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Alegoria

*João Gustavo

Gala can't see the waves
Cá estamos, novamente. E estar de novo, estar nesse sentido de brevidade, de que logo nos iremos mais uma vez, parece fluido, gelatinoso; esparramados pros lados, sem bordas, sem trincheiras, apenas expansão e dispersão. Cá estamos e você, mais uma vez, vai tentar sorrir daquele jeito, dizer as coisas daquela forma, empunhar as palavras num movimento mambembe, agarrar o sofá e, sem dúvida alguma, sair dançando atada a ele pela sala, nesse ritmo atípico todo próprio e todo prosa. Todo prosa. No espaço rarefeito de poesia e melodia, sobram espaços pra sua dança, inteira ela dedicada ao descomeço. 

“Uma semente de ilusão/Tem que morrer pra germinar/Plantar nalgum lugar/Ressuscitar no chão/Nossa semeadura/Quem poderá fazer/Aquele amor morrer/Nossa caminhadura” Gil 

A música daquela minissérie que você gostava, balbucia ela, ausente e azul. Sabe por que às vezes eu fico dessa cor? Finjo que não ouço, sempre mais fácil. A tática que ela emprega, nessas situações de desencaixe entre expectativa e reciprocidade, se faz presente: fica amarela. Ainda me lembro dos girassóis... e eu continuo olhando pra mesa, desatento às chamadas, aos convites feitos pelo diálogo. Esse girassol me lembrará sempre daquilo que poderíamos ter sido... ouço e imediatamente considero o comentário insosso e pouco perspicaz. Atira o girassol no meu rosto, sobe na mesa, arranca o lustre do teto e entra pelo buraco deixado em razão da retirada abrupta do objeto. 

“She said, ‘there is no reason’/‘And the truth is plain to see’/But I wandered through my playing cards/And would not let her be/One of sixteen vestal virgins/Who were leaving for the coast/And although my eyes were open/They might have just as well´ve been closed” Procol Harum 

Sorrimos como há muito não o fazíamos. Acho que é essa sua armação de óculos... deixou você com um ar de promessas impraticáveis. E isso é bom, perguntei, e não gostei de perguntar, dispensável. Bebe o líquido avermelhado e cospe longe o morango. Vocês pareciam plenos, eu de novo, intrometido, inoportuno, chutando a cadeira da frente quase a ponto de quebrá-la. Ela, socando a mesa com tamanha força que os copos chacoalhavam e ameaçavam se desfazer em estilhaços, apenas olhava pros meus óculos e deslizava a mão direita na minha coxa esquerda. Quebrei a cadeira num chute derradeiro, um copo foi ao chão. Nos beijamos com muita culpa. Poucas coisas nesse mundo são tão libidinosas quanto a culpa. Acariciava a armação e sussurrava só não conta pra ele, por favor, que fique entre nós dois e a arara. A arara passou rasante sobre nossas cabeças e pousou em cima do balcão do bar, lambendo a pata. 

“Não deu certo uma vez/E nunca mais vai dar/Depois do que me fez/Não era pra eu te amar/Ah, meu amor.../Que raiva que me dá” Amado Batista 

Muito sol lá fora... Tá quente mesmo. As árvores ainda mais verdes, os carros iluminados e ofuscantes. Acho que me envolvi, ela libera, de sobressalto, e começa a soluçar. Toma uma água, tá quente, sugiro, pensando no soluço. Bebe toda a água da garrafa sem desgrudar. Em resposta, descasquei uma laranja inteira em menos de cinco segundos. Foi o suficiente. Você faz isso pra me provocar, resmunga ela, arrancando a roupa. Permaneci quieto, sempre o melhor a fazer. E tirei a cueca, claro. Tô cansada dessa sua brincadeira, murmura, abrindo as pernas. Peraí, saio de dentro dela e fico em pé, apoiado na parede e com um ar desconfiado, que era o que me cabia, você chegou aqui dizendo que tinha se envolvido. Vestindo a calcinha e o sutiã em pouco mais de vinte segundos, ela retruca me envolvi, mas não vem ao caso, tá tudo muito passageiro, me envolver tá sendo sempre o de menos. E o que sobra, indago, distanciado e querendo pular no mar. Ela retira uma concha de praia da bolsa, a prende em seus cabelos com um grampo, joga um limão e um coco pra mim, consegui pegar o primeiro com mais facilidade que o segundo, confesso, e apenas diz sobra aquilo que eu quero. Pulou na água e foi se bronzear sob o sol inclemente, tal qual uma lagartixa, como diria a avó de alguém. 

“A quoi ça sert l’amour?/On raconte toujours/Des histoires insensées/A quoi ça sert d´aimer?/…/Tout ce qui maintenant/Te semblé déchirant/Demain, sera pour toi/Un souvenir de joie” Piaf 

O beijo carregou o salão todo. O aparato festivo pareceu ter sido montado somente pra que aquele encontro de línguas acontecesse. Você quer mesmo fazer isso, perguntei, e quis mesmo perguntar, era necessário. O baixar de olhos dela demonstrou seu instante pusilânime. Entendi que não estava ali mas desejava aquilo, e contra desejo não se pode brigar muito sob o risco de torná-lo gigantesco, feito massa de pão, diria a tia de alguém por aí. Rendeu-se porque sabia que aquela vontade, aquela curiosidade, aquela carga de fantasia possível que depositava sobre mim precisava ser saciada, desvendada e concretizada (respectivamente e com doses de gozo e suor). Sentimento é estranho, concluí ao lado dela, ambos nus num quarto de motel, e achei que falei uma parvalhice. Dessa vez foi ela quem silenciou. Compreendi seu momento e me distanciei. Espera, vamos ficar mais um pouco, ela pediu, séria, e eu nem tinha pensado em ir embora, só ia mijar. Tudo bem, foi o que acreditei ser o melhor a dizer. 

“Você tem que vir comigo/Em meu caminho/E talvez o meu caminho/Seja triste pra você/Os seus olhos tem que ser só dos meus olhos/E os seus braços o meu ninho/No silêncio de depois/E você tem de ser a estrela derradeira/Minha amiga e companheira/ No infinito de nós dois” Vinicius 

Agarrada ao sofá, dançava agora em passos cansados. A mesa continuava ali, espectadora impassível. Larga o sofá, eu disse, ela me olhou receosa. Pode deixar aí, não funciona mais. Ia voltar a arrancar o lustre quando estacou. Dessa vez vou embora pela janela. É mais seguro sair pela porta, indiquei, meio desinteressado. Se eu sair pela porta não volto mais. Não dei muita importância pra frase pretensamente ameaçadora. E isso não é uma ameaça, é uma verdade. Conferi importância àquelas palavras, enfim éramos duas pessoas integralmente presentes. A escolha é sua, falei, não, não é, ela retrucou. Arrancou da bolsa um guarda-sol aberto que prontamente foi levado pelo vento pra perto da porta de entrada. Vou abrir pra ele sair, eu disse, esperando a reação dela. Pode deixar, eu sei pra que lugar levá-lo. Abriu a porta e o objeto saiu flutuando pelas escadas. Olhei pra ela e pro corredor. A porta agora era de saída. Ainda é tempo, ela me fitou, sem choro, sem firulas. Será mesmo, perguntei, quase do outro lado do mundo. Um dia, lá na frente, a gente se entende, eu disse e não compreendi muito bem o que quis dizer. Estranho dizer coisas nas quais nem você acredita. Ela sorriu, sem qualquer convicção, e saiu porta afora. De vez. E eu só pude escutar, longe, o vendedor de sorvetes anunciando picolé de mamão. O barulho do salto dela já me era completamente escapável.

Voz e Meu

*João Gustavo

Me @ 02-JUL-2006
- Zoraide.

- Vai pôr esse?

- Vou. Achou bom?

- Péssimo.

Longa pausa.

- É. É ruim, sem dúvida.

- Péssimo. Repito e sentencio.

Cozinha. Lata de cerveja, só pra ele.

- Gosto de Sebastiana.

Volta pro sofá, primeiro gole.

- Imprime uma ideia de grandeza.

- Concordo. – gole – Mas não condiz. Há uma fraqueza irreprimível aqui.

- Não era na outra?

- Não.

- Hum.

Cozinha. Lata de cerveja também.

- Fica com esse. Um ponto fora da curva pode cair interessante no papel.

- Sei não... – gole – Tem essa história da ilusão primeira.

- Facilmente desfeita se houver convencimento, meu bem. – gole.

- Você não tinha prometido a si mesma que deixaria o álcool?

- Não diz a coisa desse jeito. Pareceu falar pra uma alcoólatra.

Longa pausa.

- Emprestei seu cd do Caetano pro Laurinho.

- Caramba, Ju... Já falei pra você...

- O seu preferido. O do Tempo de Estio.

- .... – gole, gole.

- Não faz essa cara. O menino devolve. Devolve mesmo, sério.

- ...

- Fiz ele prometer.

Pausa. E gole.

- Du, te falei que encontrei a Marina?

- Não.

- Encontrei. Ela engordou um pouco, mas ainda é bonita.

- “Ainda é”...

- Que foi?

- Sei lá. Engraçado o “ainda”. Melhor um “tava”. Sem é. Sem continuação.

- Nunca achei ela feia.

- Eu sei.

- Como?

- Sempre soube.

- Nunca te falei nada.

- Desnecessário.

Pausa. E goles, s, s, ... O conteúdo acaba.

- Ai, que chato isso.

- ...

- Certas coisas, meu queridinho, devem ficar em silêncio.

- Eu sei. Desculpa.

Pausa. Lata vazia indo pro chão.

- O Laurinho disse que prefere o Edu Lobo.

- Numa comparação feita com quem?

- Com o Caetano.

- E o cd foi emprestado por quê?

- Porque ele queria ouvir.

- Sei.

- Verdade. Emprestei porque ele pediu.

Rodopio da lata feito com os dedos.

- Ela ainda gosta de você.

- ...

- Não há disfarce, eu vejo. Não nos olhos. Nem nos gestos. Vejo na boca.

- ...

- A boca dela quando fala o seu nome, imantado à saliva.

- ...

- Sai melífluo, sabe? E-du-ar-do. Causa uma interrupção na frase. Teu nome quebra a estrutura, o período, e irrompe, derretendo as sílabas nos lábios dela. E-du-ar-do...

-....

- A boca sai do tom e se agarra ao nome, aquosa. Chega a ser bonito.

Pausa. Longa.

- Foi o Edu Lobo quem compôs Tarde em Itapuã com o Vinicius?

- Não.

- Acho que não sei muita coisa sobre ele.

Pausa. Breve.

- Você transou com ela no banheiro do apê do Laurinho?

- ...

- É uma pergunta que deve ser respondida.

- Quem disse?

- A Rê.

Intervalo pra uma coçada na perna.

- Quase na mesma posição que usamos sábado passado.

- “Usamos”... Soa estranho.

Bocejo inoportuno, daqueles que duram pouco, mas que imprimem um efeito de indolência que se prolonga num tempo superior à mecânica do movimento.

- Ela parece mais divertida.

- Sossega, Juliana.

- Verdade. Dessas que sempre são associadas a uma tarde de verão.

- ...

- E ainda gosta de você.

- ...

- Até o Laurinho prefere ela. Tão nítido...

- E esse “até” tem fundamento?

- Porque a Rê também.

- ...

- Talvez você.

Pausa. Razoavelmente breve. Ligeiramente longa.

- Põe Ruth.

Espaçamento.

- Tem a ver.

- Fico feliz por ter gostado.

- Ruth acrescenta.

- E é um nome curto, passa rápido pela cabeça. Mas, ainda assim, não deixa de se prolongar num eco esquisito, pra dentro.

Nova pausa. Atemporal. Apenas pausa.

- Quem foi que você encontrou mesmo?

- Hum? Tá falando da Marina?

- ...

- Que foi?

Intervalo de segundos.

- Na tua boca vira um monossílabo.

Rodopiou a lata. E lá fora um pai empurrava o filho que aprendia a andar de bicicleta.

Esquadrinhar: verbo ser


Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim 
A noite nunca tem fim 
Por que que a gente é assim?
Frejat/Cazuza 

Derretendo... O triângulo desenhado pelas Avenidas Euclides da Cunha, Humaitá e Luiz Teixeira Mendes serve de gênese. Inflado de casas antigas e de alguns poucos prédios escassos em altura, igualmente abriga, numa contraposição inexplicavelmente branda, o que há de mais festejado no que diz respeito ao bem morar. Residem nessa delimitação seus mais antigos moradores – constatação que salta aos olhos. Se o irmanarmos com o retângulo formado pelas Avenidas Humaitá e Nóbrega, teremos demarcado o espaço menos solicitado do bairro – afinal, trata-se de uma área majoritariamente residencial (a exceção fica por conta dos barzinhos perfilados ao longo da primeira via mencionada). No duelo entre prédios e casas, quem sinaliza poder são elas, numa gritante contradição com relação às regiões mais centrais da cidade. A mescla entre edificações modestas e uma maioria suntuosa não se mostra tão contundente assim, ainda que de fácil percepção. Talvez porque seja esse desnível ofuscado pelo arremate fulgurante dessa porção municipal: o clube, o tradicionalíssimo clube da sociedade de dantes e de atuantes, com seus sempiternos muros brancos. 

Encastelado num quadrilátero reluzente, mantém-se incólume dentro de sua estirpe, sendo compartilhada esta com o bairro imediatamente vizinho, a oeste. Seu outro ponto de origem, a Rua Luiz Gama, assinalada discretamente no traço viário para aquele que vem do centro, imprime o tom da localidade: a intensa oscilação entre o velho e o novo. Nesta Rua (e nas outras que a ela se entrelaçam), concentra-se a lufada de contemporaneidade da região, notadamente constituída por altos edifícios residenciais. Todavia, a antiguidade de algumas construções comparada às mais recentes não agrega a diferenciação óbvia entre passado vencido e presente convencido – unem-se no idêntico fluxo de valorização imobiliária perene e na composição homogênea de seus habitantes (em praticamente todos os quesitos, inclusive o fisionômico; paraíso dos profissionais liberais). 

Circundado pelos dois blocos iniciais, seu mais coruscante adereço: a Praça Manoel Ribas. Ponto de convergência dos badalados bares e casas noturnas do município (trava notável e novel concorrência com a extensão Avenida JK/Avenida Laguna, mas ainda mantém vantagem), nas noites de sexta e de sábado funciona como carrossel para automóveis que orbitam ao seu redor, cujos ocupantes escolhem, na ampla vitrine boemia disposta em satélite no seu entorno, o lugar certo para “curtir a balada”. A Praça é responsável por operar, ainda, uma das transmutações mais famosas da área central: a Avenida Tiradentes, ao atingi-la, subdivide-se, formando, do lado de lá, as Avenidas Curitiba e Rio Branco. E alguma coisa muda junto – há um ganho em amplidão e austeridade. Seriedade esta que termina corroborada pelo número de clínicas médicas e laboratórios que deitam seus alicerces e estruturas sobre o ambiente silencioso e imperialmente verde-escuro que ali encontram. Ambiente igualmente perfeito para uma miríade de residências amplas e bem custeadas – retornamos ao predomínio das casas. 

Na geometria própria do lugar, Hugo mora no retângulo. Filho de advogado conceituado (adjetivo que faz muita diferença atualmente) e de mãe comunicativa e olorosa, possui, por introjeção (in)voluntária – o que, na cidade, é sempre difícil de precisar –, todos os atavismos que se manifestam naqueles que ali nascem, ativados pelos seguintes elementos (dentre outros): colégio particular não muito distante, tardes de sábado e domingo no clube, sentimento de pertencimento à região, vizinhos belamente auscultadores. Formou-se veterinário e já possui clínica aberta, ali perto, dois sócios, sendo um deles seu primo. Autossuficiência a toda prova. 

O encontro dos antigos colegas de classe aconteceu por iniciativa de uma amiga que, à época, lhe era próxima – lá se iam quase dez anos do término do ensino médio. Consultou outros dois, com os quais manteve o companheirismo de raízes colegiais, e decidiram comparecer. Noite de sexta, na casa da própria, no bairro mesmo (atentemo-nos, pois, à geometria – quadrado verde-escuro próximo à Rio Branco). Vinte e oito convivas. Estacionou o carro, atravessou o portão e sentou-se no jardim, nos fundos. Dois amigos, um que já fora muito amigo, dois grandes colegas; formada a Roda. Uísque, cerveja, vodca, gelo, gelo, copos e vidros. Gelo em pequeninos cubos simétricos e transparentes. Cubinho gelado que, ao cair da mão, escorregado, ninguém viu – mas teve aquele que chutou pra longe, fazendo-o deslizar sobre a parte ladrilhada do espaço. E o gelo foi derreter pra lá, distante. 

A obrigatoriedade do sorriso, mais propriamente do riso, vingava as expectativas. A exposição dos dentes saciava o desejo de conforto, e este não demorou nada pra chegar – pelo menos ali, na Roda. O exercício insidioso do reconhecimento, onde cada qual empunhava um espelho e buscava, nas expressões alheias, encontrar o seu reflexo. Hugo sabia o que os outros queriam ouvir, tinha plena consciência sobre aquilo que exigiam ouvir, e, sobretudo, o que não tolerariam escutar. Falava, então – era a única imposição a ser colocada sob o crivo coletivo, porque tudo o mais já fora pré-julgado através de olhares de azougues debruçados sobre o vestuário. E o gelo derretia, pra lá. 

Pulavam carros, dançavam viagens, urinavam sucessos, reclamavam bebidas, sorriam mulheres, piscavam cetros. Borbulhas de uísque, bolhas de cerveja, gelo, gelo. Gelo que, longe, fez-se água, uma pocinha de nada. Risos e dentes e olhares e sorrisos. Estava tudo ali, tudo como deveria sempre ser, nenhuma alteraçãozinha, e a Roda ficou radiante – Hugo achou que estava numa opereta, riu baixo disfarçando uma tosse desgarrada. 

Vieram as meninas, entraram na valsa, giravam, rodopiavam, sorriam, mediam, riam, mediam – a seletividade dos ouvidos e da consideração. Neste momento as divisões eram já não somente óbvias, mas irrefutáveis. Hugo percebia isso e não desgostava – afinal, estava na Roda. Sentia uma espécie de pena dos demais, estavam sabe-se lá onde. Na verdade, não sabia muito bem o que era estar aonde eles estavam, pois tudo ali era, salutarmente, imutável, como devem ser as boas aristocracias. 

Houve o momento do registro. Sobrenome F pegou sua câmera (avançadíssima, ultíssima geração) e pediu para que Aquele Ali tirasse uma foto deles. Hugo reparou na expressão do rapaz (do qual ele guardava poucas lembranças), ligeiramente encabulado, ao pegar a máquina e apontá-la pra Roda. O rapaz era a própria encarnação da discrepância, talvez como nunca jamais haverá igual. Os olhares que miravam o objeto que ele tinha nas mãos eram tais; os olhos do fotógrafo ocasional ao observar os olhares alheios no visor eram brutais, de tão banidos. Hugo, nesse momento, teve pena – e não gostou de senti-la, até perdeu a graça. A foto, porém, não saía de jeito nenhum. Sobrenome C, levemente alcoolizado e expansivo, apontou pro sujeito e disparou: alguém bate essa foto aí, porque pobre não sabe mexer em nada mesmo. Não houve silêncio algum depois dessas palavras. Aquele Ali sorriu bobamente, bobamente, passou o aparelho pra primeira mão que avistou e – Hugo viu bem – pegou um cubinho gelado e pôs na boca, num gesto bobo, bobo. Hugo teve raiva dele. 

Outro Ali tirou a foto e pronto. Houve dispersão, alguns tinham compromissos e teve início a debandada – as magnéticas Humaitá e adjacências da Praça Manoel Ribas, ali pertinho, clamavam. Hugo combinava alguma coisa com alguns quando Ela L, antiga paixonite, deu a entender que o caminho era outro. Noite ganha. Foram para o carro dele, entraram, sentaram, sorriram, riram. Hugo, antes mesmo de acionar o veículo, viu Aquele Ali entrar no seu carro, sozinho. Ao olhar para o semblante de Ela L, viu que os olhos dela denunciavam o mais vil dos desprezos. Inho, carro, Inho. Ele zangou-se. Ela deixou de olhar pro Inho, Inho, se concentrou em pegar um espelhinho dentro da sua bolsa. Aquele Ali deu a partida no automóvel e foi embora. E o mundo, dentro daquele carro, pareceu voltar ao seu estado natural e correto, porque Ela L voltara a mirar-se no seu espelho. Hugo sentiu raiva dela e do espelhinho. Ligou o veículo e andou apenas uma quadra, onde o estacionou sob uma árvore numa rua escura e fez sexo displicentemente. Não iria levá-la pra motel algum. Ela L estranhou, mas cedeu. E no instante mesmo em que consumavam o ato, a dona da casa passou um paninho na pocinha de nada formada pelo gelo derretido no piso ladrilhado. A Zona 4, enfim, pôde voltar ao normal.

À Beira


Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Nelson Cavaquinho 

Foto de Raoni Wonrath Arroyo
A Avenida Colombo, ilustrada pelos pneus dos caminhões, funciona como divisora das porções obviamente incomunicáveis do bairro. Na banda que se esparrama pelas laterais da renomada instituição de ensino superior funciona um micro(?)cosmo flagrantemente peculiar dentro das configurações municipais – onde, ultimamente, tem se desenvolvido uma estranha realidade que imiscui estudantesforasteiros, vereadores e viaturas policiais, numa crescente e inexpugnável rede de insensatez. Mas este não é o cenário da ocasião – não nos prolonguemos, pois, em assuntos belicosos. 

Assim como igualmente não se fala, aqui, da outra parte naturalmente idiossincrática dessa região da cidade: aquela que perambula, numa mescla interessante entre a correria diurna e o neo-sofisticado burburinho notívago, entre as Avenidas Duque de Caxias e Paraná. Portanto, não teremos mencionados cenários caros (e queridos) aos moradores dessa redondeza, sendo as imobiliárias e o Estádio Willie Davids, ao redor do qual há uma intensa atividade física lastreada nas caminhadas e olhadelas nas caminhantes, os mais indispensáveis. Podemos, ainda, num exercício de extensão embasado na antropologia, na sócio-economia e na filologia (!), empurrarmos a margem limítrofe desse reduto para as franjas do lado de lá da Vila Olímpica e serpentearmos, conclusivamente, até o início da Prudente de Morais. Contudo, outro é o nosso cenário. 

O último fragmento recortado da Zona 07, no qual se passa a célere história trazida à baila, situa-se entre as Avenidas São Paulo e Pedro Taques. O bairro, neste ponto, além de concentrar boa parte da população da cidade que tem ascendência japonesa, é mais silencioso e modesto, num misto de sisudez anacrônica e sensação de apequenamento bem atual – afinal, o Novo Centro, que espraia-se de soslaio na diagonal sudoeste, deixa-o com um certo ar de somenos. Seus prédios levemente antigos e razoavelmente baixos (com exceções que sacramentam a regra) convivem harmoniosamente com casas entre antigas e recém-construídas (inescapavelmente baixas – apesar dos sobrados, é claro), tendo como residentes um número inestimável de aposentados e um ainda maior contingente de pessoas da classe média – mas daquela classe média aguerrida que precisa correr atrás (seja da casa própria, do carro financiado, da escola particular para o filho, do aluguel – ou tudo isso junto). Eis o ambiente: é aqui que mora Luís. 

Luís, filho de dono falecido de uma mercearia da Tuiuti e de costureira aposentada ainda na ativa, formado administrador, apaixonado pelo Santos tal qual o pai. Casou-se com Adriana, olhos castanhos vívidos, fisioterapeuta, mais fala do que escuta por puro hábito de criação. Casaram-se porque Luís, que a pedira em namoro logo após sair de um conturbado relacionamento em que descobriu-se traído, achara aquela a hora – oito meses de namoro e casou, pronto. A mãe não gostou muito, conhecia melhor o filho que o próprio e aplicava maior lucidez à situação – não teve jeito. Adriana casou porque vira em Luís um sujeito interessante e pouco comum – uma característica complementava a outra, mas isso não vem ao caso –, e, por causa disso, acreditou que ele seria um homem próspero e bom pai, uma vez que se preocupava com certas coisas que dificilmente apeteceriam almas menos sensíveis. 

Em seis meses de casados perceberam-se dentro de um grande erro. Adriana desgostou do estilo do marido – onde antes via autenticidade, agora enxergava teimosia burra; se anteriormente visualizava-o numa introspecção constante, transmutara-se esta em pasmaceira; por detrás da vitrine que insinuava grandiosidade espiritual, percebera o engodo que disfarçava a inabilidade para a vida prática. Luís não ficou atrás e decepcionou-se amargamente ante a ausência de sintonia com a esposa, que nunca demonstrava satisfação, falava e gesticulava em demasia e não suportava vê-lo no sofá nem mesmo num domingo à tarde para ver o futebol. A conversa entre eles esgotava-se facilmente e os assuntos eram quase sempre os mesmos. 

Apesar do descompasso, tiveram um filho. Mateus já contava seus cinco anos. Fisicamente era mais parecido com o pai, mas sua constituição interior não era assemelhada a nenhum dos genitores. Era dado à pirraça, cheio de querer impor a sua vontade e do seu jeito, amante da contrariedade quando era ele quem a punha em prática – aos cinco anos. O pai tentou fazê-lo torcedor do Santos, não houve como – tornara-se um palmeirense convicto por causa de um tio materno, mas teria feito essa opção ainda que o tal tio não existisse, porque era esse o destino (e ponto). 

O problema – mesmo – era dinheiro. Luís não ganhava o bastante ou tão bem quanto gostaria a esposa. Ele, assim como ela, não achava sua remuneração lá muito atraente, mas não a colocava numa embalagem tão indecorosa como julgava Adriana. Os dois tinham rendimentos quase iguais – com mínima vantagem pra ala masculina. O que a exasperava era não ver no marido qualquer resquício de esforço (ou de iniciativa, pra ficarmos num termo recorrente em suas frases) no sentido de efetivar mudanças, as quais, positivas que seriam, propiciariam a troca do carro, a compra de um apartamento (e a consequente saída do inquilinato) e outras coisas mais que sinalizariam estabilidade e planejamento financeiro. Luís até concordava que viviam com os olhos postos no caderno de contas a pagar, mas não aceitava o argumento de que levavam uma vida superlativamente apertada como lhe pintava a esposa – e brigavam, com ocasionais alterações no grau de entonação das vozes. 

Houve, então, o sábado à tarde em que Luís decidiu levar o filho à praça que circunvolve a Igreja Divino Espírito Santo, ali perto, onde há um campinho de futebol. Alguns meninos, a maioria formada por habitantes do bairro e uns poucos oriundos do avizinhado Jardim Alvorada, já estavam lá, afoitos atrás da bola. Mateus esperneou que queria jogar também, mesmo com o pai advertindo que ele deveria esperar, pois só moleques maiores estavam na partida. Não houve jeito – o menino fez birra feia e acabou convencendo não apenas o pai, mas também os demais jogadores de que deveria entrar na brincadeira. O problema é que, apesar de seu poder de persuasão, só tinha cinco anos, e ao chocar-se, atabalhoado, contra um garoto de oito, os poucos três anos de vantagem etária que agigantavam seu adversário provaram-se suficientemente decisivos na distribuição dos prejuízos da trombada. Mateus caiu no chão, ralou o joelho e quase bateu a cabeça. O pai veio acudi-lo, enquanto o menino mais velho apenas pedia desculpas e Luís dizia que não precisava, que o acidentado fora avisado dos perigos de jogar bola com crianças mais velhas. Foi nesse instante, quando o pai se abaixou diante do filho e viu os pequeninos rasgos paralelos e vermelhos no joelho dele, que o menino, segurando o choro, apenas pronunciou, tremendo o queixo: seu medíocre. 

Naquela noite, enquanto Mateus dormia no quarto ao lado com band-aid adesivado na região machucada, Luís deitou-se ainda mais calado que o habitual à esquerda de Adriana. Virou-se para a esposa e pensou em narrar o ocorrido. Desistiu depois que a mulher, levando uma das mãos ao rosto, disse que a semana fora muito estafante, precisava dormir. Ao contrário dela, Luís não dormiu. Passeou os olhos pelo quarto escuro e por dentro de si mesmo horas a fio. E ali, naquele apartamento da terceira margem da Zona 07, um homem passou a noite toda querendo não chorar.

Banais tardes verdolengas


Vintage
Era domingo e por isso mesmo tinha churrasco. Dessa vez não na casa da avó, como de hábito, mas na casa do primo (que na verdade era do tio, mas isso pouco importava). Fazia calor, era novembro, o dia estava limpo. Houve brincadeira de correr, uma vez que esse exercício era a tônica naqueles tempos de pega-pega. Depois, já exaustos, pensávamos no que fazer pra ocupar o tempo, o sagrado tempo das tardes de domingo, tão efêmero, tão solar, tão sequioso de preenchimento. Nessa ocasião, o primo com idade mais próxima enrolou demais perto da churrasqueira, o que foi estopim para a mais aguda ansiedade e para uma sucessão de ataques de impaciência. O primo mais velho fez, então, um convite insólito – fita nova. Arrancado a contragosto do mal-estar generalizado causado pela demora alheia, abri a porta do carro e me sentei no banco do passageiro. O primo, no banco do motorista, ofereceu o produto às escondidas, mesmo sem mais ninguém. Pediu sigilo e deu uma risada meio besta. O desenho daqueles seios expostos justificou o riso inédito do primo e me causou a mesma sensação de clandestinidade que, até então, apenas ele sustentava. Era imperioso resguardar aquela figura. O toca-fitas foi devidamente ligado e o som inundou o interior do veículo, tomando de assalto ouvidos que se mostraram ávidos por descobrir o valor nuclear daquele momento sigiloso e arriscado (peitos, peitos...). O primo não largava um sorriso que rasgava pro canto, vez ou outra deixando escapar um barulho incontido de manifesta aprovação. Era tudo tão diferente... E na idêntica proporção perceptível da desigualdade experimentada entre o sentido da corrida no quintal e o que estava engendrado naquela situação, crescia o desconforto ao mesmo tempo cruel e fabuloso de constatar que havia uma parede caindo, que os significados inacessíveis das letras encontravam perfeita descrição na maliciosa expressão do primo. Saboreamos aquela sonoridade sem dizer nada. E muita coisa mudou.

*

Era domingo e por isso mesmo tinha churrasco. Dessa vez não na casa da avó, como de costume, mas no salão de festas do condomínio. Passado o momento da alimentação, onde a carne entrava no pão que recebia o tomate e enchia o copo de guaraná que comia o pão e tomava a bebida, era hora de jogar bola. As mães, sempre elas, gritavam que era preciso esperar a digestão, mas isso não era levado em conta e elas logo voltavam a dar risada. Os pais, ao lado da churrasqueira e da mesa de truco e das garrafas de cerveja, estavam cegos praquilo que se passava a mais de dois metros de distância. Liberdade, oras. O menino enchia o saco pra entrar no time, mas já estava completo e ninguém manifestava ímpeto para a deserção. A torção no pé nem foi tão grave, mais um mau jeito, mas a costela tava doendo embaixo e devia ser falta de água, correr tava difícil. O refrigerante desceu veloz pela garganta, a tempo de voltar pra quadra e tentar impedir que o moleque pegasse vaga – mas era tarde e o espirrado já estava lá, com a bola nos pés, olhando de canto pra ver se ia ter que brigar pela oportunidade conquistada à sorrelfa. Quieto no canto, resignado por conta do incômodo sob a costela, a vizinha sentenciou que era rim e disse que só água resolvia. Não tinha água ali perto, só tubaína, e a indicação dela soou absurda. Afirmou que o caso poderia evoluir e se transformar em algo grave se não tratado o mais breve possível. Iria ao apartamento dela pegar coisa e fui junto porque era urgente. A água estava gelada e ela ligou o ventilador. Fim de janeiro muito quente. Ligou a tevê e pediu pra esperar. Adoro essa música eles são demais, foi o que ela pronunciou ao voltar nua pelo corredor e estancar ao lado do sofá. Estavam ali os peitos, que diante daquele negro triângulo invertido impresso pouco abaixo do umbigo eram nada. A mulher perde um peito numa festa não é um sarro, soltou sem constrangimento. O mais engraçado é essa imitação de português, e riu despreocupada. A visão opulenta daquela nudez era imensamente desbravadora, e os olhos devem ter ficado do tamanho do mundo, assim como a vibração sanguínea no membro que respondia àquela exposição. Esperou a música terminar e o apresentador começar a falar pra voltar lá pra dentro e retornar vestida. Um longo beijo na bochecha. Vai ver muitas dessas na vida menino, sibilou cá no ouvido com um sorrisinho. De volta pro jogo de bola, entrei na quadra e expulsei o invasor do campo porque a posição era minha. E eu tinha muito, muito mais a fazer do que ele, que nunca tinha visto nada de bom.    

*

Era domingo e por isso mesmo tinha churrasco. Dessa vez na casa da avó, como sempre. Futebol no  quintal com os primos, gol só de um lado. Tava cada vez pior no jogo de bola, difícil acompanhar. O primo mais velho dominava, o mais novo meio distraído e o intermediário contando acontecidos – tudo perna-de-pau. O pai resolveu ir embora mais cedo e a decisão foi acatada sem maiores contestações, os primos devem ter entendido, talvez quisessem fazer o mesmo. O pai questionou sobre a tevê e descobriu que ela ainda era novidade naquele dia. Ficou num silêncio meio barulhento, de quem tem algo meio besta a esconder. Dentro do apartamento, a televisão foi acionada mal a porta foi aberta. A imagem de pedaços brancos inseridos numa paisagem predominantemente verde era inquietante e denunciava algo estranho. O apresentador repetiu e repetiu e repetiu e não parou mais de falar durante toda aquela tarde. Os pedaços brancos ganharam o nome de destroços, as árvores conquistaram altitude e os envolvidos adquiriram identidade. A trilha incessante da música preferida não enjoava nem um pouco, explorada à exaustão até o fim da noite. Que viessem minas, mil minas, com cabelos bacanas, com seus peitos e seus triângulos invertidos no encontro das coxas, em brasílias, chevetes ou corcéis, verdes, azuis ou amarelos. O que restava de toda aquela malícia, principiada no sorriso rasgado pro canto numa tarde quente de domingo, era a certeza da passagem. A constatação imperativa da mutabilidade. O experimentar de um rito. A lágrima, despejada com a última salinidade da infância, caiu no chão e demorou a secar. Quando o menino ergueu a fronte e suspirou fundo, vivenciou o momento. Havia crescido.

Contemplação


Há três minutos - por aí - falara pela última vez; e isso era estranhamente inusitado. Nunca era assim - a verborragia, a prolixidade, ..., onde? Após a conclusão do ato (e isso fazia parte do seu ritual), deixava sempre aberta a torrente irrefreável de observações. Não naquele fim de tarde - 18h e minutos quaisquer, hora de verão, Avenida Cerro Azul (pra baixo um pouco daquela praça que margeia a JK, num prédio alto). Sentou-se na cama, diante do espelho, e passou, durante todos aqueles 180 segundos, as duas mãos em seu cabelo. 

- Minha filha disse que eu devo cortar. Você concorda? 

Olhei-a um tanto quanto surpreendido; aquele inédito silêncio fizera-me (seria possível?!) esquecê-la. Pigarreei, recobrando a voz. 

- Cortar...? 

- O cabelo. Devo? 

Preferi observá-la – resposta pra quê? Estava imersa além do habitual. Onde? 

- Ela não entende nada e quer me dar conselhos. Só pra você ter uma ideia: sabe como ela foi pra faculdade hoje? – piscou os olhos de uma maneira elétrica – Horrível. Simplesmente feia. E ainda quer que eu a escute. Não corto e pronto. 

Ajeitei-me buscando uma posição confortável. O colchão dela era excessivamente macio - circunstância percebida nas duas vezes anteriores, mas que incomodou-me nesta terceira. 

- Na idade dela eu já estava casada. – enfim liberou as mãos daquele gestual ininterrupto vinculado à escovação capilar. 

Pôs-se ao meu lado, pegou minha mão esquerda e a pousou em seu seio direito. 

- Sabia que eu tenho maior sensibilidade neste aqui? Sempre foi assim. 

Deixei a minha mão sob a dela, em contato com um mamilo levemente intumescido. Seu rosto sofreu uma oscilação abrupta na expressão - isso muito me espantava nela; suas feições não variavam de forma gradativa, tênue, sutil – eram mudanças bruscas, violentas, como se alguém jogasse um balde com água fria sobre o palco e surpreendesse a atriz. Ah, o despreparo... 

- Tive um namoradinho, faz pouco tempo, que falava que isso é culpa do silicone, que teria me extirpado o peito esquerdo. Afirmo que não; sempre foi assim. - e me olhou com uns olhos bem abertos, sustentando uma máscara contrariada. 

Retirou a minha mão de seu seio e a colocou aonde a tinha encontrado - porém, como que atingida por uma corrente insondável de componentes químicos, tornou a pegá-la e, desta vez, a pousou sobre a minha coxa esquerda, diferentemente do lugar original; suspirou um tanto quanto satisfeita. Levantou-se e aproximou-se do imenso espelho afixado na parede frontal à cama; virou-se de costas e observou suas nádegas. 

- Vou ter de trocar a minha série de exercícios. Olhe só quanta flacidez... – e imediatamente tornou a vista pra mim, aguardando meu posicionamento. 

Preferi redirecionar os meus olhos para a sua barriga. 

- Tenho feito muito abdominal. – disse ela, prontamente, em frenética conexão à minha condução visual. 

Voltou à cama. Olhou pro meu nariz (sim, pro meu nariz). 

- Tem muita mulher na academia se separando, também. Dou o maior apoio sempre que posso. Falo que é a melhor atitude a se tomar. 

Mordiscou a lateral da unha de um dos dedos da mão esquerda. 

- Uma lá está separada há um mês. Aconselhei-a muito pra que tomasse coragem. Mas, pelo que percebo, está arrependida. Fazer o quê? Tem mulher que não sabe viver. 

Puxou o travesseiro, arrumou o cabelo, coçou o pulso da mão direita com os dedos da esquerda, deitou a cabeça. 

- Fui numa loja ontem e a vendedora me elogiou, disse que tem muita menininha por aí que não tem a metade da minha forma física. 

Novamente a mudança vertiginosa de expressão facial. O balde despejado, a inabilidade, a ausência de linearidade, o percalço - simples como a existência das mudanças -; mas ela rejeita - e a plasticidade?!. O assombro. 

- Ela diz que sou ridícula. Inveja. A desejada sou eu. 

Enlaçou os dedos de sua mão na mesma mão que havia deixado sobre a minha coxa. Conduziu-a, desta vez, para o seu pescoço, para a sua nuca, para debaixo dos seus cabelos. Massageou-se utilizando-se de um tecido epitelial alheio - e isso a fez abrir um grande sorriso, expondo todos os seus dentes artificialmente brancos. 

- É bom, não é? – questionou-me (questionou-me?!). 

Ficamos nesse quadro por algum tempo, até ela decidir parar. Devolveu a mão alheia ao seu dono, recolheu o sorriso, trocou de máscara (abrupta, abrupta...), voltou pro espelho. Acompanhei tais movimentos com algum cansaço. “Alguém a afaste do rio! Irá morrer afogada!” Dedicava-se, agora, a redesenhar o nariz com a ponta dos dedos. Depois, como que atormentada por um barulho que apenas ela pudesse captar, virou-se bruscamente de costas e deitou a mão espalmada sobre a banda direita das nádegas. 

- Tanta dedicação e ainda tenho de conviver com isso... 

Bocejei - e sequer fiz questão de disfarçar. Levantei-me, vesti a cueca, a calça, a camisa (presente da namorada), o sapato. Entretida com seu reflexo, demonstrava-se tão absorta que receei despertá-la. 

- Vou indo. – sentenciei. 

A água fria na cabeça, o desequilibrar, as gargalhadas da plateia, a auto-comiseração, o choro, o vazio. 

- Calma. Não quero que você vá. 

Pegou uma toalha (mais alaranjada impossível) e a enrolou em seu corpo. Veio em minha direção e tapou meus lábios com seu dedo indicador direito. 

- Não quero. – repetiu, peremptória. 

Ficamos ali, com os rostos muito próximos, durante um longo tempo (e quando dois rostos estão assim, em vias de se tocar, até mesmo vinte segundos adquirem amplitude indefinível, tamanha é a quantidade exposta de informações - por vezes, à revelia). Ao cabo deste ato - o mais importante, talvez - as cortinas se fecharam e ela entrou no banheiro do quarto. Não entendi se sinalizava, com esse súbito recolhimento, uma autorização tácita à minha retirada ou se almejava submergir para, em seguida, empreender um reaparecimento triunfal. Na dúvida, optei pela espera. 

- Você não entende. – foi o que ela pronunciou ao sair do banheiro, sem a toalha e com uma expressão insípida. 

- E também não critico. – falei, com algum desprendimento calculado. 

Tornou a passar as mãos no cabelo e a coçar o pulso. 

- Antes a pena à indiferença. – disse, caminhando em minha direção e estacando, logo em seguida, a uma distância de passo e meio. 

- Nem tudo pode ser controlado. – ao ouvir isso, confrangeu o rosto. 

Uma leve risada foi-me incontrolável – e nesse momento ela entendeu tudo, assim como eu. O balde, a água fria, a correria, a camareira acode a mulher prostrada diante de uma plateia que ri de forma histérica, que atira tomates, que vai embora como se nada tivesse acontecido, e a camareira some, e a água evapora logo, e a cortina cai, e as portas se abrem, e o teto se abre, e está noite, e está frio, e está chovendo, e a moça chora, a moça grita, a moça ri, a moça dorme. 

Atirou-se na cama com o rosto virado pra parede. Era a deixa. Fui embora pra nunca mais voltar.

Entre diálogos

* Texto de João Gustavo

Ficaram por alguns instantes calados e imóveis, como que entregues a alguma espécie de estafa não apenas silenciosa, mas imperativa. Ele foi o primeiro a expressar reação – levantou-se e urinou no banheiro da suíte; ela permaneceu inerte, com o olhar voltado para o espelho afixado no teto do quarto, observando-se nua e com as pernas entreabertas. 

Encostado à porta do lavabo, fitou-a com uma expressão confusa, misto de volúpia satisfeita e vergonha inoportunamente tardia. Foi aí que os olhares se encontraram e ela, que esboçou um meio sorriso, pediu: 

- Deita aqui, ao meu lado. 

Obedecendo ao chamado, voltou para a cama e esperou que ela se aproximasse. A moça aconchegou-se em sua região peitoral, não sem alguma reticência no exercício desse movimento. 

- Você gostou? – ela perguntou, de forma quase sussurrada. 

Depois de ensaiar alguma palavra, passou a mão esquerda sobre o corpo dela. 

- Muito bom. 

Beijou levemente os lábios dele e tornou à posição anterior. 

- Você acha estranho esse tipo de pergunta? 

Coçou a barba que estava por crescer e murmurou: 

- Não. 

- Hum. 

Acariciou as costas da moça e viu-a fechar os olhos. 

- Muito bom. – ela proferiu, com olhos semicerrados. 

Encostaram os lábios em um estalinho; em seguida, ele se levantou e vestiu a cueca; apenas o observou. 

- Vocês são muito parecidos. 

- Quem? – ele perguntou, um tanto automaticamente, e verificou a hora no relógio de pulso posto sobre uma mesinha. 

- Você e o Fábio. 

O rapaz voltou a deitar-se ao lado dela. 

- Fisicamente somos bem diferentes. 

- Não me refiro à estética. 

Ficaram novamente emudecidos. 

- Você ainda está namorando? 

- Aham. – ele respondeu, sem desviar o olhar de onde o havia pousado, em um ponto entre a porta do quarto e um espelho. 

Aproximou-se do rapaz e tocou a perna dele, em uma região próxima à virilha. 

- Você já o havia traído? – indagou-a, sem fitá-la. 

Leve demora para a resposta. 

- Não. Essa é a primeira vez. – recolheu a mão que estava pousada sobre a coxa esquerda do rapaz – Na verdade, é a primeira vez que traio um namorado. 

Tornou a coçar a barba e a observar o corpo nu deitado ao seu lado. 

- Acho que devemos ir. 

- Você tem algum compromisso marcado? – questionou-o. 

- Não. Falo por você. 

- Por mim? 

- Não quero forçar nada. 

- Ninguém está me forçando a nada. 

Novamente a ausência de palavras. Ela se levantou, vestiu a calcinha, o sutiã e sentou-se perto dele. 

- É tão estranho... 

- O quê? – ele questionou, pondo-se em pé e vestindo a calça. 

- Sei lá. Acho que não estou muito bem. 

Pôs a camiseta. 

- Algo que eu possa fazer? 

- Essa situação é muito esquisita. 

- Talvez porque você nunca a tenha praticado antes. 

Colocou o vestido e buscou um pente em sua bolsa. 

- Você sempre trai sua namorada? 

- Namoramos há poucos meses. Não tenho certeza se é um relacionamento no qual eu possa apostar alto. 

Ele já a esperava, sentado na cama, completamente vestido, enquanto ela penteava os cabelos diante de um espelho. 

- Estou estranha, não estou? 

- Talvez esteja tensa. Relaxa. Ninguém vai descobrir nada. Fica entre nós dois. 

- O problema não é exatamente é esse. É mais indefinível. 

- Como assim? 

- Uma sensação inconclusa. Indefinição não é exatamente a palavra... mas, digamos, sensação de ausência. Você me entende? 

- Essa sensação está relacionada a mim? 

- Não. Nada com você. É comigo. 

- Decorrência da sua primeira traição. Tenho quase certeza. Talvez seja culpa. 

- Eis a gravidade da coisa: não é culpa. 

- Se não é o medo de ser descoberta ou o remorso de ter feito sexo com outro, as possibilidades ficam escassas. Geralmente são esses os sentimentos que as traições suscitam. 

- Algo tão limitado assim: ou sofre-se por um ou pelo outro? 

- Ou por ambos. 

- A sensação não está relacionada a nenhum deles. 

Guardou o pente em sua bolsa, colocou os brincos nas orelhas e começou a calçar seus sapatos. 

- Paixão? – indagou ele. 

- Como? 

- Paixão nova. 

- Também não é isso. – e deu um beijo rápido nos lábios dele. 

Ficou olhando um tempo para o chão, até que o questionou: 

- Nas vezes anteriores, você apenas sentia o medo de ser descoberto ou a culpa por ter feito sexo com outra menina? 

- Acho que sim, não tenho certeza. Mas não há uma regra, as variáveis são muitas. 

- Por exemplo. 

- O grau de envolvimento que você tem com a pessoa, tanto com a traída quanto com aquela que serve de meio para a traição. 

- Alguma vez você sentiu uma culpa tão grande que foi capaz de contar à traída o que havia feito e pedir perdão? 

- Não. 

Ela o fitou por algum tempo e proferiu: 

- A culpa é uma grande invenção, nós a criamos. Inexiste de forma involuntária. Pelo menos em situações como essa. 

Ele apanhou as chaves do carro e pôs-se em pé, em direção à porta da suíte. A moça continuou: 

- Com a certeza de que a traição será mantida em segredo, pelo menos a fantasia da culpa funciona como sentimento que fundamenta alguma espécie de respeito pela pessoa traída. 

- Acredito que a lógica seja essa. – disse ele, abrindo a porta. 

Ela se aproximou e ambos deram um longo beijo. 

- E quando não sentimos... nada? 

Ele acionou um botão no chaveiro que desativou o sistema de alarme do veículo e lhe destrancou as portas. 

- Significa que não temos problema algum. 

Abriram as portas do automóvel e nele entraram. Apenas ao saírem do motel é que ela observou que o céu de Maringá, naquela noite, estava vigorosamente escuro.