu tempo da vaca me cobrar.” Disse, balançando um maço gordo de dinheiro. Nós rimos até a barriga doer. Fazer o quê? 

Fomos saindo do “Mar de Netuno”, e olhei pelo retrovisor interno. Vi Deise com sua coroa e seu tridente olhando pra mim. Olhava e parecia mostrar um sorriso. Um sorriso de quem atrai um peixe pra sua rede de sedução e o deixa escapar. Mostrando ao peixe, como ele é minúsculo diante de sua rede, imagine, no fundo do oceano.

A medula e o espinhaço


O que acho mais engraçado em “Kid estresse” é a forma organizada com que ele elabora o fino. É... mãos de artesão. Confecciona o cigarrinho como se fosse um grande escultor. A sutileza das mãos. Ah... Um espetáculo maior é a paciência, virtude que ele perde quando pisam em seu calo. E depois, ele tem razão. Ele é quem se arrisca pra ir até a boca, negociar, pechinchar e, às vezes, até discutir com os malditos fornecedores da “maldita”. Não digo “um isso”, quando ele fica puto. Prefiro calar. Prefiro ficar sempre a favor da tempestade e nunca encará-la de frente. 

Somos um bando de gafanhotos famintos. Kid é sempre pomposo e dono de todas as verdades do mundo. A última palavra sempre tem que passar pelos seus lábios. Passar lentamente naquela boca que só diz mentiras e meias-verdades. O nosso círculo é uma coroa de perdedores, de masoquistas, ladrões e punheteiros. 

O repúdio à vida convencional e blábláblá. 

Eles sempre me perguntam o que quero ser na vida; eu sempre digo a melhor coisa que vem à cabeça: NADA... 

Eles se desesperam, me mandam à merda. “Como pode ser tão imbecil este idiota?” ou: “Trevis, você merece o fardo que carrega”. Mas eu não ligo. Fico sempre na defensiva, afinal, eles são um bando de mulas teimosas e, no fim, todos acabam saindo pela porta dos fundos, à francesa. Como cachorros magros. 

Quem mandará os primeiros ossos? Sei lá... Não sei... as frases principais da turma. A incerteza e o seu calvário. As almas perdidas, saltitantes como gazelas à procura do cigarrinho queimando. Upa... Tô ficando numa boa. Epa... Passou por fulano e não voltará mais. É assim, é o nosso mundinho, condicionado em um círculo de aspirações que nunca passam pelo verdadeiro objetivo: SIGNIFICADO. 

Fico com tédio, levanto-me e saio andando em direção aos bares de Space City, formulando uma cura para minha guerra interior e particular. Vou andando, cabeça baixa, clamando aos céus e chutando pedras em direção ao inferno. Fico com raiva, dando um salto fodido da rua para o meio-fio. Equilibro-me como um gato. Dô um alô antes de rasgar o verbo. Trezentos tiros na goela da mentira. Dá pra encarar? 

Então, eu começo a pensar no futuro incerto que eu vou ter que encarar como um herói de literatura épica: “Sou Trevis Bico, pronto pra matar dragões e salvar donzelas dos Agentes de trânsito com suas canetas ameaçadoras”. Eles ligam o som do carro pra vazar uma música rápida como a minha escrita. Eu faço música. Dá pra ouvir? Um proseado assaltando os seus ouvidos, alugando a sua idéia com um “171” convincente e cheio de um rebuscamento lingüístico e metafísico. Que se foda isso aí... eu tô mais interessado no que aquela gostosa está pensando do que no assunto que o doutor está querendo dizer. Eu fico assim de longe, sacando aquele olhar que ela insiste em me mandar como se não percebesse a minha existência no local... “ei! (mas eu grito baixinho, ok) é com você mesma, eu sou o Trevis, ainda acredito no poder entorpecente de uma boa frase de efeito e um bom buquê de flores”. Vinho chileno? Só se o orçamento não comprometer a estrutura da bolha de cristal que me engloba clandestinamente. O segredo do negócio é dar início. 

Começar... começar vários mundos e ter a idéia de que não se consegue terminar nenhum. O começo, sempre, é o dente mais doloroso, a ferida mais ruim de ser cicatrizada. O mundo é uma cobiça de olhos grandes, travando batalhas colossais com a inveja. A mortalha tola do ciúme descontrolado, a vibração com o fracasso alheio. Ah... nada como um bom chute no rabo dos amigos da onça e o reconhecimento e a caridade de estranhos. Preciso estar sozinho pra me encontrar realmente. Preciso dar saltos, além da galáxia, com um elefante equilibrado no nariz para que os idiotas que dizem saber de tudo, perceberem que são menores do que uma estrela desenhada com giz branco no asfalto esburacado. 

Dizer que o homem sabe de tudo é o mesmo que jogar o bilhete premiado da loteria na lata do lixo. É um insulto à ignorância do mais humilde. Um afago sacana na cabeça do cego. 

Tenho três milhões de parteiras trabalhando na extração de um novo feto, microscópico, mas tão barulhento quanto à explosão do cogumelo atômico. Ele fará nascer um movimento tão doce, que essa doçura botará medo nos piores torturadores. 

É com a leveza das mãos bem cuidadas que esses canalhas matam criancinhas ainda em fraldas. É com a leveza das mãos que nascem os textos que serão lidos. Se um único idiota gritasse: “Chega!!!”, um outro perguntaria: “Quando!?” 

Ligue o som e vamos dançar como aloprados. A banda vai arrebentar os tímpanos dos que não querem ouvir esses acordes sujos. Se não souber dançar, arrebente a goela de tanto cantar, pois não vai sobrar muita coisa dessas pobres almas de papel... 

Então olhei minha imagem no espelho. “Eu sou de carne e osso”, concluí. Não tenho nenhum órgão formado à base de celulose. Não tenho afinidade com entrelinhas opacas e com consistências literárias empoladas e maquiadas com pó de arroz. Minha fronteira entre a sujeira e a limpeza completa dos sentidos está consistindo na imagem amarelada da privada do banheiro do bar do “papai”. 

Kid não me abandona nunca. Olho pro espelho e ele está lá, sempre mostrando como está ligado a mim como o casco de uma tartaruga que sobrevive numa água parada, doente e morta. Ligo a torneira da pia e a cascata de água e excesso de cloro vão banhando as minhas mãos e as de Kid. As mãos de um assassino e as de um maníaco depressivo. 

“Vamos escrever um roteiro e rodar um “movie” de terror, Trevis?” Não quero papo com Kid, ele me deixa doente. Faz meu amor desaparecer como uma gota d’água numa frigideira quente. Kid é um sujeito bipolar. Ele se fragmenta em duas imagens que, no fundo, não passam de gêmeos siameses abortados numa violência extrema. Kid é um soldado que gosta de esmagar ossos com seu coturno, sem muita complacência. Kid e eu somos antagonistas. Às vezes, acredito, arrancamos os pulmões da literatura e conduzimos a prosa falada aos mais baixos níveis de calão. Xingamentos, nesse caso, transformam-se em estrelas cinzentas, constelações pífias, atrofiadas por um monólogo rude e, por alguns instantes, desafinadas e distorcidas. 

Mas até quando eu ficarei dependente de Kid? Ou melhor, até quando eu estarei subordinado às suas maldades? Às suas “não-inclusões” em rodas de “amigos”? Em participações reais a determinados tipos de sentimentos? Quando eu estarei livre dessa camada grossa que cobre meus braços e pernas, parte do rosto, das mãos e das pernas? 

Olhando minha imagem fixamente no espelho, vi a metamorfose derreter a pele clara que cobria o meu esqueleto e dar nascimento a uma figura híbrida, com barba, um olhar voltado ora para baixo, ora para uma dimensão enclausurada entre o vácuo de uma aridez desértica, ora para os seios e pernas das acadêmicas que flutuavam em outra dimensão paralela, mais ajustada com a realidade permissiva à minha nova situação. Que desespero! Que condição miserável de ir e não sair do lugar. De ficar com os pés grudados no chão e a imaginação mover-se com a velocidade de um cometa enlouquecido em direção à órbita terrestre. 

“Um monstro!” Ouvi uma linda garota oriental gritar, assim que tirei os pés daquele cubículo com patente, pia e pinturas abstratas morando a 180 graus da linha do meu nariz e da imagem congelada da figura de uma mulher mostrando suas intimidades no teto da estrutura. 

A multidão, assustada com aquela figura bizarra, recém saída de um pantanal coberto por plantas aquáticas e pequenos corpos pluricelulares, debandou rua abaixo, aos gritos, aos berros histéricos, aos suplícios incontidos aos ecos das interrogações dos transeuntes que, à margem do acontecido, não sabiam realmente o que estava acontecendo. Estavam literalmente alheios à grande explosão de personalidades que passava por um filtro dentro de um grande caleidoscópio de dúvidas e olhos curiosos. O monstro decidiu sentar-se no banco em frente ao balcão e pedir uma cerveja gelada. Sua sobrevivência, naquele instante, dependia daquela mistura etílica. 

Acho que o “Papai” ficou meio hesitante em encarar o monstro de frente. Seus olhos denotavam medo, denotavam uma desconfiança terráquea naquele “cara a cara” com o monstro de dois olhos, dois braços, duas pernas e um certo tipo de ar de distância e descaso com o resto do planeta, que na sua opinião, poderia muito bem ser chamado de LAMA ao invés de TERRA. 

“Há muita água pra pouca terra, chefe.” 

Era um monólogo sussurrante para o próprio monstro, mas ele venderia sua mercadoria, ah, sim, venderia. 

“Qual cerveja?” 

“A mais gelada.” 

Por um instante o som do copo invade os ouvidos do monstro, depois, o da garrafa sendo aberta. Um gole... silêncio... solidão... 



Trevis? Kid? É debaixo do pé de flor que eu emaranho o meu laço de fita. Afinal, eu tava pirando. Eu sei muito bem separar um Céline de um Sartre. Um Bandeira de um Drummond. Um Balboa de um Tyson. Mas como, meu santo Francisco de Assis, separar Trevis de Kid sem qu’eu destroçasse a massa visceral da carapaça ou vice-versa. No primeiro pensamento, pensei qu’eu poderia pensar em dar uma de malucão e sair correndo no meio de qualquer avenida da cidade pedindo pra que alguém descesse a lenha nas minhas costas com um açoite de ponta de pregos. Talvez, Kid fosse enxotado pelo sangue jorrando de alguns dos talhos nas minhas costas. Kid seria expulso, voando sobre uma prancha de surf, tendo como fundo musical o cover de alguma velharia nostálgica e maravilhosa dos irmãos Wilson interpretada pelos garotões do Brian Oblivion. Moralidade... subversão... pantomima... escarro... purulência... pusilanimidade... aversão... 

Sinto um leve toque feminino no meu ombro. Quem será essa criatura misericordiosa? 

“Você tá legal?” 

Em tantas galáxias, em tantas constelações onde a égide defende-se dos golpes dos guerreiros, onde as musas cantam para os bardos mortos ao lado de rios de lágrimas, rios de sangue, outrora vindouros de uma vida plena em canais internos. Eu desço do meu cérebro em revolta e pergunto: “Quem és, bela ninfa?” 

“Você tá legal?” 

A paixão é chaga aberta. É colírio leitoso nos olhos do louco. É vermelhidão ao encontro da lucidez. Enamoro-me. Há vida. Há vida... 

“I don’t know.” 

“Como não sabe? Você não sabe que na simples constatação de não saber, já sabemos?” 

Sabedoria mesclada à beleza. Sabedoria deitada nua sobre a ponte do rio Ivaí. Caminhões... carros... motocicletas... peixes... lixo... 

Ela insiste nas interrogações. É um milagre. 

“Por onde você viaja tanto? Parece estar aqui e acolá, benzinho, assim não dá?” Ela diz sorrindo. 

Não se canse de mim, eu imploro musa dos bueiros, dos náufragos em si mesmos, Narcisos imersos em cerveja cara e de qualidade dúbia. Não se vá Ambrosia dos semideuses. Iâmbico destronado dos corcéis épicos. Eu imploro... 

“Não sei exatamente por onde ando, mas eu preciso ir ao banheiro, sente-se aqui, pegue um copo qu’eu já volto...” 

“Eu não bebo, espera, aonde você vai?” 

“Eu volto... eu volto... eu juro qu’eu volto” 

Sobre o cérebro ululam idéias em perpétuo transe. Que coisa mais louca ter que voltar onde já se estava antes pra tomar uma decisão sobre falar ou não falar. O amor está ali, cara, bem ali, em frente ao balcão, esperando que você levante a sua espada de guerreiro impotente diante da timidez. Vá Himeneu de tantas batalhas! Vá à procura de um bom buquê de rosas vermelhas ou flores do pântano. Aonde vão esses insetos alados que insistem em levar-te ao Hades? 

Olhei novamente pra cima, pras pinturas, pra abstração de mim mesmo. Estavam vivas. A primeira sentença foi da mulher. 

“Ô malucão! Vê se não fica choramingando aqui dentro do banheiro, pensa que não tem um montão de gente lá fora querendo mijar ou dar umas cafungadas?” 

O homem também não foi complacente. 

“Você tá marcando, meu, a garota tá lá fora esperando que você tome uma atitude e você vem aqui pra dentro desse cubículo pra ficar falando consigo mesmo? Se liga, otário?” 

Fiquei olhando pras figuras do teto e não havia outra alternativa diante de um tremendo bombardeio de opiniões como aquele, se não, o velho, bom e popular... 

“VÃO TOMAR NO CU.” 

Saí de lá como se carregasse uma metralhadora Thompson nas costas. Olhares espantados e desdenhosos vinham de vários lugares. Mas onde estava a minha musa admiradora de seres que saem dos bueiros? O banco estava vazio. Apenas o calor morno deixado por aquela nádega que outrora fora minha película de onanismo. 

Querem qu’eu tome uma atitude, não é? 

Engatilhei a metralhadora Thompson e abri fogo contra todos os que tinham os olhares de desdém voltados para sua mira. Sobre os corpos dos inimigos, deixei apenas a poeira do meu tênis, junto, claro, com uma certa preocupação que fazia par com as luzes dos postes de energia elétrica. Por onde andará a minha musa? 

Desci a rua dos bares à procura de uma segunda chance, enquanto que sobre o asfalto carcomido da avenida, o sangue lavava as mágoas de antigas batalhas... 

Mas eu não era um idiota, um mendigo, um perdedor, um assassino. Eu era no máximo um vagabundo encruado em mim mesmo, levando na “cacunda” um maníaco capaz de mastigar os anulares do rei Xerxes fazendo uma tremenda cara angelical, como se nunca tivesse arrancado o globo ocular de uma gata angorá com cinco filhotes pra amamentar. 

Mas eu desci a avenida, pronto pra encarar aquilo que eu tanto necessitava, e sem nenhuma dúvida, era aquela garota, a musa que havia tocado as costas de um expurgo naturalmente abortado por uma contração espontânea. 

A vi atravessando o portão principal da universidade pra depois entrar em um dos blocos. Corri como um Hermes apaixonado. Corri mais do que meus pés podiam agüentar. E sobre o meu olhar vertiginoso, pude vê-la sentada em um banco, suas pernas contraídas, amassando toda a extensão do tórax. Seios esmagados. Coração pululando numa tristeza infinita. Ela chorava. Não gostei de vê-la sofrendo. 

“Desculpa ter deixado você lá me esperando. Às vezes sou um tremendo imbecil, quero dizer, na maioria das vezes”. 

Ela sorriu. 

“Não sei cantar e nem dançar, o quê posso fazer pra agradar você?” 

“Senta aqui comigo”. 

Por um instante senti Kid me esmurrar as costas. Senti sua picareta querendo perfurar meu crânio num golpe violento. Mas juro por Deus que, quando ela entrelaçou suas mãos em minha nuca, e num leve beijo sua língua invadiu a minha boca, a prancha de surf arrebentou as minhas costas e, com certeza, Kid mergulhou diretamente contra um recife de corais, dilacerando sua raiva que sentia contra o resto do mundo. E, no entanto, eu participava de um milagre. Era sim. O milagre do amor.

Ela era uma montanha com uma pequena caverna soltando uma cascata dourada


* Texto de Nelson Alexandre, que faz parte do livro de contos "Lance Estranho" a ser publicado com apoio da Revista Literacia

Uma chuva bem fininha começou a despencar nos telhados de Space City. Havia um certo tipo de paixão pairando no ar. O dia em que você coloca as mãos em ouro e em merda. Atravessei a rua sem olhar pros lados, sem olhar pras pessoas que estavam olhando pra mim, olhando e não sendo olhadas. Abri a porta do escortão e um cheiro de mofo misturado com o de um cachorro molhado, subiu até o meu nariz. Liguei a máquina e desci pela avenida. A garoa engrossou e ficou densa como um rio coberto por uma camada de óleo.

Eu tinha cinco paus na carteira, algum combustível no tanque, e com vontade de fumar um fino. Eu ouvia os tiros na lataria, uma rajada de metralhadora que a chuva proporcionava como uma avalanche cobrindo o carro de porrada. Apertei  bem os olhos pra espantar o sono e tomei a direção da sala de ensaio da banda Colt 45. Desci sob a forte chuva, que deixou meus cabelos molhados como uma planta encharcada. O galpão estava abrigando um bom número de pessoas, dava pra ouvir as vozes do portão. Meu amigo Kid veio até o portão com um guarda-chuva e retirou do bolso da camisa um grande torpedo, uma bomba do tamanho de um “Havana”.

Fomos pra trás do ônibus da banda e metemos fogo no bagulho, ali, de pé, sob o tecido negro do guarda-chuva. Depois que o fino acabou, só senti aquela sensação de euforia, misturada com uma paranóia por causa da cabreragem. Não falamos nada que pudesse salvar o mundo ou melhorar as condições de vida das pessoas, só ficamos especulando sobre fumar bagulho até o momento em que fiquei de saco cheio e quis dar o fora dali, rapidinho. O tempo ainda estava ruim, mas se eu fosse ficar esperando o tempo melhorar, ia acabar ficando de vez. Kid já estava enrolando outro torpedo. Botei o escortão pra rodar na tempestade, tomando a direção dos blocos, perto da Vila Marumbí. Um conjunto de prédios, com apartamentos pequenos e ensolarados que dão vista pros fundos do cemitério municipal. Desci por duas ruas estreitas, saindo na avenida de um bar famoso da cidade, o “Gole vermelho”.

A chuva era incessantemente impiedosa. O céu era uma grande nuvem inchada, escura, preocupada em inundar Space City. O cheiro de cachorro-molhado, dentro do carro, ficava mais forte por causa da umidade. Eu poderia cultivar cogumelos dentro do carro se continuasse a chover por um mês inteiro.

Parei num cruzamento e o carro morreu. Depois de duas tentativas, virando a chave na ignição, ele pegou. Foi o momento que a vi, no micro-momento do engate da primeira marcha, ouvi três batidinhas no vidro do lado do banco de passageiros. Abaixei o vidro e vi uma garota branca, de olhos verdes, devia ter uns dezoito anos, baixinha, não chegava a ser gorda, mas tinha um corpo com conteúdo, suculento, eu poderia dizer.

“Você é o primo do Célio?” Ela perguntou, debaixo daquele toró.

“Não...” Respondi, sem pensar direito.

Pedi que entrasse, que não se molhasse mais do que já estava. Ela agradeceu e disse que preferia ficar tomando chuva, ela estava na rua exatamente pra isso, pra sentir a força da chuva. Ela me disse que seu nome era Camila e que morava num dos apartamentos, mas não apontou pra nenhum deles. Os raios cortavam o céu, e os trovões explodiam logo em seguida. Ela ficou um bom tempo dizendo que eu era parecido com o primo do Célio, enquanto rodopiava de pés descalços na sarjeta cheia d’água. Bom, eu não estava nem aí com o tal Célio e o seu primo, pois naquela altura do campeonato, não importavam os nomes, eu achava que tudo já estava envolto por um grande mistério. Uma garoa transformando-se em uma chuva de interrogações iluminando o caminho do último neurônio confuso.

Marcamos um encontro. Às nove da noite eu a encontraria em frente ao “Gole Vermelho”. Ela disse que sairíamos pra dar uma volta, um giro pela cidade, pra gente “se conhecer” melhor. Não fiz objeção e fui pra casa.

Quando retornei aos blocos, tinha receio de não achar mais o caminho certo, de levar um bolo ou sabe-se lá o que mais a minha cabeça insegura produzia como um filme em preto-e-branco e com final infeliz. Fiquei rodando no meio daquele labirinto de ruas estreitas e, àquela hora, úmidas e escuras. Fiquei rodando, ouvindo o som rouco do motor e a sinfonia dos grilos, atrás de uma garota de olhos verdes que mal havia conhecido. Comecei a me sentir tão louco como o canto dos grilos da noite fantasmagórica de Space City. Por um instante, por uma fagulha de segundo, achei que estava fazendo papel de idiota, que tudo aquilo era gozação, e que ninguém estaria esperando no meio da rua, num frio paralisante, como estava fazendo naquela noite. Eu virei o volante pra esquerda e desci duas ruas, decidido a dar o fora dali. Quando entrei na rua do “Gole Vermelho”, tive a visão, uma baixinha de cabelos loiros encaracolados, mancando de uma das pernas, não sei se era a direita ou a esquerda, não me lembro, vindo na direção contrária do escortão.

Que visão estranha parecia uma boneca com um longo vestido negro, puxando uma perna de pau. Andava com dificuldade, praticamente arrastava-se. Parei o carro e toquei a mão na buzina.

“Oi”, ela disse.

Entrou no carro e começou a falar sem parar. Dizia que detestava o padrasto e que seus irmãos viviam enchendo sua paciência com recomendações e mais recomendações.

 “Pra trepar com as namoradinhas deles, não precisa de recomendação”, falava, enquanto espremia uma pequena espinha olhando pro espelho do retrovisor. Segui direto pros bares do campus da universidade. Ela estava sentindo frio com aquele vestido, estava toda trêmula, gelada, os olhos envolvidos com o resto do corpo naquele tremor frenético. Rodei pelo centro da cidade antes de ir pros lados da universidade. A cidade parecia envolvida por um luto silencioso, não havia uma alma viva em toda avenida Brasil. Rodamos sem ver um cachorro que fosse. Nada. Só dava pra ouvir o assovio do vento frio depois da tempestade, feito uma música melancólica e embriagada ecoando pelas calçadas e as portas fechadas das lojas dos comerciantes mais antigos.

Chegamos nas imediações dos bares do campus e estacionei. Os passos de Camila proporcionavam ao resto do corpo, um descer e subir, como se ela fosse o mecanismo de sucção de um poço de petróleo. A seu lado, andava um indivíduo enfiando as mãos nos bolsos à procura de umas moedinhas e algumas pouquíssimas notas esfarrapadas e sujas.

Entramos no bar mais badalado do pedaço. Havia gente saindo pelos canos. O local que escolhemos estava lotado e terrivelmente tomado pelo cheiro dos cigarros acesos. Pedi uma cerveja, depois que um garçom conseguiu uma mesa pra nós, num canto, espremidos pela multidão. Sentamos. Camila tinha as unhas pintadas de preto, e o tom de seus cabelos encaracolados dava luminosidade ao ambiente, como se ela fosse um imenso sol no meio daquela gente toda. Quando falava com mais velocidade do que normalmente as pessoas falam, espumava um pouco pelo canto da boca, coisa que me deixava um pouco enojado, mas eu olhava pros lados quando percebia isso. Imitava o jeito desengonçado do garçom ao nos servir, e ria escandalosamente das garotas que entravam no bar, todas pavoneadas, tropeçando no próprio ego. Bebemos e conversamos sobre vários assuntos, e em nenhum deles, chegamos a alguma conclusão. Ela não era nem um pouco preocupada com o que as pessoas diriam sobre suas particularidades exóticas, isso era bem verdade. O compromisso de ter que ficar medindo o que se ia dizer, como se você estivesse numa corda bamba, não existia em nossa mesa. Éramos os mais estranhos no local, isso era bem claro, Sid e Nancy dos cafundós do Norte Paranaense. Os holofotes da grande vaidade humana haviam direcionado em nós um outro sentimento. Éramos o olho do furacão. Somente ali, na nossa circunferência embriagada, o espaço pertencia à tranqüilidade. Justamente no meio do furacão, a tempestade dava um tempo.

A grana acabou rápido. Era hora de rodar novamente na área dos apartamentos ensolarados pra deixar Camila “sã” e salva no aconchego do lar. Rodamos até o momento do ponteiro que marca o nível de combustível me alertar que o perigo de ficar a pé não estava longe.

Tomei a direção das ruas estreitas perto do cemitério municipal, dobrei duas quadras e entrei na rua do “Gole Vermelho”. Uma neblina cobria o bairro todo, não dava pra ver um centímetro à frente do nariz. Ela mandou encostar o carro ao lado de um posto de saúde. E foi o que fiz. Só dava pra ouvir os grilos e uma ou outra coruja piando em cima de um fio de eletricidade. Camila foi chegando cada vez mais perto. Seus olhos verdes estavam tão próximos, que eu podia ver dois lagos congelados nas suas íris. Dois icebergs boiando sobre aquelas órbitas de absinto. Ela segurou meu rosto com suas mãos pequenas e beijou-me com fúria. Sua boca fazia movimentos bruscos. Eu sentia uma língua pequena e pegajosa envolver todo o céu da minha boca. Era uma invasão sem tamanho.

Tentei agarrar suas pernas, mas o aperto dentro do carro dificultava a minha investida. Camila agarrou com força o meu pau, por cima da calça, apertava e massageava com desespero, parecia que éramos os últimos sobreviventes da terra depois de uma grande explosão nuclear. A neblina começou a ficar mais cerrada, lá fora, enquanto que dentro do carro, os vidros ficavam embaçados por causa da respiração ofegante dos nossos corpos colados. Camila abriu os botões do vestido, até a altura dos seios. Saltaram na minha cara dois enormes e lindos balões de carne rosados e firmes, que ela gentilmente entregou à minha boca cheia d’água.

Quando eu caí de boca naqueles peitos, e fui avançar sobre aquele corpo pequeno e forte, senti minha mão molhar, como se eu a tivesse afundado numa esponja encharcada. Camila olhou bem pro meu rosto e começou a sorrir, puxava o lábio inferior da boca com o indicador da mão direita, enquanto soltava a maior mijada em cima do banco de passageiros. Ela era uma montanha com uma pequena caverna soltando uma cascata dourada. Era isso. Uma montanha com um vale que tinha uma xoxota mijando.

Camila abriu a porta do carro, ainda sorrindo, abotoando o vestido.

“Você é o cara”, disse, desaparecendo no meio do nevoeiro; mancando de uma das pernas, que eu nunca consigo me lembrar se era a direita ou a esquerda. Fiquei dentro do carro, sem saber o que dizer pra mim mesmo. Fiquei ouvindo o piar da coruja que estava no fio de eletricidade, com o pau duro, e o banco de passageiros inundando por uma urina fétida e angelical.

É a vida, pensei. Liguei o escortão e peguei o sentido pra avenida principal. Andei alguns quilômetros sentindo o cheiro do mijo, até chegar ao barracão da banda Colt 45. Passei bem devagar, e o ônibus estava estacionado em frente ao barracão. Vi o brilho de um isqueiro refletir três vezes dentro do ônibus, numa espécie de código secreto. Era Kid que estava lá dentro. Kid e o Careca. Estacionei e fui até lá.

Kid abriu a porta do ônibus e disse: “E aí?”. Não respondi. Fui entrando no ônibus e me sentei num dos bancos. Careca estava deitado em dois bancos, enrolado num cobertor, só com a cabeça calva pra fora. Disse um “oi” tímido e não se mexeu do seu casulo. Estava bem protegido do frio.

Enquanto Kid enrolava um dos seus torpedos, contei a história aos dois, que não puderam fazer outra coisa, a não ser, rir bastante, risadas que acordaram os vizinhos.

Fumei o torpedo junto com eles e fiquei um tempo jogando conversa fora. Depois, olhei pro céu, não havia possibilidade de ver estrela alguma; só dava pra ver aquela enorme nuvem carregada cobrindo a cidade inteira. Terminado o torpedo, tratei de dar o fora.

Em casa, coloquei o carro na garagem e fui pro meu quarto. Tirei as roupas e fui sentar na privada. Fiquei lá, sentado por uns dez minutos, e nada. Não caguei. Vesti minha cueca e me deitei no colchão. Deitado, eu pensava na vida como um grande canal que leva a urina da bexiga até a saída da uretra.  Puxei o cobertor por cima da carcaça e fechei os olhos. Eu não estava tão por baixo que não pudesse agüentar a barra.

Eu não era o cu sujo do mundo.