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Sou contra



Multidão Começou quase que por acaso, numa conversa de bar. Depois de um pouco de cerveja ter animado seus ânimos, ele declarou: 

- Sou contra. 

Ninguém havia dito nada antes. Ninguém estava discutindo qualquer coisa relevante. Não havia o que contrariar. 

- O quê? 

- Sou contra. 

- Quê?! Tá maluco, mano? 

- Não. Decidi ser contra. E me sinto no direito de ser contra. 

Uma moça, sentada em frente, animou-se: 

- Também sou contra... Mas contra quê? 

- Não faz muita diferença... 

- Certo, sou contra. 

- Também sou contra. – afirmou outro, na ponta da mesa. 

E, de repente, a mesa estava em polvorosa. Olhos assustados iam de um lado para o outro, alguns batiam na mesa em afirmação. Dois deles levantaram e foram embora, ultrajados. 

- Não sei se consigo ser contra. 

- Eu sou contra. 

- O que se faz quando se é contra? 

- Poderíamos fazer um manifesto. 

- O manifesto do contra. 

- Decididamente, não sou contra. 

- Que tal uma posição mais tolerante? 

- Não, sou contra. 

- Vamos fazer a marcha do contra! 

- Não iriam aderir. 

- Seríamos uma contra-marcha. 

- Não, precisamos de adesão geral. 

- Todos a favor do contra. 

- Não, todos contra quem não é contra. 

Nos dias seguintes, a coisa começou a se espalhar. Pessoas conversavam sobre o assunto pelas ruas, murmuravam. Havia uma tensão no ar, e as pessoas sentiam-se na obrigação de tomar uma posição, escolher um lado. 

- Ei, não olhe agora, mas tem um contra sentado atrás de você... 

- Um contra?! 

- Sim, não olhe. 

- Meu Deus! 

- E acho que deve ser um dos primeiros. 

- Eu tenho medo deles... 

- Por quê? 

- Eles são contra... – sussurrou. 

- Mas nunca fizeram nada a ninguém. 

- Eu sei, mas... Ser contra é muito arriscado. 

- Amiga. Você não pode dizer a ninguém, mas... 

- Oh, não! 

- Sim. Eu também sou contra. 

- Mas, por quê? 

- Não há como evitar... Chegou a um ponto em que... era insustentável! Completamente insustentável! 

- Mas amiga... 

- Não pode dizer nada a ninguém... 

Alguns entre os mais velhos se exaltavam, criticavam, proibiam os filhos de andar com quem fosse contra: 

- É tudo um bando de vagabundo! 

- Querido! São jovens... Eles mudam. 

- Não! São uns vagabundos! Devem passar o dia usando drogas e roubando. Ai, se eu souber que os meninos estão metidos numa coisa dessas! Antes morrer que ver um dos meus filhos ser contra! 

- Calma, querido, olha a pressão, olha a diabetes... 

- Pressão, mulher?! Como vou pensar em pressão se, na volta do colégio um dos meus filhos pode olhar pra mim e dizer que é contra?! Antes morrer! 

E em menos de um mês, já se podia encontrar quem fosse contra em todas as partes do país. 

- ... Então, daí eu sou contra, e... 

- Nossa! Sério que você é contra?! Eu também sou! 

- Puxa, que incrível! Você nem parece! 

- Pois é... Mas nem sabia que havia contra no Pará. 

- Mas tem, tem sim... Acho que foi uma coisa meio simultânea, em toda parte. 

Porém, como não poderia deixar de ser, logo apareceram jovens muito jovens que se diziam contra. Muitos deles eram apenas pseudo-contra, movidos pela exaltação geral. Ainda eram muito jovens para uma decisão tão séria. 

- Sou contra, tá?! É mó massa! E nem vem criticar! 

- É! Sou assim mesmo, não quero nem saber! 

Ao mesmo tempo, o governo começou a ficar preocupado com a repercussão daquilo. A oposição já tramava lançar um candidato que se afirmasse contra. Com todo aquele movimento, deviam ganhar fácil! Do outro lado, o partido no poder começava a fazer reuniões e mais reuniões para discutir a respeito. Ninguém havia se manifestado, nenhuma passeata, nenhuma marcha, nenhum manifesto ou jornal defendendo os ideais dos contra. Mesmo assim, a coisa se espalhava perigosamente, transbordando incertezas. Afinal, o que significava ser contra? Precisavam agir, e rápido. A primeira decisão foi tomada em conjunto com as empresas de comunicação em massa. Emissoras de televisão e rádio, assim como os jornais impressos concordaram com o governo na decisão de suprimir de todos os programas, notícias e afins a palavra “contra”. Tudo passaria por uma rígida censura para que em nenhum momento isso fosse veiculado. 

O mais difícil seria controlar as coisas na Internet. Os jornais impressos que tinham versão online já estavam encaminhados: o que valia para os impressos valia para eles também. Mas que fazer com a profusão de sites sobre os mais diversos assuntos, hospedados nos mais diversos lugares do globo? Talvez um sistema que automaticamente apagasse toda ocorrência da palavra “contra”, mas isso seria transparente demais. Qualquer pessoa perceberia ali a ausência daquela palavra e a subentenderia. Além disso, o fato de vê-la apagada poderia fazer com que as pessoas desconfiassem da censura, e isso não era adequado. A coisa deveria ir na raiz do problema. 

Também havia a questão de que se suspeitava que já houvesse contra dentro das emissoras de televisão e rádio, assim como nos jornais. Havia também os artistas, sempre muito habilidosos em burlar as determinações governamentais. Era necessário trazê-los para o lado do governo. Talvez com algum tipo de financiamento, pois a coisa não está fácil para ninguém. Eles seriam financiados pelo governo, fariam seu trabalho e, em troca, esse trabalho passaria por uma suave avaliação, coisa burocrática, de praxe, onde poderiam ser excluídas toda e qualquer ocorrência da palavra “contra”. O financiamento deveria ser alto, e criar possibilidades para que esses artistas fossem uma hostil concorrência para aqueles outros que não tivessem esse financiamento, como forma de sutilmente eliminá-los. 

O problema dos intelectuais poderia ser resolvido de forma semelhante. Financiamento para pesquisas e institutos e voilà! A possibilidade de censurar o resultados das pesquisas realizadas e controlar os currículos escolares e de universidades. Tudo em prol de excluir essa perigosa ameaça que eram os contra. 

Enquanto isso, a oposição se organizava. Discutiam, conversavam. Ser contra não é algo que simplesmente se afirme ser. Há um algo mais que, porém, não se pode definir. Como então, preparar um candidato para isso? 

Sem solução, o melhor era tentar mostrar a necessidade de unir quem for contra. E, para unir os contra, nada melhor que um governante que assim se afirmasse, mesmo que ele não soubesse exatamente como sê-lo. 

Ou então.... poderiam pelo menos incitar as pessoas a se questionarem a respeito do governo atual. Talvez exatamente sugerindo que os contra estavam sendo veladamente censurados... 

- Acho que tem algo de muito erado por aqui... 

- O quê? 

- Não sei ao certo... Parece que está faltando alguma coisa nessa matéria... Como se estivessem evitando falar alguma coisa... 

- Hãn? 

- É! Veja: “grevistas mantém paralização por não terem sido a favor de proposta do secretário...”. 

- Não seria mais fácil dizer que eles foram contra? 

- Pois é exatamente essa a questão! Tenho reparado esses desvios com certa frequência e não consigo imaginar o motivo... 

A censura continuava. Enquanto isso, a oposição começava a planejar uma espécie de “quebra de sigilo”. Faria com que alguns civis soubessem da questão da censura e que espalhassem. Com a revolta da população, um candidato que se dissesse oposto a essa política, que afirmasse também ser contra conseguiria facilmente chegar ao poder. Porém, o governo sabia de sua fragilidade... Não bastava censurar: era necessário disseminar uma ideia diferente daquilo que se espalhava e ganhava força dia após dia. 

- Temos que encontrar um meio! 

- E se veiculássemos uma propaganda contra o contra? Não abertamente, de forma velada, nas entrelinhas, nas subliminares... 

- Não sei... Ser contra o contra não acaba sendo uma forma de ser contra também? É perigoso... 

- Mas, então? 

- Devemos apassivar a população... Impedi-los de ser contra, e mesmo de ser contra o contra. O mais saudável seria que achassem que ser contra é inútil, desimportante. A coisa desapareceria por si. 

- Tem razão. Exaltar os ânimos só impulsionaria o movimento! 

- E perderíamos força. 

- E perderíamos força! 

- Ao poucos poderíamos liberar o uso da palavra “contra”. 

- Sim, ela voltaria a ser inócua. 

- Inofensiva. 

- Isso é perfeito. Precisamos conversar novamente com as agências de comunicação! 

Apesar de todas as preparações para ação, pouco ainda havia sido feito além da retirada da palavra “contra” dos meios de comunicação. Era difícil lutar contra algo tão imponderável. Enquanto isso, a população continuava vivendo impasses, tomando decisões. 

- Sou contra. 

- Não sirvo para isso. 

- Tentei, mas acho que é demais para mim, não consigo! 

O governo acabou sendo mais rápido na veiculação de mensagens de “amansamento do contra”. Os boatos da oposição ainda não haviam atingido muitas pessoas quando, pela TV, todos começaram a ser bombardeados por pequenas mensagens inseridas nas próprias estruturas dos programas de reportagens e jornais. Muitos deixaram de ser contra. Mas também não eram a favor. Então, o quê? 

- Não, não sou contra. Nem a favor, na verdade. Acho que isso não muda nada, não corrige as coisas. Aliás, podia ser pior, não podia? Veja as criancinhas na África. Veja a frieza dos chineses, a superpopulação, os homens-bomba. Estamos bem, não há como ser contra. 

Havia outros, que, tendo tomado conhecimento dos boatos da oposição sobre a censura, tornaram-se mais radicais. Começaram a pôr fogo em caçambas de lixo, fazer pichações: SOU CONTRA! Alguém chegou mesmo a fazer um grande estêncil com essa afirmação no calçamento de uma praça. A polícia ficou em alerta, mas muitos achavam graça. Passaram a chamá-los de radicontra, os contra mais radicais. 

E nunca havia nenhuma imagem atrelada às manifestações. Nunca havia qualquer outra palavra que não fosse “sou contra” e, uma vez ou outra, algo logo abaixo como “Ju e Aninha – amor eterno”, coisa de adolescentes pseudo-radicontras. 

Faziam pesquisas de opinião, com gráficos mostrando quem era contra e quem não. Porém, propostas desse tipo não recebiam financiamento, eram realizados só por vontade do pesquisador e curiosidade científica. Enquanto isso, pululavam estudos sobre toda e qualquer anacronia, mesmo as mais insignificantes. Trabalhos que falassem sobre a atualidade, sobre desenvolvimento histórico, dialética, eram vistos com muita desconfiança e só muito raramente recebiam incentivo financeiro. 

Toda essa censura, porém, só deu resultado em um primeiro momento. Logo, todos no país eram, em maior ou menor grau, contra, e mesmo os políticos no poder sentiam que eram contra. Mas a coisa já estava se tornando estranhamente mais fraca, e cada um buscava um objeto para sua contrariedade. Surgiram os contra o governo, os anarcocontras. Também aqueles que eram contra os homossexuais, os homocontra. E vieram igrejocontra, sociocontra, criançocontra, abortocontra e milhares e milhares de pequenas classificações de validade tênue e duvidosa. 

Como todos eram contra, decidiram tirar o termo “contra” que completava suas classificações e voltar a usar apenas a palavra em si. Anarquistas, homofóbicos, fanáticos religiosos, ateus, sociopatas, claustrofóbicos, paranóicos, histéricos. A palavra “contra” foi voltando a ter seu uso comum, ameno, sem que ninguém precisasse fazer censura, sem que ninguém manipulasse ninguém. E os que não acharam ao certo contra o que ser contra simplesmente deixaram de se anunciar, quase da noite para o dia. E aqueles que achavam sua própria contrariedade muito agressiva, foram deixando de anunciá-la e passando a mantê-la apenas em sua própria concepção do mundo. 

Mas, entre amigos, em uma reunião íntima e descontraída, em uma troca de olhares ou um murmúrio compartilhado, alguém dizia, timidamente, embora com convicção: “sou contra”, e havia uma silenciosa nota de concordância e comprometimento em cada olhar. 


Meus agradecimentos ao Cleyton e à Fernanda, que também são contra.

Pais e filhos

*Thays Pretti

Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo. 
(Pais e Filhos - Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá) 

Toby's wicked right Quando ela contou que o eletricista que veio consertar a fiação da casa de manhã tinha atropelado um gato que andava pela vizinhança, ele se amargurou profundamente. Desfiou diversos impropérios, xingando o pobre homem com termos baixos que feriam os ouvidos dela e aumentavam ainda mais o desconforto que sentia com a importuna presença dele. Havia sido um acidente, não se podia fazer nada, e nem eram os gatos de casa, era um gatinho vira-latas que rasgava saco de lixos e roubava comida. Não que por isso ele merecesse morrer, mas era claramente excessiva a manifestação de fúria. Era como se o eletricista tivesse culpa, como se tivesse querido passar por cima do animalzinho. 

- Ah, se eu estivesse aqui, ele ia ouvir um monte de merda! E se fosse um dos meus gatos, então! Tava fodido! 

- Mas ele não viu... 

- Não interessa! Tinha que ver, filho da puta desatento do caralho! 

Ela mantinha silêncio, tentando manter a calma e isolar-se da presença dele. O carinho que ele tinha por aqueles bichos era obsessivo, uma espécie de carinho oferecido à força para compensar o carinho que os filhos não queriam receber. E ela não queria mesmo. Satisfazia-se plenamente com a transferência daquele sádico e violento amor para os dois gatos, ainda que às vezes sentisse pena dos bichanos. Ele apertava a cabeça deles, virava-os do avesso, jogava de um lado para o outro. Nesses momentos, ela egoisticamente pensava: “antes eles do que eu”, e ficava em paz. 

Também era extremamente irritante a forma como ele judiava das cachorrinhas. Com o pretexto de que estava brincando com elas, apertava-as até que chorassem e fugissem amedrontadas. Ela olhava para ele séria, silenciosa, com os olhos carregados de um ódio infinito que ele acabava buscando provocar, judiando cada vez mais dos animais, que ela protegia como conseguia. Como ele podia ficar tão indignado com o acidente com o gatinho se ele mesmo era tão horrivelmente violento em seu pretenso amor? Ela sangrava de ódio e ele se deliciava, vitorioso, com o olhar furioso que ela lhe lançava. 

O irmão e a mãe já haviam entrado no jogo. Especialmente o irmão. A mãe apenas agia de modo a evitar conflitos e conseguir a colaboração dele com as despesas da casa e mais um ou outro favor do qual precisasse, mas o irmão sabia relevar a violência e impertinência do pai e, mansamente, conseguia tirar dele um bom auxílio para sua baixa renda estudantil. Ganhou um carro – ainda que velho –, fazia cursos, conseguia um bom dinheiro para gasolina e despesas com a documentação do carro. Talvez até conseguisse um pouco do dinheiro que o pai estava juntando, quando ele, enfim, tomasse vergonha na cara e fosse viver a própria vida. Afinal, separado da mulher já havia pelo menos uns quatro anos e ganhando dinheiro como estava, não precisava mais de favores. Já era hora de juntar a trouxinha e ir embora. 

Mas quem disse que ia? Ficava lá, percebendo-se incômodo, incomodando. Falando alto, rindo alto, xingando e arrotando. O único, naquela casa, que agia de tal modo. Os hábitos da ex-mulher e filhos eram silenciosos, tranquilos. Não havia moralismo, nem falso moralismo, apenas uma satisfação com o que é delicadamente tranquilo. A música baixa, respeitando os vizinhos. A televisão baixa, respeitando quem estivesse lendo ou estudando. As conversas comedidas, os animais acarinhados. 

Não que não houvesse uma ou outra discussão, mas não havia aquele ódio, aquela fúria. Não. Isso era só dele, característico dele, e a isso ela respondia com a mais absoluta frieza. Ela não entrava no jogo, recusava-se, e por vezes acabava tendo de enfrentá-lo de frente. E quando brigava com ela, ele explodia em tempestades e trovoadas e ela respondia sustentando o olhar dele em silêncio, fria, impassível, uma lagoa pintada num quadro escuro: imperturbável. E era essa sua mais forte vingança: sua frieza feria-o como mil palavrões não o fariam. 

Ela tentava se convencer de que os brutos também amam, e todas aquelas coisas que as pessoas falam sobre família, amor aos pais, amor ao próximo. Mas, em seu orgulho, não queria depender dele para nada. Não queria que ele lhe fizesse favores, pelos quais cobraria uma gratidão eterna. Não. Queria poder dormir tranquila no exato momento em que ele deixasse aquela casa. Queria poder lembrar apenas de passagem, quando alguém perguntasse, dizendo: “Ah, meu pai? Já não sei por onde anda. Ouvi que se casou novamente, que está bem, com a BMW que ele sempre quis comprar”. Nada do que precisasse ter pena ou arrependimento, nada em relação a que precisasse ironizar, nada. Poderia até vê-lo, de visita, uma vez ou outra. Talvez na ocasião do nascimento dos netos – se ela se decidisse por ter filhos – e em algum Natal ou passagem de ano. Mas só. Nada de participar da educação das crianças, que ela não queria crianças medrosas e judiadas como ela foi. Nada de férias na casa do avô, nada de empréstimos pra comprar a casa nova, nada, nada. Nada. Queria a liberdade da sua alma, ainda tão amedrontada e fugidia como se estivesse petrificada no século passado, e, para isso, teria que mantê-lo a uma distância segura, a distância na qual mantemos tudo aquilo que precisamos por vezes nos lembrar, mesmo sem realmente querer. Até esse dia, até poder ser livre, defenderia-se, desafiadora, por trás de seu atordoante silêncio gelado.

S'il Vous Plaît e o Clown


Clown
Quando setembro é alto e as árvores se abrem em flor, S'il Vous Plaît vai para a varanda exibir os cabelos louros e os olhos cor de joia. Ajeita sedas e rendas e o cor-de-rosa de suas faces e fica sorrindo enquanto a vida vai correndo (muitas vezes pela contramão, mas ela não sabe sobre trânsito e nem se dá conta). E também é correndo que passa o Clown, a quem S'il Vous Plaît grita:

- Bom dia, Clown! Não está realmente um lindo dia, hoje?

O Clown pára bem perto da calçada de S'il Vous Plaît (não estava na contramão - ainda que a maioria dos passantes estivesse), cumprimenta-a e, com um olhar entre desconfiado e incrédulo, responde:

- Depende de onde você vê o dia, madame. Daqui de onde olho, vejo umas nuvens se agrupando ao longe e acho mesmo que vai chover...

S'il Vous Plaît ameniza o sorriso, um tanto constrangida com a resposta estranha do Clown (ela apenas esperava um "bom dia, madame!", ora bolas!) e sorri novamente:

- Mas a chuva é muito importante, Clown! Não deixa de ser um lindo dia por isso.

- Talvez, mas não me arrisco a afirmar, não. Tenho que pensar melhor a respeito.

S'il Vous Plaît, um pouco incomodada com a situação, mas sem querer perder a pose, desvia suavemente (como toda dama deve saber) o rumo da conversa.

- Me parece tão preocupado, Clown. O que te aflige? Era sempre tão alegre e sorridente!

- Aposentei.

- Aposentou? Mas porque continua se vestindo como se fosse apresentar um espetáculo?

- Pois eu sou um palhaço, madame. Escolhi esse rumo para minha vida. Não deixei de ser palhaço: aposentei-me. Um professor não deixa de ser professor quando se aposenta. É professor aposentado. Da mesma forma, sou palhaço aposentado.

- Mas, por quê? Você ainda é tão novo e está tão saudável!

- Os tempos são outros, madame. Não posso mais fazer rir. Não posso simplesmente fazer o que apraz ao  público, se na minha mente o mundo grita.

- O mundo grita, Clown? Por acaso estás te tornando um lunático?

- Madame S'il Vous Plaît, se eu ficar aqui parado em seu portão, sem correr pela mão ou pela contramão, estou tomando uma decisão?

- Creio que não, só vai decidir quando for para um lado ou para o outro.

- Mas, e se eu disser que ficar parado também é uma escolha. E uma escolha que vai contra a escolha de me mover.

- Direi que, apesar de estranha, sua colocação é bastante pertinente.

- E será que eu tenho a opção de ficar parado?

- Oras! Toda opção possível é uma opção, ainda que talvez não seja a melhor escolha.

- Pois bem. Se eu vejo um mal, quais são as posições possíveis para mim?

- Penso que ser contra ou a favor...

- ... ou se omitir.

- Sim, ou se omitir.

- É onde eu queria chegar: não me aposentar seria uma omissão.

- Não vi aonde deseja chegar...

- Cheguei, madame. Estou aqui. Aposentado e sem poder sorrir, nem fazer sorrir, pois fazer sorrir é dar ao público o que lhe agrada. E como posso agradar o público desses novos tempos?

- Sou público dos novos tempos, Clown. E a mim muito me agrada uma brincadeira no picadeiro.

- Mas, você, madame, você... Você não entende...

- O que não entendo, Clown? Já está me afligindo!

- Não entende, madame, que se eu quiser te oferecer uma rosa, a única rosa que posso te oferecer é a rosa de Hiroshima. Não entende que você compra seu riso na entrada do circo e é um riso que te apraz, moldado para caber em você, como um sapato. Mas um mesmo 36 cabe em outras senhoritas, então esse sapato nem mesmo é seu exclusivamente. Como vou fazer rir, se a risada que querem, compram em latas na entrada? Como vou fazer rir se penso dia e noite em bombas e foguetes e produção em série e satisfação em massa? Como?

- Bom dia, Clown. Está um lindo dia hoje, não?

- Vá à merda!

Não esconda seu medo por trás de olhos negros


The Amputation of a Friendship
Se ela não dissesse com tanta convicção, certamente não se acreditaria. “Não, não! Não sou tão tranquila assim. Sou extremamente ansiosa – minhas unhas que o digam!” - dizia com a mesma tranquilidade de sempre formando um vazio intransponível entre palavra e gesto. O mesmo acontecia quando ela ria, espontânea, mas mantendo uma sombra triste e séria em algum canto no fundo do olhar. E era mesmo de se notar facilmente a forma peculiar como ria, afinal, ria-se toda, fisicamente engajada por completo no ato de rir. Ria em frêmito, sacolejando-se de leve, a cabeça, os ombros, as mãos crispando, as pernas movendo. E o som de seu riso, ainda que fosse tímido, era profundo, visceral. Ria-se. Porém, os olhos, ainda que faiscassem, permaneciam negros, e havia névoa em algum lugar do presente ou passado. Mistério risível e parvo.

Em uma conversa, era difícil falar. Ouvia muito, encabulada em sua falta de assunto, ou empoleirada na arrogância de achar que seus assuntos não eram para qualquer um – não se sabe. Podia-se encontrar qualquer uma dessas posturas naquela silenciosa observância – dependia mais de quem julgasse do que de sua postura verdadeira (aliás, quem a conhecia de mais perto jamais diria que ela falava pouco. Falava sim, contava causos... Mas entre nós, ela era assim).

Quando falava, geralmente não era sobre si ou sobre os outros. Mas isso não quer dizer que não tivesse seu veneno. Humanamente criticava e ironizava alguns comportamentos quando estava entre seus pares, uma maldade tétrica e sibilante escorrendo da suavidade de seus lábios e voz. Quase incoerente, mas prazerosamente real.

Apesar dessa maldade subjacente, preocupava-se com o bem estar geral. Mantinha contato, fazia favores, lembrava de datas importantes, dava presentes aos mais próximos. Sua ética era uma ética de retribuição: se quer ser bem tratada, deve tratar bem. E ainda que por vezes as coisas não dessem assim tão certo, não desistia. Precisava de um norte para que pudesse, de fato, ter uma vida social saudável. Seu norte foi estabelecer um lema e segui-lo às últimas consequências. E estava indo bem.

Ninguém desconfiaria se ela não dissesse que tinha pesadelos. Um dia, vista meio sonolenta, disse que o motivo era que não tinha dormido bem. Não se delongou em explicações, mas ficou claro que era algo um tanto constante. E que era forte e profundo, já que surgiu uma expressão nova em seus olhos, como a de uma criança que de repente se vê em um lugar estranho sem os pais, e sem ninguém que conheça – mas isso foi só por um momento, e um momento tão breve que era capaz de confundir. O desespero que se julgava perceber em seus olhos também podia ser resquício de um bocejo, ou qualquer coisa assim. Algo semelhante ao que parecia lhe subir à garganta a cada vez que ficava um tempo centrada em si mesma, olhando algo que estava além do horizonte. Desespero, ou um bocejo disfarçado em educação.

Ela era humana. Tão humana que chegava a não ser. Não a reconheceríamos como humana se não a tivéssemos visto entrar no banheiro – e, como se sabe, apenas humanos vão ao banheiro. Creio que essa era a única evidência de sua concretude. E era bicho, na medida que fazia o que quer que fizesse no banheiro. Pois todos nós bichos fazemos coisas especiais no banheiro. Mas estava claro que ela não era um personagem, nem uma teoria, nem um pressuposto categórico, nem fumaça, nem terra, nem fogo, nem ar. Era gente igual a gente, mesmo. E por ela ser gente igual a gente, começamos a nos sentir mais irreais. Afinal, assim como ela, outras pessoas também riam de formas peculiares. Havia uma moça de riso duro, seco, áspero, que parecia rasgar tudo aquilo de que achava graça. E um rapaz com um riso escandaloso e excitado como os ruídos de um pequinês, e outro com um riso retumbante e musical. Também falávamos mal e queríamos bem, também estruturávamos nossa vida social a partir do medo de ficarmos sós. Muitos olhos enegreciam por trás de sorrisos, e muitas de nossas noites também foram entrecontadas por esses pesadelos existenciais que nos arrastam de angústia no decorrer dos dias. Mas isso nós só vimos naqueles olhos negros. Na angústia daqueles olhos negros quando, em sua frente, caiu dos céus um ovo de pássaro, e se quebrou.

Simples como um aperto de mão


Sobre a língua, a saliva pairava inexplicavelmente grossa como sangue coagulado. Mas ele não engolia, não cuspia, e a saliva permanecia ali, densa, morna, lodosa.

Os olhos, mantinha-os vítreos; o sorriso, plástico. Homens sociais, cumprimentavam-se mutuamente na dissimulação de uma simpatia. Falsa. Ambos se detestavam.

O primeiro soltava a mão do outro com a amargura de quem cai em contradição, de quem falseia sem querer, de quem se corrompe por falta de opção. A saliva grossa era a vontade inconsciente de se sufocar. 

Apertava a mão da garota ao seu lado como tentativa de expurgar de seu corpo aquele contato anterior, desagradável. Passava a mão discretamente na lateral da calça como se pudesse limpá-la de sua própria hipocrisia compulsiva, tão irritante, tão pouco intencional. Seu olhar baixava coberto de dor. Mas isso tudo sem que ninguém percebesse. Talvez nem ele mesmo notasse o quanto sofria.

O segundo sorria mais, brincava. Arriscava a encenação de uma amizade toda decorada. Soltava a mão do outro com a sensação de dever cumprido e logo após o esquecia, com a leveza de quem esquece um sonho não muito agradável. Aliviava-se de um conflito como esse em mais uma encenação, logo seguida de outra e mais outra. Cumprimentava a garota do primeiro como se fosse um velho amigo, estendendo a falsa amizade que demonstrava por um para a outra da mesma forma que vira a página de uma revista num consultório médico: quase sem se dar conta. A moça, ao contrário, se incomodou com a pseudo-intimidade, quase fez careta, mas se recompôs e logo esqueceu também.

O terceiro observava. Envolvia-se na mesma trama de teatros e bobagens, mas nesse momento, apenas observava. Quase sentia a saliva grossa do outro sobre sua língua, quase via pelo vidro fosco de seu olhar. Ao mesmo tempo, sabia nos movimentos do segundo cada vírgula que viria, cada exclamação seguinte, cada tônica, o riso, o tapinha nas costas, o olhar. E da sua posição, quase neutra, quase morna também, via claramente a diferença entre aqueles dois seres viventes. Sabia, sem sequer pensar a respeito disso, que o primeiro era muito mais suscetível ao sofrimento que o segundo, por seu caráter não estar adaptado àquele mesquinho tipo de falseamento da vida.

Mas... Falseamento? Por ser mais constante, não seria aquela a vida verdadeira? O segundo sorria, estava bem. Agia contra seus sentimentos reais, contra seu desagrado ou indiferença, mas nem precisava respirar fundo para seguir no mesmo ritmo que seguia antes de ter que sorrir para alguém que lhe era quase um inimigo.

Para o segundo, a vida era muito mais fácil. Os objetivos eram alcançados, o sono era tranquilo, o bolso estava cheio. O sangue continuava a correr nas veias. Não tinha medo de Juízo Final, não tinha medo nem de seu próprio juízo.

Para o primeiro, o sangue coagulava, enrijecia. Os músculos retesavam. Mas, se seu super-ego tivesse menos força, se houvesse mais sangue frio, se ele dispusesse de uma arma que pudesse usar livremente, seu instinto seria de atirar. Atirar para matar. E seria simples. Simples como um aperto de mão. Talvez mais simples que aquele aperto de mão. E mais verdadeiro. Pecado não era ferir, pecado era não poder virar as costas para alguém de quem não gostava. Pecado era sorrir. Somos todos pecadores sujos, mascarados e perfumados que nos apertamos as mãos. E pecamos contra nós mesmos, empurrados por essa onda gigante que nos move e que decide nossos caminhos.

O terceiro, percebendo isso tudo num tão breve relance de olhar, acordando tão bruscamente em meio a tão amenas reflexões, terminou sua cerveja e saiu, mãos no bolso da blusa, apressando o passo para chegar à farmácia antes de fechar, para comprar qualquer coisa que consiga fazer com que, novamente, volte a dormir.

Jana


Nem tudo era assim tão difícil para Janaína, mas havia as generalizações, daí a vida acabava sendo sempre dura e complicada na boca de sua mãe, como na de milhões de outras mães. 

Jana ia para a escola, assistia televisão, mas lia pouco: não tinha muitos livros em casa, como a maioria dos brasileiros; mas tinha brinquedos. Não tantos quanto as crianças ricas, mas não tão poucos quanto as crianças pobres. Tinha-os, e gostava deles, passava horas e horas inventando histórias fantásticas de lugares bonitos e coloridos. E tinha amigos na escola, e uma professora bonita, de saia e cabelo compridos. Jana ficava olhando pro cabelo da professora, virando em suas voltas, correndo em suas retas e ficava imaginando se aquele cabelo tinha fim. O da mãe de Jana também era comprido, mas nem tanto, e fazia ondas largas, largas como as ondas do mar. Jana gostava do mar. 

Um dia teve palestra na escola. Sempre havia palestras na escola de Jana, mas aquela parecia ser especial. Surgiu gente séria e sisuda de todos os lados, e os professores de todos os períodos estavam lá. Até as crianças grandes, que costumam ficar do outro lado da grade, vieram com seus professores para assistir à palestra: devia ser muito importante. Sentaram no fundo: o espaço da frente era para os menores. Jana não sentou muito na frente, porque era alta, mas espichou o pescocinho bem pra cima para prestar bastante atenção no que a vovozinha lá na frente ia falar. Jana era estudiosa, e os pais sempre pediam para que ela contasse o que aprendeu na escola, desde que começou a estudar, bem pequenininha. Por isso, Jana não perdia uma palavra. Tinha que lembrar de tudo para contar ao pai quando fossem jantar. 

Passaram uns vídeos estranhos e tristes. Em um deles havia um homem bonito e brilhoso como o pai de Jana, mas não sorria o sorriso aberto do papai: ele estava triste e sofria muito. Tinha uma raiva no olhar da qual Jana nunca tinha ouvido falar. Ela se assustou, teve medo daquele olhar. E as pessoas lá na frente defendiam e bradavam forte, mostrando fotos e vídeos de gente acorrentada e dolorida. No fim de tudo, Jana descobriu que era negrinha, mas que negrinha era um jeito feio de falar, porque na verdade Jana era afro-alguma-coisa, por que o pai também era negrinho e a mãe tinha cabelo ondulado. Jana não entendeu muita coisa, mas sentiu bem direitinho que, no fundo, tudo aquilo era só para mostrar que ela não era igual aos coleguinhas da sala. E Jana nem sabia mais quem era. 

A vovozinha era brava lá na frente, e dizia que não existiam bonecas negrinhas, e negrinhos em propagandas da TV. Jana nem tinha se dado conta, porque até ali, para ela, todos eram só pessoas, não tinha diferença de quem era branquinho e negrinho, ou meio café-com-leite, ou branco-cor-de-rosa, ou bronzeadinho. Mas a mulher falava que era errado isso, porque era preconceito. Jana não sabia o que era preconceito, então ficou só escutando os outros falarem. E os alunos grandes começaram a perguntar e reclamar e falar coisas que Jana não entendia, e professores falavam alto e brigavam entre si. Uns diziam que já não havia preconceito no Brasil, outros diziam que sim. Uns defendiam umas coisas de cota na universidade, outros diziam que é ruim, falavam de inteligência, capacidade, possibilidades... Falavam de pagar pelo sofrimento, e alguém falou dos índios e imigrantes, que também sofreram muito. Jana não sabia como e porque tanta gente sofreu, mas sabia que só tinha sabido de sofrimento e dor e preconceito e cor e negrinhos a partir daquela palestra, então toda dor que ela tivesse, nasceria dali, e não da dor em si. A palestra era sua dor, por ver todos tão bravos e tão tristes. 

Jana começou a achar que ser negrinha era uma coisa ruim, e na saída da palestra, evitou a companhia dos coleguinhas, exceto de Rita, que também era negrinha. Mas só ficou do lado dela, não comentou nada sobre o que ouviu. Na verdade, depois de sair do auditório, ninguém mais falou nada sobre o que foi dito lá dentro. Todos estavam sérios e de rosto fechado, e Jana pensou como seria bom se pudesse pintar todos da mesma cor, ou pintar todos tão multicoloridos que de tantas cores não saberiam por onde começar a brigar. Ah! E pensar que tudo isso foi só porque a natureza tem tintas diferentes para deixar a pintura mais bonita... 

O pai bonito e lustroso de Jana ficou bravo quando ela chegou dizendo que era negrinha, e que não queria mais ser, porque era ruim. Olhou sério para ela e falou para ela nunca mais dizer isso. Depois, esquentou o almoço e pediu para Jana falar o que aconteceu na escola. 

- Mas eu vou contar no jantar, papai! 

- Sim, mas me fale alguma coisa agora, estou curioso para saber como foi. 

Jana pôs as mãozinhas na cintura e fez um muxoxo. Já era uma mocinha, e o pai se orgulhava dela. Inteligente, saudável, participativa. Oito anos muito bem formadinhos. Mas aquela história de negrinha... 

- Teve palestra sobre preconceito. Daí, falaram que quem tem pele escura é afro-não-sei-o-quê, e que eles eram piores que os outros, mas viraram melhores, ou querem ser iguais, mas não dá pra ser igual, né? Porque cada um é o que é, né? Então, falaram coisas estranhas e todo mundo ficou brigando. Acho que é culpa nossa, papai. 

- Nossa! Eles falaram isso aí de melhores e piores? 

- Sim. Bom, não... Ah, falaram alguma coisa de que os escurinhos tinham que ser tratados de um jeito diferente, porque não tem escurinho na propaganda de margarina que passa na TV, mas tem em propaganda política, quando dizem que vão ajudar os pobres. Mas a gente não é pobre, né? Mas é escurinho... 

- Nós somos iguais a qualquer outra pessoa, Janaína. Não é a cor da pele que faz você ser inteligente, como não seria a cor da pele que faria você não ser inteligente. 

- Papai, a mamãe é mais clara que nós dois. Ela é melhor do que a gente? 

- Não, Jana, não. Não coloca essas coisas na cabeça. Nós somos pessoas. Pronto. Imagina se a gente fosse ficar prestando atenção nessas degringolagens e ficasse sempre com a cabeça no passado. Já foi, já foi. As pessoas de agora não são responsáveis pelo que aconteceu no passado. Agora o que nos resta é fazer um futuro melhor. 

- Papai, gringo não é pessoa branca? 

- O quê? 

- Gringo. Você falou de degringo-degringolagem... é coisa de gente branca? 

- Pára com isso, Jana. Tira essas coisas da cabeça. 

Jana terminou de comer em silêncio, mas a cabeça ainda estava em turbilhão. O que tinha acontecido no passado para as pessoas estarem tão bravas hoje? Talvez pudesse perguntar para a mãe. A mãe e o pai sabiam das coisas, de muitas coisas, e se o pai não queria falar, talvez ela falasse. Afinal, ela era mais branquinha que ele...

Ao meio-dia


Sol de meio-dia. Tudo ao redor queima e um vapor denso sobe do asfalto para a mente de Luana como o perfume que tem a tontura de quem está prestes a desacordar debaixo de um sol quente de meio-dia de início de verão. As pessoas se reúnem em torno e ela não tem bem certeza do que está fazendo ali, quer apenas que aquele dia termine e ela possa estar de volta em seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente segura e tranquila. Mas aquelas pessoas todas olham para ela como se vissem um animal estranho e ela não consegue perguntar por que, pois está tonta e confusa e as palavras parecem fugir-lhe pelos cantos de sua mente como crianças, como crianças que brincam na grama. 

Alguém toca de leve em seu corpo e diz alguma coisa com um olhar preocupado, mas ela não entende exatamente do que se trata. É uma pessoa que está contra o sol, as pessoas não deviam ficar contra o sol, elas machucam nossa visão e não sabemos quem são. Luana não gosta de não saber quem é. 

De repente, não tem noção de si. Não tem bem certeza de onde ficam os limites de si. Até onde ela é? Não sabe. Alguma coisa aconteceu, é certo, e Luana sabe, pois agora seu braço começa a doer, e sua cabeça está muito confusa. Luana não consegue coordenar a si, não sabe mais que ordem deve dar ao seu corpo para ele levantar, e tudo o que queria agora era estar em seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente segura e tranquila e pode esconder seu coração desse mundo hostil. 

Mas, de repente, está confusa e não tem noção de si. Onde estão meus limites? 

Alguém segura seu pescoço dizendo coisas que são incompreensíveis, como se viessem de muito, muito longe até seus ouvidos, contra o sol. As pessoas não deviam ficar contra o sol. Mas agora só queria estar em seu quarto, pois... o mundo é hostil? 

Luana podia não estar debaixo do sol do meio-dia. Tudo foi culpa de apenas uma palavra. Mas é a palavra a chave do destino? Se sempre soubéssemos o caminho correto, creio mesmo que tentaríamos sempre caminhar por ele, mas como saber? Qual é a palavra certa a se dizer? Qual é o caminho? 

Mas ele não falou. Ela só pediu para que ele dissesse, era apenas uma palavra, e duas vidas estariam mudadas. Se seria bom ou mau, é impossível afirmar, mas uma ação diferente tem consequências diferentes, e por toda a vida caminhamos fazendo coisas que excluem milhões de possibilidades que são nosso não-fazer. Mas qual é o caminho correto? O sol parece subir do asfalto e as costas de Luana estão quentes. O braço dói. E tudo o que Luana queria era... onde está? 

Ela está parada em frente daquele portão velho. O muro baixo e cheio de musgo já é seu familiar, muitas conversas em sua mente têm o cheiro daquele verde. Sua pele está acostumada ao verde mais verde do musgo, mas o sol que sobe do asfalto machuca e deixa Luana confusa. E ela tem certeza, ela tem toda a certeza do mundo quando diz: “Me peça para ficar, apenas me peça para ficar.” Ela depositaria toda sua vida no verde daquele muro se ele dissesse “fique!”, mas ele abaixa os olhos e ela não entende por que as pessoas ficam contra o sol, isso machuca. 

Ele baixa os olhos e não há palavra a ser dita, mas ela já tirou sua vida de dentro de si, precisa depositar em algum outro lugar, precisa entregar a ele na sombra que bate nesse muro, caindo da árvore mais perfumada mãe que Luana já tocou. Sua vida não cabe mais em suas mãos e ele não lhe estende as dele para sustentá-la. 

Mas se ele apenas balbuciasse ‘fique!’, ela teria entendido e depositaria o sol daquele meio-dia em suas mãos. Não. Luana está confusa. Não é o sol, é sua vida. Sua vida não é como o sol, mas ela esteve brilhando muito durante os dias que passaram juntos. E o calor do colo dele não é como o calor dolorido do asfalto, é suave, ameno. Não fere como esse asfalto de meio-dia. Essa luz. E Luana apenas queria que pudesse estar verde no muro da árvore que iluminava a calçada mais amena que já visitou e fique! Era apenas uma palavra contra todo aquele sol, é claro que ele não resistiria, nunca foi tão forte, mas ela perdoava sempre, porque isso é amar, não é? Luana quer que deixem em paz suas pernas e pescoço e prestem atenção a suas dúvidas. Tem tantas dúvidas desde que pedira para ele ‘me peça para ficar’ e o rosto baixou, e deve haver mais alguém lá dentro, porque ele não me tocou. As pessoas a tocam, devem estar mexendo em suas pernas, mas ela não tem certeza, está sol de meio-dia e o asfalto é confuso, já não pode precisar há quanto tempo está guiando sem rumo na bicicleta que ele comprou no último dia dos namorados, e naquele dia guiaram juntos cada um em sua bicicleta, mas é estranho porque não tem tanto sol. Chove um pouco nesse dia, um dia dos namorados chuvoso, mas saíram de bicicleta para molharem os rostos felizes e, quando voltaram, tomaram banho e beberam chocolate com leite vendo um filme alegre, ele dá mordidinhas em seu pescoço, mas não é dessa vez. É no anterior. Dessa vez ela resfriou por causa da chuva, mas ele sempre cuidou dela. Da outra vez teve um urso, e ele fingia que o urso atacava quando dava mordidinhas em seu pescoço. 

Alguma coisa gira e brilha e pára perto de Luana e tem gente de todo lado, e barulho, e alguém asfalta. Não. Alguém afasta as pessoas porque precisam passar e pegar o sol do meio-dia que está de pescoço mordidinho no chão. Colocam de uma vez para não doer, mas eles não sabem que já dói tanta coisa do lado de dentro que uma dor a mais ou a menos nem faz muita diferença, pois, no fim, ele realmente enjoou dela e abaixa a cabeça, não tem verde no muro. Mas deve ter mais alguém lá dentro, porque ele não me beijou, mesmo depois de uma semana longe. Luana treme quando ele pede um tempo, diz que vai espairecer, mas ela é a forte dos dois, então sorri e entende que ele queira um tempo sozinho antes que ela deponha sua vida nas mãos que brincavam com seus cabelos no verde. Mas isso foi antes, agora parece um contraste, essa cor é vermelha ou é o sol que confunde a visão? Ele pede um tempo e tudo o que Luana quer é que o dia acabe e ela possa estar novamente em seu quarto, é só em seu quarto... 

Desde a primeira vez ela soube que ele era o mais fraco, por isso ela perdoava, aquela moça é uma sem-vergonha mesmo. Piranha. Fica dando em cima do namorado de outra pessoa, queria ver se fosse com ela. Ela sempre soube que ele era fraco, ela não consegue responder o que perguntam, mas entende quando lhe dizem para manter os olhos abertos, responde com a expressão confusa, porque não tem bem certeza do que está fazendo ali, quer apenas que aquele dia termine e ela possa estar de volta em seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente segura e tranquila. 

E eles conversaram tanta coisa na frente da sombra verde, mas ela não consegue se lembrar. Lembra apenas que ele abaixa a cabeça e ela insiste ainda, com a voz cheia de lágrimas, e ele apenas aperta os lábios dela contra os dele. Não. Isso foi na primeira vez, ele estava sobre ela e apertou os olhos com força, pressionando os lábios contra os dela, mas não estava tão calor, e nem tinha tanto barulho ou buracos na pista, era inverno. Mas na sombra verde ele apenas abaixou os olhos e fechou mais os lábios, como se estivesse costurado de falar. Luana abriu muito os olhos cheios de névoa, e sem chorar, com tudo quebrado e doendo por dentro, sangrou a bicicleta avenida abaixo, não sabia há quanto tempo estava guiando quando descobriu que era meio-dia. O sol estava muito em cima e as pessoas apareciam contra o sol, tudo brilhava muito contra o sol, qualquer coisa era repentina como uma resposta não dita, como uma máquina que fizesse uma curva. O muro tinha um musgo vermelho com cheiro de sangue. 

Se tinha trovão ela se encolhia, ele apertava Luana contra o corpo e ria, boba, é só um trovão, é a voz da chuva, mas se tudo chovia por dentro dela, qual seria o barulho da chuva? Luana se lembra da buzina, teve uma buzina que era meio vermelha e gritada, não era trovão, então ela não gritou ou fez escândalos, ela deu as costas, montou em sua bicicleta e partiu, e esperava que fosse para sempre, mas de repente era meio-dia e algum sino buzinou um musgo vermelho dizendo que devia ter alguém lá dentro. Piranha. Ele não me beijou. Ela tinha mascado chiclete verde de menta e passado brilho de fruta vermelha na boca, mas ele abaixou a cabeça e ela só queria que ele pedisse para ela ficar. São caminhos estranhos esses que nos levam adiante, as palavras que dizemos ou deixamos de dizer podem mudar toda uma vida, e sempre deixamos para trás os caminhos que não pudemos escolher quando decidimos por um deles. E isso porque ela podia ter ido por outro caminho com menos sol, mas tudo o que fosse verde lembraria que ele abaixou a cabeça, e ‘me peça para ficar’, ele pediu um tempo. Era meio-dia, temos metade do tempo, ‘me peça para ficar’. Evitamos outros caminhos quando nos decidimos por um, e ela podia ter esperneado na calçada, xingado, batido no peito dele, mas ela sempre foi mais forte, ele era fraco, por isso ela perdoava. Ela deu as costas e sangrou seu peito avenida abaixo, com o sol ofuscando suas lágrimas de meio-dia no asfalto vermelho da ambulância, o sino tocando a buzina que são as cornetas dos anjos que anunciam o Reino dos Céus, a palavra que não foi dita e evita os caminhos que não foram escolhidos, as portas enfim são brancas como as paredes do seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente tranquila e segura, as pessoas vestem branco e já não há sol, as lâmpadas são como estrelas mortas, e ela só queria que ele lhe pedisse para ficar...

Alvin

Thays Pretti 


O dia amanhecia devagar... E era um dia como os outros, talvez mais frio do que alguns outros, mas, com certeza, não o mais frio dos dias. Talvez mais calor do que outros, mas não o mais quente dos dias. Havia vento, como já houvera em outros milhares de dias, e havia neblina. Nada de especial: nos milhões de anos do planeta, é inevitável que as características de um amanhecer se pareçam intensamente com as de outros amanheceres. Com poucas variações, todas as manhãs eram iguais. 

Era isso que Alvin observava da janela de seu quarto, em seu apartamento no décimo – terceiro andar: um amanhecer como um infindável número de outros. Pássaros cantavam, pessoas e carros começavam a passar pelas ruas. Tudo monótono, repetitivo e igual... Que motivo fazia Alvin permanecer? Nem ele sabia. 

Levantou da cama devagar... E levantou como sempre fazia: calçou os chinelos, bocejou e espreguiçou. Era cedo, mas não conseguia mais dormir. Passou os olhos pela casa. Tudo igual... 

Tomou banho como fazia desde que se conhecia por gente, observando a água escorrer-lhe pelo corpo, passando o sabonete sobre sua pele úmida, sentindo o contato da espuma do xampu em seu cabelo e couro cabeludo. Todos seus banhos eram iguais, seus movimentos eram automáticos. Começava ensaboando as mãos, passava para os braços – primeiro o esquerdo, depois o direito -, passava para as axilas, para o peito, tórax, barriga... Então descia para as partes íntimas para depois percorrer o mesmo caminho – com um pouco mais de dificuldade – pelas costas. Depois ensaboava as pernas– primeiro a esquerda, depois a direita-, e os pés, para depois lavar o rosto, e, posteriormente, os cabelos. Eram sempre os mesmos movimentos, mas a água nunca caia no mesmo lugar, a espuma nunca guardava o mesmo cheiro... Apesar de tudo, com pequenas variações, todos os banhos eram iguais. 

Enrolou-se numa toalha grossa, áspera. Voltou para o quarto para se vestir. Jeans, camisa, meias e tênis. Pegou umas bolachas e saiu para trabalhar, constatando tristemente, mais uma vez, que seu caminho era sempre igual. E mesmo que virasse em uma rua e não em outra, era tudo e sempre o que sempre fora. Com pequenas variações, todos os caminhos para o trabalho eram iguais. 

O escritório onde trabalhava tinha cheiro de mofo na hora que abriam as portas, assim como milhares de outros escritórios no mundo. A primeira coisa que a mocinha que cuidava da limpeza fazia era espalhar um spray que melhorava o cheiro do ambiente. Alvin nunca soube o que era aquele spray, mas era fácil saber quando era um de boa qualidade e quando não era, mesmo que no fim fossem todos iguais. 

Era a própria mocinha, chamada Maria, que comprava os materiais de limpeza, e pelo cheiro Alvin sabia quando ela comprava um mais barato para que lhe sobrasse algum dinheiro. Para ele, isso não fazia da menina uma má pessoa. Era uma corrupçãozinha tão tola e débil, a corrupção de alguns centavos, que ele nem se dava ao trabalho de criticá-la mentalmente. Milhares de pessoas faziam o mesmo. Alvin apenas constatava o fato, o que era inevitável para alguém tão observador, e guardava uma pequena anotação mental de evitar que ela tivesse algum cargo de maior confiança. 

João, seu patrão, era um homem baixo, gordo e mal-cheiroso. Tinha uma grande papada que parecia sempre estar grudenta de suor e sempre trazia as unhas grandes e encardidas. Mas era o patrão, e podia ficar escondido numa sala no fundo do escritório, sendo consultado apenas pelos funcionários, e só em último caso, o que geralmente não acontecia, uma vez que Alvin era muito eficiente. Então, João passava o dia inteiro trancado em sua sala, vendo sites pornográficos na internet. E era como milhares de outros patrões porcos e preguiçosos: ficava lá, engordando e batendo punheta, separado da mulher, com filhos que não se preocupavam com ele, sujo e grudento, mal-cheiroso e com unhas encardidas, ganhando dinheiro à custa de outras pessoas que, na realidade, nem ligavam se ele era sujo ou não, só queriam receber o salário no fim do mês. E até que era um bom salário. Mas, que fique claro: há as pequenas variações. Nem todo patrão é porco e preguiçoso, nem todo homem mal-cheiroso tem unhas grandes e encardidas, nem todo gordo tem papada grudenta, nem todo homem separado se masturba, mas no fundo, são todos iguais. 

Alvin, sim, era o carro chefe do escritório, e por isso cuidava muito de sua higiene e aparência. Seu aguçado senso de observação fazia com que agisse dessa forma. Era corretor de imóveis, muito organizado e astuto, mas nunca passava os clientes para trás: um bom relacionamento com eles é o que geraria novos contatos e novos empreendimentos. E lidar com os clientes era fácil, pois eram previsíveis, todos iguais. 

Além de João, Maria e Alvin, trabalhava no escritório mais uma mocinha, pequenina e empertigada como toda secretariazinha, com pequenas variações. Sempre com os óculos a postos e os cabelos presos num coque atrás da cabeça, de modo que parecia uns duzentos anos mais velha do que realmente era. Seu nome era Ana. Também era muito eficiente e, ao contrário de Maria, não tinha nenhuma anotação mental, por parte de Alvin, que evitasse que ela tivesse um cargo de confiança. E é por isso que recebia pagamentos, organizava documentos, tinha o telefone de contatos importantes e podia faltar quando precisasse resolver problemas pessoais sem que isso fosse descontado do salário. 

Alvin passava seus dias iguais da mesma forma que sempre. Falava com pessoas de sol a sol, mostrava casas, negociava. E apesar de as pessoas serem diferentes, de as conversas serem outras, de as casas serem diversas, no fundo, era tudo igual. Dias e dias de completa monotonia. Com pequenas variações, todos os dias eram iguais. 

Havia dias – e mesmo esses não eram diferentes - em que Alvin sentava ao computador e tentava escrever sua história. Mas era patente que nada em sua vida era digno de ser escrito. Nascera no Rio Grande do Sul, em um dia que não merecia ser lembrado, pois se repetia todos os anos, há 2010 anos. Morara nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Mato Grosso... Agora estava no Paraná. Com pequenas variações, todos os Estados eram iguais. Sua mãe era uma mãe igual a muitas outras, seu pai era igual a milhares de outros pais. Tinha irmãos iguais a centenas de outros e brigava com eles da mesma forma que todas as pessoas com irmãos já haviam brigado. Teve duas ou três namoradas, alguns romances, da mesma forma que qualquer jovem à margem de completar vinte e sete anos. Se escrevesse sua história, seria igual à de milhões e milhões de outras pessoas. Com pequenas variações, eram todas iguais. Alvin não sabia voar, não tinha superpoderes e, mesmo que tivesse, tinha interiormente a certeza de que um sem número de outras pessoas também os teriam. A mediocridade e a monotonia eram constantes em sua vida. 

Foi então que ele olhou pela janela e o viu pela primeira vez. Era um elefante gordo, grande, brilhante. Tinha um par de asas sobre suas costas e voava graciosamente, balançando a tromba e a cabeça para um lado ou outro, de acordo com a direção que desejasse tomar em seu percurso. As orelhas, ele usava como se usam as velas de um barco: controlava sua velocidade através delas, aproveitando o vento. Não era como o Dumbo, do desenho animado que tanto marcara sua infância. Aquele elefante que via pela janela era ainda maior, mais grandioso, mais esplêndido que seu pequeno Dumbo jamais fora. E, o melhor de tudo, era verde-limão. Um grande e radioso elefante alado verde-limão. 

Alvin abriu a janela, sua vida passava a ter sentido a partir daquele momento. Não era tudo monotonia, nem tudo era igual no mundo, havia um elefante voador verde-limão, diferente de todo e qualquer outro elefante no mundo, que jamais alcançariam ser como aquele. 

O elefante o viu e veio voando até sua janela. Parecia reconhecer Alvin como se fizesse parte de sua vida há milênios. Entendeu a longa tromba, que tinha uma estranha propriedade de distender e encolher movida pela vontade, e envolveu o rapaz, colocando-o carinhosamente sobre seu lombo largo e confortável. 

Voaram durante algum tempo por cima da cidade monótona que Alvin tanto odiava, mas ele nem notou. Acariciava os pêlos verdes do elefante, e isto era maravilhoso, pois nunca soubera que elefantes pudessem ter pêlos, exceto no caso dos mamutes, mas estes já haviam sido extintos há milhares de anos. Só que Alvin não pensava em mamutes ou em pele de elefante. Alvin trançava os pêlos verde-limão extasiado, anestesiado, excitado, quase às lágrimas: agora sua vida tinha sentido. 

Aterrissaram, após certo tempo, em uma maravilhosa fazenda com diversos imbuzeiros, figueiras e uma grande plantação de melancias. Havia carneiros, leões, mulas, zebras, bois e vacas pastando, apesar de já haver anoitecido. 

Alvin saltou de cima do elefante e correu pelo campo. Era tão belo, tão luminoso e diferente de tudo o que ele já havia visto que a todo instante seu coração se inebriava pela visão de uma singela flor ou de uma grandiosa árvore. Ou mesmo pela visão de uma singela árvore e de uma grandiosa flor. Nada tinha propriedades muito fixas, a mutabilidade era frequente naquele local, mas não era constante, cedendo espaço, por vezes, à imutabilidade, o que fazia daquela fazenda um local surpreendentemente imprevisível como Alvin jamais pensou conhecer lugar algum. 

Deixou-se cair sobre a grama rosada, enquanto um grande objeto, semelhante a um chafariz, jorrava algo como o mel para todos os lados, respingando em seu corpo, colorindo-o de cores inimagináveis, que ele saboreava em um explosivo orgasmo gustativo. E, pela primeira vez em sua vida, Alvin sentiu que era feliz. 

Demorou-se durante certo tempo naquela fazenda, um tempo incalculável, como toda e qualquer outra coisa ali. Experimentou os mais puros estados de êxtase das formas mais diversas possíveis, e não necessitava de mais ninguém, apenas de si e dessa estranha natureza que combinava em um único os reinos animal, vegetal e mineral. Para Alvin, bastava a visão daqueles animais-vegetais, daqueles vegetais-animais, daqueles vegetais-animais-minerais, e de todas as outras possíveis combinações desses reinos, que se uniam e separavam-se, ou uniam-se e não se separavam, para que nunca os acontecimentos fossem previsíveis. E, quando Alvin achou que unir ou não unir era um ponto de previsibilidade, os seres então não se encontravam, ou evaporavam, ou agiam de alguma forma inusitada que impedia Alvin de enjoar de suas visões e vivências. E era tudo paz e alegria em seu coração. 

Alvin não necessitava de uma mulher, não queria ser o Adão daquele paraíso. Preferia ser Deus. Desejar uma mulher seria previsível demais para um homem. Precisar do sexo, do corpo, do sorriso misterioso ou infantil de uma mulher destronaria seu poder naquele misterioso reino. Mas também não ansiava por um homem. Nos dias atuais, precisar da força máscula, da virilidade e do sereno domínio de um homem também seria previsível. Pois, diria a massa, se um homem não deseja uma mulher, é porque deseja um homem. E Alvin não desejava qualquer prazer que adviesse de outro lugar senão de dentro de si. 

Longe de Alvin satisfazer-se do mesmo modo que seu gordo patrão. Não, Alvin não precisava disso, não naquela fazenda. Seu prazer surgia do contato de seus sentidos com aquele ambiente mágico, mutável, imprevisível no qual estava inserido. Alvin deliciava-se mergulhando em nuvens, empilhando água em cubos, vendo as transformações das cores e formas. E não anotava nada, não estudava, não tentava entender, apenas sentia. Só não queria que as coisas pudessem ser previstas, queria que as coisas acontecessem de formas que ele jamais teria imaginado e, por vezes, exatamente da forma que ele imaginou, pois, de outro modo, seria previsível que as coisas ocorreriam de forma diversa ao imaginado. E a facilidade com a qual todas as leis da natureza eram derrogadas fascinava Alvin e levava-o à loucura dos sentidos, quando acabava explodindo de um intenso e magnífico prazer. 

Certa feita, após viver mais uma experiência diferente de tudo o que já havia vivido, sentou-se na grama azulada e ficou observando seu amado elefante alado verde-limão aproximar-se de uma grande zebra listrada de preto e rosa. Mais um segundo, e os dois belos animais estavam se acasalando, e uma suave canção medieval, tocada em uma guitarra elétrica, podia ser ouvida ao longe. Rápido e intenso como um raio, os animais gozaram e a bela zebra estava prenhe. Poucos momentos mais tarde, nascia a prole, tingindo de sangue a grama da fazenda. Pequenos elefantinhos alados, alguns apenas verde-limão, outros listrados de rosa, espalhavam-se rapidamente. E eram milhares e milhares deles, todos dependurados nas tetas das gordas vacas, éguas, leoas vegetarianas, zebras e cabras que pastavam pelo campo. 

Aqueles que já se sentiam saciados começavam a ensaiar o vôo, impulsionando, saltando e abrindo as asas. A mamãe zebra corria por todos os lados, tentando reunir os filhotes. O papai elefante fumava um charuto no canto da boca, orgulhoso de sua potente masculinidade que gerou tantos rebentos. Alvin observava a tudo boquiaberto, sujo do sangue e do líquido amniótico que se espalhou por causa do recente parto. E, em sua profunda observância – era um observador nato -, percebeu que, com algumas variações, todos os elefantinhos alados eram iguais. 

Aproximou-se do papai elefante alado verde-limão, e sussurrou-lhe, meio choramingando, que queria voltar para casa. Afinal, nem ali, naquele local tão bonito, as coisas conseguiam fugir da monotonia, da mediocridade e da mesmice. Alvin não conseguira ser Deus. Havia algum deus acima dele, e era um deus medíocre e repetitivo. 

O grandioso elefante cuspiu fora o charuto, colocou Alvin sobre suas costas e, sem dizer uma palavra, levantou vôo. O jovem, sobre o quente lombo do elefante, chorou. E seu choro foi o mais dolorido que jamais houvera chorado, mas, para que pelo menos ele continuasse sendo inconstante, parou logo de chorar e adormeceu. 

Quando acordou, estava de volta em seu apartamento. 

Olhou para o teto durante alguns momentos, talvez dois segundos, talvez por uma eternidade. A incontabilidade temporal da fazenda que Alvin visitara ainda o afetava de leve. Olhou para a janela e já não havia elefante alado verde-limão. Entretanto, um grande canguru branco, vestindo smoking e cartola, descia de um dirigível em uma escada de corda e o convidava a subir para uma viagem. 

Alvin não teve dúvidas. Levantou-se, caminhou lentamente até a janela, contando os passos, sentindo o chão sob seus pés descalços. Com poucas variações, todos os passos eram iguais. 

Subiu no parapeito da janela. Observou primeiro os prédios ao seu redor. Com poucas variações, eram todos iguais. Então, levantou o rosto, o canguru sorria um sorriso andrógino, sensual. Alvin esticou-se, tocou o rosto do canguru, beijou-o. No local onde tocou os lábios nasceu uma flor e, androginamente, o canguru sorriu sua flor. Alvin também sorriu, feliz, e soltou as mãos, espatifando-se treze andares abaixo. 

No fundo, sabia que todos os cangurus de smoking seriam iguais...

Café faz mal ao coração (ou 'A vingança nunca é plena...')

*Texto de Thays Pretti publicado em seu blog

De manhã, na cozinha, ele viu o gato.

O gato descansava na porta da cozinha e olhava para fora como se esperasse o sol se pôr, ainda que tivesse acabado de raiar. Já estava se tornando costume do bichano invadir a casa e agir como se fosse sua, e isso não era algo muito agradável. Em breve, subiria nos móveis e na pia, roubaria comida, seria o inferno. E ele nem sequer poderia deixar seu cão dar-lhe umas bocadas, pois a vizinha, dona da peste, tinha ele tão em conta como a um filho. Um filho peludo e abusado - convenhamos -, mas um filho. E que fazer se o filho peludo da vizinha se tornava agora uma inconveniência?

Ele o observava enquanto tomava uma xícara de café, o vapor a lhe embaçar os óculos, e pensava. Talvez pudesse pregar uma peça no folgado. Não seria algo agressivo a ponto de despertar a ira da vizinha e, ao mesmo tempo, seria o suficiente para mantê-lo longe de sua cozinha. Perfeito.

Alcançou uma vassoura que estava um pouco atrás do felino e preparou-se para dar-lhe um susto. Silenciosamente encostaria nele, ele fugiria de medo e não voltaria a entrar em sua casa. Pé ante pé, foi chegando mais perto, curvando o corpo sobre si mesmo para se aproximar mais da pouca estatura do animal.
Quando a vassoura estava a alguns centímetros daquele corpo peludo, o animal voltou-se, como que pressentindo algo e, em um leve estremecimento, sem nenhum ruído, caiu para o lado. Morto.

Ele imediatamente soltou a vassoura. O que havia feito? O que havia acontecido? Ele sequer tocara o bicho, será que fora um ataque cardíaco pelo susto? E justo para ele, que não queria problemas com a vizinhança!

Tocou no gato, deu uns tapinhas em sua cara e corpo, fez massagem cardíaca, espirrou-lhe água. Sem sucesso. Sua alma já devia estar a caminho do céu dos gatos. Ou do inferno (até mais provavelmente). Ou então seu fantasminha vagaria pela casa miando e estragando comida, quem sabe? O fato é que o bicho estava morto em sua casa e tinha que fazer algo a respeito. Chamou a mulher:
- Acho que matei o gato da vizinha.

Ela se assustou com a afirmação, preocupada. Ele teve que contar a história quase duas vezes para convencê-la de que não tinha culpa daquilo. E ambos continuavam sem saber o que fazer a respeito. Enterrar? Deixar em um saco para que o lixeiro levasse? Chamar a vizinha? Acabaram entrando em consenso e decidindo que o melhor a fazer era levar o peludo defunto para a vizinha e explicar o que havia acontecido. Afinal, a sinceridade sempre compensa (ou não?).

Ele chamou o filho mais novo, contou-lhe a história (para que o filho não risse do acontecimento enquanto o pai contava para a vizinha) e pediu que o acompanhasse até lá. Enrolou o gato em um saco plástico e foi.

Contou a história da forma mais suave que pode, escondendo, inclusive, que talvez a alma do animal ainda penasse em sua cozinha por todas as maldades que já devia ter cometido na vizinhança. A mãe postiça do bicho entristeceu, chorou, amaldiçoou a sorte e orou para que o deus dos gatinhos o levasse a algum lugar melhor. O vizinho secretamente discordava dessa possibilidade, mas não se manifestou: devemos respeitar a dor alheia.

Menos de meia hora mais tarde, cada um já estava em sua própria casa, o funeral do bichano se organizava na casa ao lado e ele tomava tranquilamente mais uma xícara de café quente. Sem gatos, sem brigas. Não que quisesse matá-lo, mas, se soubesse que teria tão poucos problemas com a vizinha, talvez tivesse dado um susto naquele serzinho bem antes.

Uma semana depois, seu cachorro morreu envenenado. Ele não teve dúvidas da autoria do crime.

Entristeceu também, mas logo deu de ombros. Ainda estava em vantagem, pois, pelo menos depois de morto, seu cão poderia caçar aquele gato o quanto quisesse. Em paz.

...

[Inspirado em fatos reais. ;) ]