Quando setembro é alto e as árvores se abrem em flor, S'il Vous Plaît vai para a varanda exibir os cabelos louros e os olhos cor de joia. Ajeita sedas e rendas e o cor-de-rosa de suas faces e fica sorrindo enquanto a vida vai correndo (muitas vezes pela contramão, mas ela não sabe sobre trânsito e nem se dá conta). E também é correndo que passa o Clown, a quem S'il Vous Plaît grita:
- Bom dia, Clown! Não está realmente um lindo dia, hoje?
O Clown pára bem perto da calçada de S'il Vous Plaît (não estava na contramão - ainda que a maioria dos passantes estivesse), cumprimenta-a e, com um olhar entre desconfiado e incrédulo, responde:
- Depende de onde você vê o dia, madame. Daqui de onde olho, vejo umas nuvens se agrupando ao longe e acho mesmo que vai chover...
S'il Vous Plaît ameniza o sorriso, um tanto constrangida com a resposta estranha do Clown (ela apenas esperava um "bom dia, madame!", ora bolas!) e sorri novamente:
- Mas a chuva é muito importante, Clown! Não deixa de ser um lindo dia por isso.
- Talvez, mas não me arrisco a afirmar, não. Tenho que pensar melhor a respeito.
S'il Vous Plaît, um pouco incomodada com a situação, mas sem querer perder a pose, desvia suavemente (como toda dama deve saber) o rumo da conversa.
- Me parece tão preocupado, Clown. O que te aflige? Era sempre tão alegre e sorridente!
- Aposentei.
- Aposentou? Mas porque continua se vestindo como se fosse apresentar um espetáculo?
- Pois eu sou um palhaço, madame. Escolhi esse rumo para minha vida. Não deixei de ser palhaço: aposentei-me. Um professor não deixa de ser professor quando se aposenta. É professor aposentado. Da mesma forma, sou palhaço aposentado.
- Mas, por quê? Você ainda é tão novo e está tão saudável!
- Os tempos são outros, madame. Não posso mais fazer rir. Não posso simplesmente fazer o que apraz ao público, se na minha mente o mundo grita.
- O mundo grita, Clown? Por acaso estás te tornando um lunático?
- Madame S'il Vous Plaît, se eu ficar aqui parado em seu portão, sem correr pela mão ou pela contramão, estou tomando uma decisão?
- Creio que não, só vai decidir quando for para um lado ou para o outro.
- Mas, e se eu disser que ficar parado também é uma escolha. E uma escolha que vai contra a escolha de me mover.
- Direi que, apesar de estranha, sua colocação é bastante pertinente.
- E será que eu tenho a opção de ficar parado?
- Oras! Toda opção possível é uma opção, ainda que talvez não seja a melhor escolha.
- Pois bem. Se eu vejo um mal, quais são as posições possíveis para mim?
- Penso que ser contra ou a favor...
- ... ou se omitir.
- Sim, ou se omitir.
- É onde eu queria chegar: não me aposentar seria uma omissão.
- Não vi aonde deseja chegar...
- Cheguei, madame. Estou aqui. Aposentado e sem poder sorrir, nem fazer sorrir, pois fazer sorrir é dar ao público o que lhe agrada. E como posso agradar o público desses novos tempos?
- Sou público dos novos tempos, Clown. E a mim muito me agrada uma brincadeira no picadeiro.
- Mas, você, madame, você... Você não entende...
- O que não entendo, Clown? Já está me afligindo!
- Não entende, madame, que se eu quiser te oferecer uma rosa, a única rosa que posso te oferecer é a rosa de Hiroshima. Não entende que você compra seu riso na entrada do circo e é um riso que te apraz, moldado para caber em você, como um sapato. Mas um mesmo 36 cabe em outras senhoritas, então esse sapato nem mesmo é seu exclusivamente. Como vou fazer rir, se a risada que querem, compram em latas na entrada? Como vou fazer rir se penso dia e noite em bombas e foguetes e produção em série e satisfação em massa? Como?
- Bom dia, Clown. Está um lindo dia hoje, não?
- Vá à merda!