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O Exterminador do Quarto dos Fundos

                                                                                       *Nelson Alexandre

Sempre tive problemas com insetos, desde os tempos das aulas de biologia que eu assistia num colégio esquecido da periferia de Space City. Pareciam exércitos, os malditos. Se para cada homem existe um inferno, com certeza, torço pra que o meu não seja com insetos carbonizados. Torço pra nunca ficar num caminho estreito onde pássaros de mau-agouro cantam à chegada de novos condenados...
Ela estava lá, com suas antenas balançando como se uma ventania alisasse sua coroa de micro germes sobre a carapaça. Eu sentia o cheiro do café sendo feito, lá fora, por uma mão caprichosa, e também um cheiro de morte, de batalha, dentro do quarto.
Eu odeio insetos. Jamais seria entomólogo. Levantei bem devagar do colchão em que eu estava deitado. Ela ficou imóvel, imaginando o seu fim horrível. Ela deu cinco ou seis mexidas nas antenas e disparou como um tiro traçado em direção à porta. Comecei a atirar chinelos, livros, meias emboladas como se fossem balas de canhão, mas nada deu resultado. Não consegui acertar a maldita. Ela entrou embaixo do guarda-roupa. Constatei que até os insetos querem salvar o próprio ‘couro’.
Remexi numa caixa que tinha um monte de cacarecos e encontrei um enorme mata-moscas que, freneticamente, comecei a passar por baixo do armário. Ela saiu em disparada em busca de liberdade, mas eu era o seu exterminador. Peguei uma das meias emboladas e fiz um arremesso forte e direto em direção à passagem que daria fuga à barata. A bala de canhão acertou o inseto, que ainda ficou remexendo as patas pro ar numa velocidade descomunal.
Peguei uma pinça, pesquei o inseto e depositei o seu corpo num recipiente de alumínio. Fiquei parado, olhando seu corpo ainda se contorcendo em busca de liberdade. O café não a salvaria. O cheiro bom do café.
Arranquei a primeira perna e ela protestou mexendo ainda mais rápido do que antes. Arranquei a segunda e tudo ficou mais acelerado, como se a vida passasse como um tiro perto do ouvido. A dor era uma barreira intransponível entre nós.
Peguei o restante de uma garrafa de vodca vagabunda e derramei tudo sobre o inseto, que ainda se mexia extraordinariamente rápido. Parecia um mecanismo que havia perdido a coordenação motora. Revirava o corpo num balé de horror embriagado. Eu podia sentir o álcool inundar aquela crosta repugnante, e um cheiro indescritível começou a dominar o quarto como se uma fossa séptica contendo mais de um milhão de baratas asfixiasse aquele espaço onírico num instante de delírio.
Em minhas veias corria um sangue venoso, misturado com uma boa dose de ódio contra aquela maldita barata nadando em vodca ordinária. Corriam as chamas que iriam incendiá-la. Então, sobre o domínio de um grande exterminador pronto pra executar o seu trabalho, ouvi o meu nome ser chamado do lado de fora do quarto, em uma frequência aguda e estridente. O café estava pronto.
Peguei uma caixa de fósforos e risquei um palito. Fiquei um instante olhando a agonia da barata... E quando ateei fogo na maldita e vi seu pequeno corpo murchar em meio a um fogo amarelo avermelhado, pensei no inferno, no pequeno inferno de insetos carbonizados e nas vozes que cantariam hinos de horror com suas bocas lotadas de baratas. Pensei nas centopéias enormes passando pra lá e pra cá sobre os pés dos recém-chegados e um enorme baratão-rei sobre um trono de ossos humanos dizendo: “E agora, hein?”
E o meu nome ecoou, novamente, num tom mais alto, mais próximo.
“Alexandre!”
As harpas do céu entraram nos domínios do buraco medonho. O café... Como eu poderia esquecer o café.
Ao abrir a porta do quarto, lá estava a visão do paraíso, minha avó, em pé, mostrando pra mim o lugar à mesa, acompanhada de uma negativa demonstração olfativa, a única coisa que ela poderia me dizer e disse.
“Que cheiro de queimado”.
“É o cheiro do inferno”, eu disse num lamurio que saiu entre os dentes.
Ela balançou a cabeça de forma negativa, colocou o jornal na minha frente, serviu o café, e não trocamos mais nenhuma palavra.

O Caso da Rua dos Saltos

 
                                                                                         * Hygor Zorak
 
- Setembro de 1995.
- Agosto de 1996.
- Outubro de 1996.
- Janeiro de 1997.
- Entre outras datas.
- Mas a quê você está se referindo?
- A nada em especial.
- Então porque a importância das datas?
- Não tem importância, eu só queria dizê-las.
- 1997 realmente foi um ano complicado e tumultuado pra você.
- Não, não foi. E cale a boca!
- Não quis te incomodar, e nem quero, mas você tem que concordar que aquela foi uma data complicada!
- Cale a boca!
- Posso até calar, mas só se você assumir que foi um ano complicado!
Ouve-se dois tiros, uma porta batendo e o cantar dos pneus da pick up vermelha que todas as sextas a noite estava naquele mesmo lugar.
Sirenes e gritos.
As pessoas afobadas queriam ver o que havia acontecido no apartamento nove da Rua dos Saltos, mas a polícia insistia em afastar os curiosos, que em sua maioria não passavam de vizinhos que, na realidade, já tinham uma nítida impressão do que havia acontecido.
- Policial, que aconteceu?
- Ainda não temos o boletim oficial senhor. Os peritos estão lá dentro.
- Noticiaram dois tiros. Quantas mortes?
Ouve-se mais dois tiros, mais gritos e outro cantar de pneus.
- Que diabos foi isso agora?
- Mais dois tiros senhor!                                       
- Isso eu sei!
- Desculpe senhor!
- Vai busca café pra mim!
- Não posso senhor!
- Como?
- Eu disse que não posso senhor!
- Isso eu entendi, mas por quê?
Uma mulher grita desesperadamente, saindo de um dos prédios da Rua dos Saltos falando que o fim estava próximo e que ela não tinha muito tempo!
- Dessa forma vou acreditar na mulher...
- É impossível isso senhor! Ela é a chamada louca institucional do bairro! Sempre fala isso quando acontece alguma coisa estranha... Senhor!
- Quantos anos você tem?
- Como senhor?
- Exatamente o que ouviu!
- 28, senhor!
- Seria uma pena se morresse tão jovem...
- Senhor?
Os peritos demovam a sair, deixando os policiais e os populares irritados e ansiosos, até que se ouve um grito estarrecedor de dentro do apartamento.
- Que foi isso?
- Ai meu Deus, o que está acontecendo?
- É o final dos tempos!
- Vamos entrar! Vocês dois vem comigo!
O comandante da operação e os dois policiais entraram no apartamento nove e se depararam com dois corpos sentados em torno de uma mesa, com as cabeças apoiadas nela. Os corpos dos cinco peritos também estavam lá, mas estendidos uniformemente no chão. Todos mortos.
- O que aconteceu aqui dentro?
- Como eles morreram?
Um dos policiais se sentou numa cadeira e ficou a se balançar, entrando em desespero
- Policial!
- Policial? Está tudo bem?
- Não! Não! Não!
- O que você tem?
- Eu vou morrer... Todos vão morrer...
- Não se desespere. Vá lá fora tomar um ar.
- Não posso...
O policial caiu da cadeira inerte. O comandante da operação e o outro policial correram para ver o que havia acontecido e, o policial estava morto.
- Senhor... Tenho que ir embora!
- O que está falando?
- Minha esposa falou que isso ia acontecer e que eu não iria vê-la novamente.
- Falou o que?
O policial despencou morto no chão. O comandante, assustado, caminhou perplexo até a porta, que se fechou bruscamente na sua frente.
Desespero.
O comandante de policia, após tentar abrir a porta se voltou para o interior do apartamento e não viu nada além da mobília limpa, do chão limpo, tudo limpo. Então entrou um homem caminhando calmamente.
- Quem é você?
- Janeiro de 1991
- Fevereiro de 1992
- Maio de 1993
- O que você está fazendo?
- Calma. Ainda não acertamos a data.
- Data de que? O que está acontecendo?
- Junho de 1994
- Setembro de 1995
- Porque importa essas datas? Do que está falando?
- As datas não são importantes.
- Agosto de 1996.
- Então porque está falando elas?
- Outubro de 1996.
- Não há razão especial. Eu só queria dizê-las. Mas nós não definimos ainda uma data...
- Nós quem? Data pra quê?
- Janeiro de 1997.
O comandante ficou enfurecido e parte pra cima do homem, que grita e caindo no chão se desmancha em cinzas.
- Muito desrespeitoso não deixar o homem achar a data certa?
- Quem é você?
- 1997 realmente foi um ano complicado e tumultuado pra você.
- Não, não foi! Do que está falando?
- Não quero te incomodar, mas você tem que concordar que aquela foi uma data complicada!
- O que você quer? Onde estou?
- Estamos escolhendo uma data. Mas você é resistente a isso.
- Diabos, data pra quê?
- Julho de 1998. Não. Novembro de 1999.
Dois tiros são disparados.
A polícia derrubou a porta do apartamento e entrou no apartamento, encontrando o comandante de polícia com uma arma na mão e dois de seus policiais mortos no chão. Eles haviam sido alvejados pela arma do comandante.
Então ele foi levado preso e, quando saia, viu uma pick-up vermelha sair cantando o pneu.

A Casa de Irene

Foto retirada do Blog: http://maringaparanabrasil.blogspot.com.br/

Naqueles longínquos anos, havia na Vila Operária, próxima à Igreja São José e ao Cine Horizonte, uma casa de tolerância pouco tolerada pelas mulheres do bairro.  Chamavam-na Casa de Irene. A Liga das Senhoras Cristãs chegou a fazer uma manifestação pública, que começou na praça da igreja e seguiu em caminhada até o difamado lugar, mas sem resultado para elas. A casa era grande, de alvenaria pesada, pintada de branco, com telhas de barro vermelho pretejadas pelo tempo. O muro baixo, o simpático jardim com canteiros de rosas e margaridas e dois gatos sem raça definida sempre deitados na varada durante o dia diziam ser uma residência comum, habitada por alguma respeitada família maringaense. Mas era a partir das sete horas da noite que o movimento começava e seguia até a madrugada. Aos sábados e domingos, alguns homens iam à missa e depois à Casa de Irene. 

A casa era frequentada por muitas pessoas comuns e evitada pelos figurões da cidade, pois não havia nenhuma privacidade na entrada e qualquer um via quem entrava e saía.  Mas um vereador, que chamarei aqui pelo improvável nome Josevaldo,  era assíduo na casa. Era um homem respeitado, esposo de esposa respeitada. Ela, da Pastoral da Família, comprava roupas caras nas lojas da XV de Novembro em época em que não havia shoppings na cidade. Ele, vereador em segundo mandato, treinava tênis de campo num clube todas as manhãs de quinta-feira. Eles, os cabelos pintados, sorridentes, frequentavam as colunas sociais. A um colunista Josevaldo pagava para ver estampadas num jornal fotografias suas em festas de aniversário, batizados, jantares beneficentes. 

Josevaldo chegava a pé à Casa de Irene, vestindo roupas com as quais não era visto nas sessões da câmara e nem no seu escritório de advocacia, usando uma peruca ridícula e óculos escuros. Sentava-se num canto do bar improvisado e aguardava alguma das meninas de Irene se aproximar e pedir que lhe pagasse uma bebida.  Com a primeira já se retirava para o quarto, demorava pouco mais de meia hora e ia embora sem falar com mais ninguém. 

Um dia chegou à Casa de Irene uma menina de Ivatuba a quem chamavam de Monique pela semelhança com a Evans, que era capa de muitas revistas na época. Pois aconteceu: Josevaldo se apaixonou por ela. Não era a mais bonita, nem a mais gostosa, mas tinha uma voz rouca que sussurrava, uns olhos perdidos no nada, e Josevaldo não quis mais outra, perdeu-se naqueles olhos perdidos e na voz sussurrante. E se antes ele ia à casa de Irene a cada quinzena, passou a frequentá-la duas, três vezes por semana. Chegou a faltar à sessão da câmara. E depois de dois meses, quis exclusividade, não conseguia imaginar a menina nos braços de outro homem. Seu plano era tirá-la da casa, alugar para ela um quarto e sala em um prédio barato da cidade.

Mas antes que isso acontecesse, sua esposa descobriu o malfeito. Apesar dos honorários advocatícios, do salário de vereador e da gratificação de 30 por cento dos vencimentos de dois assessores da câmara, trocou o filé-mignon pela alcatra ou mesmo pelo patinho, começou a perguntar à mulher se não desperdiçava nas lojas o dinheiro que ganhava com tanto suor. Ela não era trouxa e juntou os pedaços: os compromissos noturnos quase que diários, a sovinice e a ausência na cama. Pagou um moleque para seguir o marido, logo descobriu onde o sem-vergonha deixava a diferença entre o filé-mignon e o patinho. E soube de Monique. Contratou o mesmo moleque: queria que retalhasse o seu rosto, que ela ficasse desfigurada. Ele a seguiu numa manhã de domingo até a igreja, onde a vigiou durante a missa, acompanhou o seu fervor nas orações. Seguiu-a no retorno à Casa de Irene e, no meio do caminho, apontou-lhe uma faca e a levou para uma casa abandonada na Marcílio Dias. Com a mesma arma, fez três cortes profundos em seu rosto.

Hospital, delegacia, investigação. Josevaldo acompanhou tudo à distância. Um dia, no carro, a esposa ao lado, ouviu a notícia: Monique prestara depoimento à polícia, contara que um rapaz a ferira e que não sabia o motivo. Josevaldo olhou a esposa, que desviou o olhar. Então soube.

A polícia arquivou o inquérito, ficaram as cicatrizes no rosto de Monique. Então ela não pôde permanecer na Casa de Irene. Foi trabalhar na rua, atendendo moleques com pouco dinheiro e até mendigos nos terrenos baldios, atrás dos muros. Um dia, pouco mais de meio ano depois, Josevaldo a viu na Joubert de Carvalho. Era pouco antes das 19 horas, e ela já se oferecia aos transeuntes. Vestido curto, os cabelos maltratados, um sorriso simulado e as cicatrizes. Josevaldo desviou os olhos antes que ela os descobrisse. Aumentou o volume do rádio, sorriu para a esposa, que estava ao lado, e seguiu para a igreja. Era dia de missa.

Uma nova geração

*Gabriel Montechiari e Silva

No ano de 2020 um grande otimismo atingia a comunidade científica. Os transistores óticos postos no mercado pela IBM na metade da década anterior aumentaram consideravelmente o poder de processamento dos computadores que, em abril de 2017, já haviam superado a marca de operações por segundo realizadas pelo cérebro humano. Resultados inconclusivos do LHC conduziram a ajustes promissores nos modelos físicos vigentes. Um em particular, proposto pelo colombiano Salvador Dias, proporcionou um grande avanço na direção da teoria unificada. Suas previsões estavam sendo testadas pela equipe do Grande Interferômetro Orbital, experimento monumental conduzido pela Universidade de Tóquio.

Em janeiro desse ano dois aglomerados de computadores avaliados em 2,6 bilhões de dólares cada foram destinados ao inquérito científico. O modelo GO-5b foi dedicado à astronomia, enquanto seu semelhante da série A realizaria a simulação do universo mais detalhada até então. O chefe do projeto explicou em uma entrevista para a NewScientist que, mesmo com o detalhamento excepcional, com a capacidade de processamento disponível levaria apenas 18 meses para a simulação atingir os 13,3 bilhões de anos do universo.
_

25/12/2020 - 11 h 05 min. - Depoimento de Albert Fishermann, vigilante noturno do Instituto Tecnológico de Massachucetts.

_ A que horas o senhor começou o expediente?

_ Eu cheguei no Campus por volta das 7 da noite, guardei minhas coisas no armário, conversei um pouco com Larry, o guarda do dia... Devo ter batido o cartão às 19:15.

_ Aconteceu alguma coisa atípica antes do incidente?

_ Estava tudo certo. Na medida do possível, claro. Porque não é nada certo ter que trabalhar arriscando a vida na véspera de Natal! Fora isso, estava tudo bem calmo. Até que lá pelas nove o sujeito apareceu.

_ O que ele queria?

_ Me disse que era membro de sei lá que clube inglês e que precisava falar urgente com o senhor Harold. Eu disse “olha , eu sinto muito mas hoje ele deve estar com a família”. Ele disse que poderia haver um problema com a distribuição de energia e me perguntou onde ficavam os geradores. Aí eu ví que tinha alguma coisa esquisita. Disse pra ele que estavam seguros, em um compartimento à prova de explosão. Depois disso ele foi embora nervoso e eu liguei pra central de segurança.

_ O senhor sabe quem era aquele homem?

_ Olha, rapaz, eu não me importo se aquele mexicano era o jovem Einstein, mas ele me deve uma bela ceia de natal.
_

25/12/2020 - 14 h 23 min. - Depoimento de Harold Berkley, chefe do departamento de computação do Instituto Tecnológico de Massachucetts e responsável pelo projeto de simulação Jeová.

_ Dr. Berkley, eu entendo que o senhor esteja muito frustrado, mas gostaria que o senhor respondesse a algumas perguntas.

_ Frustrado? Você sabe como é angariar fundos em um governo de criacionistas, detetive? Cada peça do departamento é fundamental. Foram anos de planejamento e negociações e eu quero que esse homem pague por isso!

_ Justamente para isso que eu preciso da ajuda do senhor.

_ O que você quer saber?

_ Quando foi a última vez que o senhor viu o doutor Salvador Dias?

_ Ontem à noite, às 22 h e 17 min. precisamente. Eu estava cozinhando para a minha família quando a campainha tocou insistente. Eu fiquei surpreso ao vê-lo. Eu não sei se você sabe, mas toda a minha pesquisa foi baseada no trabalho dele. Fui um bom anfitrião, perguntei a que devia a honra de ter o maior físico da atualidade em minha casa e convidei ele para a ceia.

_ …

_ Ele estava descontrolado, não parava de dizer “você tem que parar!”. Eu respondi “mas o peru já está quase pronto”. É claro que ele estava falando da simulação, mas aquela situação era ridícula.

_ O senhor sabe o porquê da urgência dele?

_ Qualquer que seja o motivo, pra ele era uma questão de vida ou morte. Minha hipótese é de que Dias achou alguma falha nos cálculos e queria se poupar do embaraço de alguém notar antes que ele pudesse corrigir. Isso provavelmente o põe nos livros de História como o cientista mais obsessivo de todos os tempos, não acha?

_ O que aconteceu em seguida?

_ Eu pedi para ele se acalmar. Disse que não era a hora nem o lugar para termos aquela discussão. O que quer que fosse, nós poderíamos resolver com calma. O projeto estava indo bem, e caso acontecesse alguma coisa ele seria o primeiro a saber. Então ele dilatou as narinas, me olhou como se fosse me dar um soco na boca do estômago e saiu.

_ Obrigado pelo seu tempo, doutor Berkley. O manteremos informado.

_ Detetive...

_ Sim?

_ Eu não quero que ele pague... Só quero saber por que ele fez isso.

_

25/12/2020 - 20 h 31 min. - Depoimento de Aurora M. Dias, esposa do doutor Salvador Dias.

_ Boa noite, senhora. Como foi de viagem?

_ Como o senhor esperava que fosse? Eu quero ver meu marido.

_ A senhora poderá vê-lo assim que colhermos o depoimento dele. Por enquanto, eu gostaria que me respondesse algumas perguntas.

_ Eu aposto que o senhor tem mais respostas que eu, detetive. Só me contaram que tinham Salvador sob custódia há doze horas e a pessoa ao telefone foi incapaz de me dar qualquer detalhe.

_ À meia-noite de ontem, Albert Fishermann comia sozinho o frango que sua mulher havia preparado, quando o marido da senhora entrou com um carro pela porta de vidro do prédio sede do departamento de computação do MIT. Enquanto o vigia ainda estava atordoado com a surpresa, o doutor Salvador Dias alcançou a arma do coldre do pobre homem e deu dois tiros na perna direita dele. Depois disso ele se dirigiu ao segundo andar, pegou um machado de incêndio e destruiu um computador valiosíssimo.

_ Hum... Pelo menos agora eu tenho certeza de que ele não está me traindo, não é?

_ Senhora Dias, me conte sobre a última vez que viu seu marido.

_ Nós estávamos na nossa casa em Los Angeles. Desde o começo do ano Salvador não é mais o mesmo, ele está agitado. Ele disse que era por causa do trabalho. Por mais que eu quisesse ajudar, quando se trata de equações não existe nada que eu possa fazer, não me ensinaram cálculo na Belas Artes. Há três dias ele recebeu uma ligação do Japão, e foi isso. Ele pegou a carteira, arrancou o calendário da parede da cozinha e sumiu.

_ O doutor Salvador é um homem agressivo?

_ Eu nunca conheci alguém mais calmo. Isso até já me irritou bastante...

_ Entendo. Muito obrigado, senhora. Não se preocupe, logo poderá vê-lo e o vigia está bem. Tenha uma boa noite.
_

25/12/2020 - 22 h 0 min. - Depoimento de Salvador Dias, físico teórico e professor da Universidade de Cambridge.

_ Eu nunca me destaquei em nenhuma área científica, mas...

_ Não se engane, detetive. A ciência é uma investigação como qualquer outra.

_ Mas... Já ouvi falar na constante cosmológica. Einstein a chamou de o erro de sua vida e, pelo que ouço falar, não foi o único. Inclusive, ao que me parece, dr. Dias, o erro é uma parte importante do processo.

_ Exato.

_ Então o doutor me responda: Por que, por tudo que eu li a seu respeito, um pacifista chegaria ao extremo a que o senhor chegou? Encobrir seu erro era tão importante assim?

_ Erro? Não, detetive. Eu me envergonho em admitir isso, mas sempre tive certeza dos meus cálculos e de suas consequências de uma forma que seria até inapropriada para alguém no meu ramo. Os números estão corretos. Eu gostaria que o senhor fosse capaz de entender, mas só existem três pessoas capazes disso no mundo. Uma sou eu, outra só está viva pelo milagre de aparelhos e a terceira não é o senhor.

_ Tente, doutor.

_ Está bem. Há uns sete anos, um experimento muito similar ao que está se conduzindo em órbita foi realizado. Ele nos deu indícios de que, em escalas muito reduzidas, o universo é granuloso e formado por bits de informação. O senhor sabe o que é um bit, detetive?

_ Eu posso só ter completado o ensino superior, mas não sou ignorante, doutor.

_ Certo. Isso mudou alguns conceitos importantes na cosmologia. E ainda que o foco do meu trabalho não fosse exatamente aquele, feitos os ajustes teóricos necessários eu não podia fugir das implicações. Foi então que eu me deparei com um modelo satisfatoriamente acurado para o universo: ele era como um fractal. E ainda que as primeiras iterações dele estivessem sujeitas ao Princípio da Incerteza, minha descoberta mostrou que esse era apenas um limite técnico. Segundo uma simetria inusitada, as escalas menores são simplesmente repetições do mesmo tema. E ele é tão elegante que pode ser escrito em apenas uma linha.

_ Acho que o senhor tinha razão sobre as três pessoas.

_ Minha descoberta implica na reintrodução do conceito de um universo determinístico. Dadas as condições iniciais, ele poderia ser reproduzido. E foi isso que o dr. Berkley fez, inconsequentemente, antes mesmo das minhas previsões serem confirmadas.

_ E o senhor não queria que ele simulasse o universo que descobriu.

_ Não é assim tão simples. Para mim estava claro o que ia acontecer, isso me preocupou seriamente. Mas eu não podia fazer nada pelo que outras pessoas chamariam de um palpite. Na terça-feira recebi um telefonema de Tóquio confirmando não oficialmente minha descoberta. Aí eu não podia mais esperar.

_ Eu ainda não entendo. Aquilo era só uma simulação...

_ Nada é só uma simulação, detetive. No final de Janeiro deste ano um universo começou. E, mesmo que as limitações computacionais tolhessem parcialmente a sua resolução, em tudo que importa ele funcionaria exatamente como o nosso. Hoje ele teria quase nove bilhões de anos. Estrelas de segunda e terceira geração já teriam se formado há um tempo, com elas átomos complexos como os que formaram, em pelo menos um caso, a vida. E isso eu não poderia deixar, detetive.

_ A existência da vida?

_ Um ser humano com o mínimo de consciência ética e alguma noção do que está fazendo nunca permitiria que a vida se repetisse. É um erro ela ter se formado, em primeiro lugar.

_ Sim, doutor Dias, eu entendo perfeitamente. No entanto, o senhor deveria saber que um ser humano com alguma noção do que está fazendo saberia diferenciar um supercomputador ótico de um sistema de meteorologia.

_ O quê?

_ O aglomerado GO-5a está seguro no subsolo do prédio que o senhor invadiu. Infelizmente, graças ao senhor, não saberemos precisamente se vai chover na virada do ano. Mas posso garantir que a vida vai acontecer, e não existe nada que o senhor possa fazer pra mudar isso.

Alegoria

*João Gustavo

Gala can't see the waves
Cá estamos, novamente. E estar de novo, estar nesse sentido de brevidade, de que logo nos iremos mais uma vez, parece fluido, gelatinoso; esparramados pros lados, sem bordas, sem trincheiras, apenas expansão e dispersão. Cá estamos e você, mais uma vez, vai tentar sorrir daquele jeito, dizer as coisas daquela forma, empunhar as palavras num movimento mambembe, agarrar o sofá e, sem dúvida alguma, sair dançando atada a ele pela sala, nesse ritmo atípico todo próprio e todo prosa. Todo prosa. No espaço rarefeito de poesia e melodia, sobram espaços pra sua dança, inteira ela dedicada ao descomeço. 

“Uma semente de ilusão/Tem que morrer pra germinar/Plantar nalgum lugar/Ressuscitar no chão/Nossa semeadura/Quem poderá fazer/Aquele amor morrer/Nossa caminhadura” Gil 

A música daquela minissérie que você gostava, balbucia ela, ausente e azul. Sabe por que às vezes eu fico dessa cor? Finjo que não ouço, sempre mais fácil. A tática que ela emprega, nessas situações de desencaixe entre expectativa e reciprocidade, se faz presente: fica amarela. Ainda me lembro dos girassóis... e eu continuo olhando pra mesa, desatento às chamadas, aos convites feitos pelo diálogo. Esse girassol me lembrará sempre daquilo que poderíamos ter sido... ouço e imediatamente considero o comentário insosso e pouco perspicaz. Atira o girassol no meu rosto, sobe na mesa, arranca o lustre do teto e entra pelo buraco deixado em razão da retirada abrupta do objeto. 

“She said, ‘there is no reason’/‘And the truth is plain to see’/But I wandered through my playing cards/And would not let her be/One of sixteen vestal virgins/Who were leaving for the coast/And although my eyes were open/They might have just as well´ve been closed” Procol Harum 

Sorrimos como há muito não o fazíamos. Acho que é essa sua armação de óculos... deixou você com um ar de promessas impraticáveis. E isso é bom, perguntei, e não gostei de perguntar, dispensável. Bebe o líquido avermelhado e cospe longe o morango. Vocês pareciam plenos, eu de novo, intrometido, inoportuno, chutando a cadeira da frente quase a ponto de quebrá-la. Ela, socando a mesa com tamanha força que os copos chacoalhavam e ameaçavam se desfazer em estilhaços, apenas olhava pros meus óculos e deslizava a mão direita na minha coxa esquerda. Quebrei a cadeira num chute derradeiro, um copo foi ao chão. Nos beijamos com muita culpa. Poucas coisas nesse mundo são tão libidinosas quanto a culpa. Acariciava a armação e sussurrava só não conta pra ele, por favor, que fique entre nós dois e a arara. A arara passou rasante sobre nossas cabeças e pousou em cima do balcão do bar, lambendo a pata. 

“Não deu certo uma vez/E nunca mais vai dar/Depois do que me fez/Não era pra eu te amar/Ah, meu amor.../Que raiva que me dá” Amado Batista 

Muito sol lá fora... Tá quente mesmo. As árvores ainda mais verdes, os carros iluminados e ofuscantes. Acho que me envolvi, ela libera, de sobressalto, e começa a soluçar. Toma uma água, tá quente, sugiro, pensando no soluço. Bebe toda a água da garrafa sem desgrudar. Em resposta, descasquei uma laranja inteira em menos de cinco segundos. Foi o suficiente. Você faz isso pra me provocar, resmunga ela, arrancando a roupa. Permaneci quieto, sempre o melhor a fazer. E tirei a cueca, claro. Tô cansada dessa sua brincadeira, murmura, abrindo as pernas. Peraí, saio de dentro dela e fico em pé, apoiado na parede e com um ar desconfiado, que era o que me cabia, você chegou aqui dizendo que tinha se envolvido. Vestindo a calcinha e o sutiã em pouco mais de vinte segundos, ela retruca me envolvi, mas não vem ao caso, tá tudo muito passageiro, me envolver tá sendo sempre o de menos. E o que sobra, indago, distanciado e querendo pular no mar. Ela retira uma concha de praia da bolsa, a prende em seus cabelos com um grampo, joga um limão e um coco pra mim, consegui pegar o primeiro com mais facilidade que o segundo, confesso, e apenas diz sobra aquilo que eu quero. Pulou na água e foi se bronzear sob o sol inclemente, tal qual uma lagartixa, como diria a avó de alguém. 

“A quoi ça sert l’amour?/On raconte toujours/Des histoires insensées/A quoi ça sert d´aimer?/…/Tout ce qui maintenant/Te semblé déchirant/Demain, sera pour toi/Un souvenir de joie” Piaf 

O beijo carregou o salão todo. O aparato festivo pareceu ter sido montado somente pra que aquele encontro de línguas acontecesse. Você quer mesmo fazer isso, perguntei, e quis mesmo perguntar, era necessário. O baixar de olhos dela demonstrou seu instante pusilânime. Entendi que não estava ali mas desejava aquilo, e contra desejo não se pode brigar muito sob o risco de torná-lo gigantesco, feito massa de pão, diria a tia de alguém por aí. Rendeu-se porque sabia que aquela vontade, aquela curiosidade, aquela carga de fantasia possível que depositava sobre mim precisava ser saciada, desvendada e concretizada (respectivamente e com doses de gozo e suor). Sentimento é estranho, concluí ao lado dela, ambos nus num quarto de motel, e achei que falei uma parvalhice. Dessa vez foi ela quem silenciou. Compreendi seu momento e me distanciei. Espera, vamos ficar mais um pouco, ela pediu, séria, e eu nem tinha pensado em ir embora, só ia mijar. Tudo bem, foi o que acreditei ser o melhor a dizer. 

“Você tem que vir comigo/Em meu caminho/E talvez o meu caminho/Seja triste pra você/Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos/E os seus braços o meu ninho/No silêncio de depois/E você tem de ser a estrela derradeira/Minha amiga e companheira/ No infinito de nós dois” Vinicius 

Agarrada ao sofá, dançava agora em passos cansados. A mesa continuava ali, espectadora impassível. Larga o sofá, eu disse, ela me olhou receosa. Pode deixar aí, não funciona mais. Ia voltar a arrancar o lustre quando estacou. Dessa vez vou embora pela janela. É mais seguro sair pela porta, indiquei, meio desinteressado. Se eu sair pela porta não volto mais. Não dei muita importância pra frase pretensamente ameaçadora. E isso não é uma ameaça, é uma verdade. Conferi importância àquelas palavras, enfim éramos duas pessoas integralmente presentes. A escolha é sua, falei, não, não é, ela retrucou. Arrancou da bolsa um guarda-sol aberto que prontamente foi levado pelo vento pra perto da porta de entrada. Vou abrir pra ele sair, eu disse, esperando a reação dela. Pode deixar, eu sei pra que lugar levá-lo. Abriu a porta e o objeto saiu flutuando pelas escadas. Olhei pra ela e pro corredor. A porta agora era de saída. Ainda é tempo, ela me fitou, sem choro, sem firulas. Será mesmo, perguntei, quase do outro lado do mundo. Um dia, lá na frente, a gente se entende, eu disse e não compreendi muito bem o que quis dizer. Estranho dizer coisas nas quais nem você acredita. Ela sorriu, sem qualquer convicção, e saiu porta afora. De vez. E eu só pude escutar, longe, o vendedor de sorvetes anunciando picolé de mamão. O barulho do salto dela já me era completamente escapável.

Tipo David Lynch

*Nelson Alexandre

Elephant Man
O bife de fígado apodrecia cru em cima da chapa do fogão de uma pequena casa de Space City. Havia algumas cápsulas de omeprazol e alopurinol espalhadas pelo chão da cozinha e as baratas permaneciam quietinhas lá, em seus buracos profundos e enigmáticos.

As formigas picavam o pé do alfabeto, e o alfabeto nem ao menos gritava de dor ou de tristeza. Não havia motivo para tristeza.

Havia, apenas, motivo para uma inércia voluntária, gerada por anos de espera numa cadeira de rodas. Nesse meio tempo, as têmporas receberiam mais alguns fios brancos de cabelos amaciados por shampoos de marca não barata e de qualidade e preços indiscutíveis.

O nome do cara era João, mas ele vivia dizendo que era John Merrick.

Não havia deformidades no corpo ou no rosto de João, que em dias nublados e de chuvas de canivetes abertos insistia em abrir o seu guarda-chuva de tolices e ser picotado pelas lâminas implacáveis do toró.
João foi até o armário e pegou uma boneca inflável que ele chamava de Laura.

Sentou a boneca de frente a ele na mesa da cozinha, ajeitando seus cabelos, cobrindo os seios desnudos de plástico, pensando em pedir a distinta em casamento.

Amor não há?

Olhava pela janela e via que o mundo havia mudado. As reflexões é que permaneciam as mesmas. A conta de telefone. A conta de água. De luz.

Mas João, ou John, pensava mesmo era sobre o paradeiro daqueles que se diziam seus amigos.

“Sou o Homem Elefante.” Pensava.

De vez em quando alguém pagava uma “conectada” para dar uma espiada em seu ciberespaço bizarro que é esta casa de espelhos retorcidos e mal apurados.

“Sou o Homem Elefante.” Pensava.

Admirado de longe e negligenciado de perto.

“Quer se casar comigo?” Perguntava para Laura que, por sua vez, não dizia nem que sim, nem que não.

Quem quer se casar com o Homem Elefante? Só mesmo a ciência. Somente a estreita relação de cientificismo localizada no gume afiado da ponta do bisturi.

João foi até a geladeira e contou as folhas do maço de rúculas e, quando perdeu a conta, emendou um chute na dieta já seguida de forma irregular e desandou até o bar da esquina.

“Cerveja.”

O homem do bar o olhou com certo desvelo, bem diferente dos demais donos de bar onde bebia sua cerveja.

“Se vai se foder, hein? E a dieta?”

“Foda-se.”

“Tá meio quente.”

“Eu também.”

Engoliu uma garrafa e sentiu a mucosa estufar feito o dirigível Nuremberg. Pagou e se mandou.

Novamente em casa, sentou numa cadeira na cozinha. O bife de fígado apodrecia cru em cima da chapa do fogão.

Laura estava novamente acompanhada e parecia querer dizer a João que estava grávida.

“Quer se casar comigo, Laura?”

Não disse nem que sim, nem que não.

Levantou-se e foi até o aparelho de som. Ficou parado, em frente a ele. Antigo. Anos oitenta. Os MP9 da vida riam daquela obsoleta forma de entretenimento sonoro.

“Vou ouvir Blue Velvet.” Pensou.

O som não encobria o cheiro do fígado cru apodrecendo na chapa do fogão.

“Quer dançar, Laura?”

Não respondeu nem que sim, nem que não.

“Sou o Homem Elefante.” Pensou.

Voltou novamente para a geladeira e começou a contar as folhas do maço de almeirão. Quis dar um chute novamente na dieta, quando Laura interveio.

“Eu caso.”

Olhou por um instante a boneca inflável e constatou que suas formas tinham ganhado derme e epiderme, músculos, veias e artérias, lábios e seios de verdade.

“Sou o Homem Elefante.” Disse.

“Sou Laura Palmer.” Respondeu.

No mesmo instante, nos maços de rúcula, agrião e almeirão, brotaram pequenas flores. O vinil, que ecoava notas como se fossem pequenas estrelas de galáxias escondidas, já não chiava mais.

“É uma menina, João.”

“Sou o Homem Elefante.” Disse.

“Tente não ser, como eu tento não ser uma boneca de plástico.” Respondeu.

Dançavam entrelaçados como dois cavalos marinhos, quando as luzes do mundo resolveram se apagar. Dez horas. Toque de recolher.

Lá em cima, do satélite sentinela que vigia o planeta, o programa de segurança detectava o doce vagar das notas de Blue Velvet, sem nunca cogitar o bife de fígado que apodrecia cru em cima da chapa do fogão.

Voz e Meu

*João Gustavo

Me @ 02-JUL-2006
- Zoraide.

- Vai pôr esse?

- Vou. Achou bom?

- Péssimo.

Longa pausa.

- É. É ruim, sem dúvida.

- Péssimo. Repito e sentencio.

Cozinha. Lata de cerveja, só pra ele.

- Gosto de Sebastiana.

Volta pro sofá, primeiro gole.

- Imprime uma ideia de grandeza.

- Concordo. – gole – Mas não condiz. Há uma fraqueza irreprimível aqui.

- Não era na outra?

- Não.

- Hum.

Cozinha. Lata de cerveja também.

- Fica com esse. Um ponto fora da curva pode cair interessante no papel.

- Sei não... – gole – Tem essa história da ilusão primeira.

- Facilmente desfeita se houver convencimento, meu bem. – gole.

- Você não tinha prometido a si mesma que deixaria o álcool?

- Não diz a coisa desse jeito. Pareceu falar pra uma alcoólatra.

Longa pausa.

- Emprestei seu cd do Caetano pro Laurinho.

- Caramba, Ju... Já falei pra você...

- O seu preferido. O do Tempo de Estio.

- .... – gole, gole.

- Não faz essa cara. O menino devolve. Devolve mesmo, sério.

- ...

- Fiz ele prometer.

Pausa. E gole.

- Du, te falei que encontrei a Marina?

- Não.

- Encontrei. Ela engordou um pouco, mas ainda é bonita.

- “Ainda é”...

- Que foi?

- Sei lá. Engraçado o “ainda”. Melhor um “tava”. Sem é. Sem continuação.

- Nunca achei ela feia.

- Eu sei.

- Como?

- Sempre soube.

- Nunca te falei nada.

- Desnecessário.

Pausa. E goles, s, s, ... O conteúdo acaba.

- Ai, que chato isso.

- ...

- Certas coisas, meu queridinho, devem ficar em silêncio.

- Eu sei. Desculpa.

Pausa. Lata vazia indo pro chão.

- O Laurinho disse que prefere o Edu Lobo.

- Numa comparação feita com quem?

- Com o Caetano.

- E o cd foi emprestado por quê?

- Porque ele queria ouvir.

- Sei.

- Verdade. Emprestei porque ele pediu.

Rodopio da lata feito com os dedos.

- Ela ainda gosta de você.

- ...

- Não há disfarce, eu vejo. Não nos olhos. Nem nos gestos. Vejo na boca.

- ...

- A boca dela quando fala o seu nome, imantado à saliva.

- ...

- Sai melífluo, sabe? E-du-ar-do. Causa uma interrupção na frase. Teu nome quebra a estrutura, o período, e irrompe, derretendo as sílabas nos lábios dela. E-du-ar-do...

-....

- A boca sai do tom e se agarra ao nome, aquosa. Chega a ser bonito.

Pausa. Longa.

- Foi o Edu Lobo quem compôs Tarde em Itapuã com o Vinicius?

- Não.

- Acho que não sei muita coisa sobre ele.

Pausa. Breve.

- Você transou com ela no banheiro do apê do Laurinho?

- ...

- É uma pergunta que deve ser respondida.

- Quem disse?

- A Rê.

Intervalo pra uma coçada na perna.

- Quase na mesma posição que usamos sábado passado.

- “Usamos”... Soa estranho.

Bocejo inoportuno, daqueles que duram pouco, mas que imprimem um efeito de indolência que se prolonga num tempo superior à mecânica do movimento.

- Ela parece mais divertida.

- Sossega, Juliana.

- Verdade. Dessas que sempre são associadas a uma tarde de verão.

- ...

- E ainda gosta de você.

- ...

- Até o Laurinho prefere ela. Tão nítido...

- E esse “até” tem fundamento?

- Porque a Rê também.

- ...

- Talvez você.

Pausa. Razoavelmente breve. Ligeiramente longa.

- Põe Ruth.

Espaçamento.

- Tem a ver.

- Fico feliz por ter gostado.

- Ruth acrescenta.

- E é um nome curto, passa rápido pela cabeça. Mas, ainda assim, não deixa de se prolongar num eco esquisito, pra dentro.

Nova pausa. Atemporal. Apenas pausa.

- Quem foi que você encontrou mesmo?

- Hum? Tá falando da Marina?

- ...

- Que foi?

Intervalo de segundos.

- Na tua boca vira um monossílabo.

Rodopiou a lata. E lá fora um pai empurrava o filho que aprendia a andar de bicicleta.

Sou contra



Multidão Começou quase que por acaso, numa conversa de bar. Depois de um pouco de cerveja ter animado seus ânimos, ele declarou: 

- Sou contra. 

Ninguém havia dito nada antes. Ninguém estava discutindo qualquer coisa relevante. Não havia o que contrariar. 

- O quê? 

- Sou contra. 

- Quê?! Tá maluco, mano? 

- Não. Decidi ser contra. E me sinto no direito de ser contra. 

Uma moça, sentada em frente, animou-se: 

- Também sou contra... Mas contra quê? 

- Não faz muita diferença... 

- Certo, sou contra. 

- Também sou contra. – afirmou outro, na ponta da mesa. 

E, de repente, a mesa estava em polvorosa. Olhos assustados iam de um lado para o outro, alguns batiam na mesa em afirmação. Dois deles levantaram e foram embora, ultrajados. 

- Não sei se consigo ser contra. 

- Eu sou contra. 

- O que se faz quando se é contra? 

- Poderíamos fazer um manifesto. 

- O manifesto do contra. 

- Decididamente, não sou contra. 

- Que tal uma posição mais tolerante? 

- Não, sou contra. 

- Vamos fazer a marcha do contra! 

- Não iriam aderir. 

- Seríamos uma contra-marcha. 

- Não, precisamos de adesão geral. 

- Todos a favor do contra. 

- Não, todos contra quem não é contra. 

Nos dias seguintes, a coisa começou a se espalhar. Pessoas conversavam sobre o assunto pelas ruas, murmuravam. Havia uma tensão no ar, e as pessoas sentiam-se na obrigação de tomar uma posição, escolher um lado. 

- Ei, não olhe agora, mas tem um contra sentado atrás de você... 

- Um contra?! 

- Sim, não olhe. 

- Meu Deus! 

- E acho que deve ser um dos primeiros. 

- Eu tenho medo deles... 

- Por quê? 

- Eles são contra... – sussurrou. 

- Mas nunca fizeram nada a ninguém. 

- Eu sei, mas... Ser contra é muito arriscado. 

- Amiga. Você não pode dizer a ninguém, mas... 

- Oh, não! 

- Sim. Eu também sou contra. 

- Mas, por quê? 

- Não há como evitar... Chegou a um ponto em que... era insustentável! Completamente insustentável! 

- Mas amiga... 

- Não pode dizer nada a ninguém... 

Alguns entre os mais velhos se exaltavam, criticavam, proibiam os filhos de andar com quem fosse contra: 

- É tudo um bando de vagabundo! 

- Querido! São jovens... Eles mudam. 

- Não! São uns vagabundos! Devem passar o dia usando drogas e roubando. Ai, se eu souber que os meninos estão metidos numa coisa dessas! Antes morrer que ver um dos meus filhos ser contra! 

- Calma, querido, olha a pressão, olha a diabetes... 

- Pressão, mulher?! Como vou pensar em pressão se, na volta do colégio um dos meus filhos pode olhar pra mim e dizer que é contra?! Antes morrer! 

E em menos de um mês, já se podia encontrar quem fosse contra em todas as partes do país. 

- ... Então, daí eu sou contra, e... 

- Nossa! Sério que você é contra?! Eu também sou! 

- Puxa, que incrível! Você nem parece! 

- Pois é... Mas nem sabia que havia contra no Pará. 

- Mas tem, tem sim... Acho que foi uma coisa meio simultânea, em toda parte. 

Porém, como não poderia deixar de ser, logo apareceram jovens muito jovens que se diziam contra. Muitos deles eram apenas pseudo-contra, movidos pela exaltação geral. Ainda eram muito jovens para uma decisão tão séria. 

- Sou contra, tá?! É mó massa! E nem vem criticar! 

- É! Sou assim mesmo, não quero nem saber! 

Ao mesmo tempo, o governo começou a ficar preocupado com a repercussão daquilo. A oposição já tramava lançar um candidato que se afirmasse contra. Com todo aquele movimento, deviam ganhar fácil! Do outro lado, o partido no poder começava a fazer reuniões e mais reuniões para discutir a respeito. Ninguém havia se manifestado, nenhuma passeata, nenhuma marcha, nenhum manifesto ou jornal defendendo os ideais dos contra. Mesmo assim, a coisa se espalhava perigosamente, transbordando incertezas. Afinal, o que significava ser contra? Precisavam agir, e rápido. A primeira decisão foi tomada em conjunto com as empresas de comunicação em massa. Emissoras de televisão e rádio, assim como os jornais impressos concordaram com o governo na decisão de suprimir de todos os programas, notícias e afins a palavra “contra”. Tudo passaria por uma rígida censura para que em nenhum momento isso fosse veiculado. 

O mais difícil seria controlar as coisas na Internet. Os jornais impressos que tinham versão online já estavam encaminhados: o que valia para os impressos valia para eles também. Mas que fazer com a profusão de sites sobre os mais diversos assuntos, hospedados nos mais diversos lugares do globo? Talvez um sistema que automaticamente apagasse toda ocorrência da palavra “contra”, mas isso seria transparente demais. Qualquer pessoa perceberia ali a ausência daquela palavra e a subentenderia. Além disso, o fato de vê-la apagada poderia fazer com que as pessoas desconfiassem da censura, e isso não era adequado. A coisa deveria ir na raiz do problema. 

Também havia a questão de que se suspeitava que já houvesse contra dentro das emissoras de televisão e rádio, assim como nos jornais. Havia também os artistas, sempre muito habilidosos em burlar as determinações governamentais. Era necessário trazê-los para o lado do governo. Talvez com algum tipo de financiamento, pois a coisa não está fácil para ninguém. Eles seriam financiados pelo governo, fariam seu trabalho e, em troca, esse trabalho passaria por uma suave avaliação, coisa burocrática, de praxe, onde poderiam ser excluídas toda e qualquer ocorrência da palavra “contra”. O financiamento deveria ser alto, e criar possibilidades para que esses artistas fossem uma hostil concorrência para aqueles outros que não tivessem esse financiamento, como forma de sutilmente eliminá-los. 

O problema dos intelectuais poderia ser resolvido de forma semelhante. Financiamento para pesquisas e institutos e voilà! A possibilidade de censurar o resultados das pesquisas realizadas e controlar os currículos escolares e de universidades. Tudo em prol de excluir essa perigosa ameaça que eram os contra. 

Enquanto isso, a oposição se organizava. Discutiam, conversavam. Ser contra não é algo que simplesmente se afirme ser. Há um algo mais que, porém, não se pode definir. Como então, preparar um candidato para isso? 

Sem solução, o melhor era tentar mostrar a necessidade de unir quem for contra. E, para unir os contra, nada melhor que um governante que assim se afirmasse, mesmo que ele não soubesse exatamente como sê-lo. 

Ou então.... poderiam pelo menos incitar as pessoas a se questionarem a respeito do governo atual. Talvez exatamente sugerindo que os contra estavam sendo veladamente censurados... 

- Acho que tem algo de muito erado por aqui... 

- O quê? 

- Não sei ao certo... Parece que está faltando alguma coisa nessa matéria... Como se estivessem evitando falar alguma coisa... 

- Hãn? 

- É! Veja: “grevistas mantém paralização por não terem sido a favor de proposta do secretário...”. 

- Não seria mais fácil dizer que eles foram contra? 

- Pois é exatamente essa a questão! Tenho reparado esses desvios com certa frequência e não consigo imaginar o motivo... 

A censura continuava. Enquanto isso, a oposição começava a planejar uma espécie de “quebra de sigilo”. Faria com que alguns civis soubessem da questão da censura e que espalhassem. Com a revolta da população, um candidato que se dissesse oposto a essa política, que afirmasse também ser contra conseguiria facilmente chegar ao poder. Porém, o governo sabia de sua fragilidade... Não bastava censurar: era necessário disseminar uma ideia diferente daquilo que se espalhava e ganhava força dia após dia. 

- Temos que encontrar um meio! 

- E se veiculássemos uma propaganda contra o contra? Não abertamente, de forma velada, nas entrelinhas, nas subliminares... 

- Não sei... Ser contra o contra não acaba sendo uma forma de ser contra também? É perigoso... 

- Mas, então? 

- Devemos apassivar a população... Impedi-los de ser contra, e mesmo de ser contra o contra. O mais saudável seria que achassem que ser contra é inútil, desimportante. A coisa desapareceria por si. 

- Tem razão. Exaltar os ânimos só impulsionaria o movimento! 

- E perderíamos força. 

- E perderíamos força! 

- Ao poucos poderíamos liberar o uso da palavra “contra”. 

- Sim, ela voltaria a ser inócua. 

- Inofensiva. 

- Isso é perfeito. Precisamos conversar novamente com as agências de comunicação! 

Apesar de todas as preparações para ação, pouco ainda havia sido feito além da retirada da palavra “contra” dos meios de comunicação. Era difícil lutar contra algo tão imponderável. Enquanto isso, a população continuava vivendo impasses, tomando decisões. 

- Sou contra. 

- Não sirvo para isso. 

- Tentei, mas acho que é demais para mim, não consigo! 

O governo acabou sendo mais rápido na veiculação de mensagens de “amansamento do contra”. Os boatos da oposição ainda não haviam atingido muitas pessoas quando, pela TV, todos começaram a ser bombardeados por pequenas mensagens inseridas nas próprias estruturas dos programas de reportagens e jornais. Muitos deixaram de ser contra. Mas também não eram a favor. Então, o quê? 

- Não, não sou contra. Nem a favor, na verdade. Acho que isso não muda nada, não corrige as coisas. Aliás, podia ser pior, não podia? Veja as criancinhas na África. Veja a frieza dos chineses, a superpopulação, os homens-bomba. Estamos bem, não há como ser contra. 

Havia outros, que, tendo tomado conhecimento dos boatos da oposição sobre a censura, tornaram-se mais radicais. Começaram a pôr fogo em caçambas de lixo, fazer pichações: SOU CONTRA! Alguém chegou mesmo a fazer um grande estêncil com essa afirmação no calçamento de uma praça. A polícia ficou em alerta, mas muitos achavam graça. Passaram a chamá-los de radicontra, os contra mais radicais. 

E nunca havia nenhuma imagem atrelada às manifestações. Nunca havia qualquer outra palavra que não fosse “sou contra” e, uma vez ou outra, algo logo abaixo como “Ju e Aninha – amor eterno”, coisa de adolescentes pseudo-radicontras. 

Faziam pesquisas de opinião, com gráficos mostrando quem era contra e quem não. Porém, propostas desse tipo não recebiam financiamento, eram realizados só por vontade do pesquisador e curiosidade científica. Enquanto isso, pululavam estudos sobre toda e qualquer anacronia, mesmo as mais insignificantes. Trabalhos que falassem sobre a atualidade, sobre desenvolvimento histórico, dialética, eram vistos com muita desconfiança e só muito raramente recebiam incentivo financeiro. 

Toda essa censura, porém, só deu resultado em um primeiro momento. Logo, todos no país eram, em maior ou menor grau, contra, e mesmo os políticos no poder sentiam que eram contra. Mas a coisa já estava se tornando estranhamente mais fraca, e cada um buscava um objeto para sua contrariedade. Surgiram os contra o governo, os anarcocontras. Também aqueles que eram contra os homossexuais, os homocontra. E vieram igrejocontra, sociocontra, criançocontra, abortocontra e milhares e milhares de pequenas classificações de validade tênue e duvidosa. 

Como todos eram contra, decidiram tirar o termo “contra” que completava suas classificações e voltar a usar apenas a palavra em si. Anarquistas, homofóbicos, fanáticos religiosos, ateus, sociopatas, claustrofóbicos, paranóicos, histéricos. A palavra “contra” foi voltando a ter seu uso comum, ameno, sem que ninguém precisasse fazer censura, sem que ninguém manipulasse ninguém. E os que não acharam ao certo contra o que ser contra simplesmente deixaram de se anunciar, quase da noite para o dia. E aqueles que achavam sua própria contrariedade muito agressiva, foram deixando de anunciá-la e passando a mantê-la apenas em sua própria concepção do mundo. 

Mas, entre amigos, em uma reunião íntima e descontraída, em uma troca de olhares ou um murmúrio compartilhado, alguém dizia, timidamente, embora com convicção: “sou contra”, e havia uma silenciosa nota de concordância e comprometimento em cada olhar. 


Meus agradecimentos ao Cleyton e à Fernanda, que também são contra.