O Exterminador do Quarto dos Fundos

                                                                                       *Nelson Alexandre

Sempre tive problemas com insetos, desde os tempos das aulas de biologia que eu assistia num colégio esquecido da periferia de Space City. Pareciam exércitos, os malditos. Se para cada homem existe um inferno, com certeza, torço pra que o meu não seja com insetos carbonizados. Torço pra nunca ficar num caminho estreito onde pássaros de mau-agouro cantam à chegada de novos condenados...
Ela estava lá, com suas antenas balançando como se uma ventania alisasse sua coroa de micro germes sobre a carapaça. Eu sentia o cheiro do café sendo feito, lá fora, por uma mão caprichosa, e também um cheiro de morte, de batalha, dentro do quarto.
Eu odeio insetos. Jamais seria entomólogo. Levantei bem devagar do colchão em que eu estava deitado. Ela ficou imóvel, imaginando o seu fim horrível. Ela deu cinco ou seis mexidas nas antenas e disparou como um tiro traçado em direção à porta. Comecei a atirar chinelos, livros, meias emboladas como se fossem balas de canhão, mas nada deu resultado. Não consegui acertar a maldita. Ela entrou embaixo do guarda-roupa. Constatei que até os insetos querem salvar o próprio ‘couro’.
Remexi numa caixa que tinha um monte de cacarecos e encontrei um enorme mata-moscas que, freneticamente, comecei a passar por baixo do armário. Ela saiu em disparada em busca de liberdade, mas eu era o seu exterminador. Peguei uma das meias emboladas e fiz um arremesso forte e direto em direção à passagem que daria fuga à barata. A bala de canhão acertou o inseto, que ainda ficou remexendo as patas pro ar numa velocidade descomunal.
Peguei uma pinça, pesquei o inseto e depositei o seu corpo num recipiente de alumínio. Fiquei parado, olhando seu corpo ainda se contorcendo em busca de liberdade. O café não a salvaria. O cheiro bom do café.
Arranquei a primeira perna e ela protestou mexendo ainda mais rápido do que antes. Arranquei a segunda e tudo ficou mais acelerado, como se a vida passasse como um tiro perto do ouvido. A dor era uma barreira intransponível entre nós.
Peguei o restante de uma garrafa de vodca vagabunda e derramei tudo sobre o inseto, que ainda se mexia extraordinariamente rápido. Parecia um mecanismo que havia perdido a coordenação motora. Revirava o corpo num balé de horror embriagado. Eu podia sentir o álcool inundar aquela crosta repugnante, e um cheiro indescritível começou a dominar o quarto como se uma fossa séptica contendo mais de um milhão de baratas asfixiasse aquele espaço onírico num instante de delírio.
Em minhas veias corria um sangue venoso, misturado com uma boa dose de ódio contra aquela maldita barata nadando em vodca ordinária. Corriam as chamas que iriam incendiá-la. Então, sobre o domínio de um grande exterminador pronto pra executar o seu trabalho, ouvi o meu nome ser chamado do lado de fora do quarto, em uma frequência aguda e estridente. O café estava pronto.
Peguei uma caixa de fósforos e risquei um palito. Fiquei um instante olhando a agonia da barata... E quando ateei fogo na maldita e vi seu pequeno corpo murchar em meio a um fogo amarelo avermelhado, pensei no inferno, no pequeno inferno de insetos carbonizados e nas vozes que cantariam hinos de horror com suas bocas lotadas de baratas. Pensei nas centopéias enormes passando pra lá e pra cá sobre os pés dos recém-chegados e um enorme baratão-rei sobre um trono de ossos humanos dizendo: “E agora, hein?”
E o meu nome ecoou, novamente, num tom mais alto, mais próximo.
“Alexandre!”
As harpas do céu entraram nos domínios do buraco medonho. O café... Como eu poderia esquecer o café.
Ao abrir a porta do quarto, lá estava a visão do paraíso, minha avó, em pé, mostrando pra mim o lugar à mesa, acompanhada de uma negativa demonstração olfativa, a única coisa que ela poderia me dizer e disse.
“Que cheiro de queimado”.
“É o cheiro do inferno”, eu disse num lamurio que saiu entre os dentes.
Ela balançou a cabeça de forma negativa, colocou o jornal na minha frente, serviu o café, e não trocamos mais nenhuma palavra.

O Caso da Rua dos Saltos

 
                                                                                         * Hygor Zorak
 
- Setembro de 1995.
- Agosto de 1996.
- Outubro de 1996.
- Janeiro de 1997.
- Entre outras datas.
- Mas a quê você está se referindo?
- A nada em especial.
- Então porque a importância das datas?
- Não tem importância, eu só queria dizê-las.
- 1997 realmente foi um ano complicado e tumultuado pra você.
- Não, não foi. E cale a boca!
- Não quis te incomodar, e nem quero, mas você tem que concordar que aquela foi uma data complicada!
- Cale a boca!
- Posso até calar, mas só se você assumir que foi um ano complicado!
Ouve-se dois tiros, uma porta batendo e o cantar dos pneus da pick up vermelha que todas as sextas a noite estava naquele mesmo lugar.
Sirenes e gritos.
As pessoas afobadas queriam ver o que havia acontecido no apartamento nove da Rua dos Saltos, mas a polícia insistia em afastar os curiosos, que em sua maioria não passavam de vizinhos que, na realidade, já tinham uma nítida impressão do que havia acontecido.
- Policial, que aconteceu?
- Ainda não temos o boletim oficial senhor. Os peritos estão lá dentro.
- Noticiaram dois tiros. Quantas mortes?
Ouve-se mais dois tiros, mais gritos e outro cantar de pneus.
- Que diabos foi isso agora?
- Mais dois tiros senhor!                                       
- Isso eu sei!
- Desculpe senhor!
- Vai busca café pra mim!
- Não posso senhor!
- Como?
- Eu disse que não posso senhor!
- Isso eu entendi, mas por quê?
Uma mulher grita desesperadamente, saindo de um dos prédios da Rua dos Saltos falando que o fim estava próximo e que ela não tinha muito tempo!
- Dessa forma vou acreditar na mulher...
- É impossível isso senhor! Ela é a chamada louca institucional do bairro! Sempre fala isso quando acontece alguma coisa estranha... Senhor!
- Quantos anos você tem?
- Como senhor?
- Exatamente o que ouviu!
- 28, senhor!
- Seria uma pena se morresse tão jovem...
- Senhor?
Os peritos demovam a sair, deixando os policiais e os populares irritados e ansiosos, até que se ouve um grito estarrecedor de dentro do apartamento.
- Que foi isso?
- Ai meu Deus, o que está acontecendo?
- É o final dos tempos!
- Vamos entrar! Vocês dois vem comigo!
O comandante da operação e os dois policiais entraram no apartamento nove e se depararam com dois corpos sentados em torno de uma mesa, com as cabeças apoiadas nela. Os corpos dos cinco peritos também estavam lá, mas estendidos uniformemente no chão. Todos mortos.
- O que aconteceu aqui dentro?
- Como eles morreram?
Um dos policiais se sentou numa cadeira e ficou a se balançar, entrando em desespero
- Policial!
- Policial? Está tudo bem?
- Não! Não! Não!
- O que você tem?
- Eu vou morrer... Todos vão morrer...
- Não se desespere. Vá lá fora tomar um ar.
- Não posso...
O policial caiu da cadeira inerte. O comandante da operação e o outro policial correram para ver o que havia acontecido e, o policial estava morto.
- Senhor... Tenho que ir embora!
- O que está falando?
- Minha esposa falou que isso ia acontecer e que eu não iria vê-la novamente.
- Falou o que?
O policial despencou morto no chão. O comandante, assustado, caminhou perplexo até a porta, que se fechou bruscamente na sua frente.
Desespero.
O comandante de policia, após tentar abrir a porta se voltou para o interior do apartamento e não viu nada além da mobília limpa, do chão limpo, tudo limpo. Então entrou um homem caminhando calmamente.
- Quem é você?
- Janeiro de 1991
- Fevereiro de 1992
- Maio de 1993
- O que você está fazendo?
- Calma. Ainda não acertamos a data.
- Data de que? O que está acontecendo?
- Junho de 1994
- Setembro de 1995
- Porque importa essas datas? Do que está falando?
- As datas não são importantes.
- Agosto de 1996.
- Então porque está falando elas?
- Outubro de 1996.
- Não há razão especial. Eu só queria dizê-las. Mas nós não definimos ainda uma data...
- Nós quem? Data pra quê?
- Janeiro de 1997.
O comandante ficou enfurecido e parte pra cima do homem, que grita e caindo no chão se desmancha em cinzas.
- Muito desrespeitoso não deixar o homem achar a data certa?
- Quem é você?
- 1997 realmente foi um ano complicado e tumultuado pra você.
- Não, não foi! Do que está falando?
- Não quero te incomodar, mas você tem que concordar que aquela foi uma data complicada!
- O que você quer? Onde estou?
- Estamos escolhendo uma data. Mas você é resistente a isso.
- Diabos, data pra quê?
- Julho de 1998. Não. Novembro de 1999.
Dois tiros são disparados.
A polícia derrubou a porta do apartamento e entrou no apartamento, encontrando o comandante de polícia com uma arma na mão e dois de seus policiais mortos no chão. Eles haviam sido alvejados pela arma do comandante.
Então ele foi levado preso e, quando saia, viu uma pick-up vermelha sair cantando o pneu.

Mar Adentro

                                                                                                                                  *Ariana Zahdi

Vento
Tua boca em minha orelha
Brisa que me levanta os pelos
Dos braços
Das pernas
Sopro

Arrepio de pés pisando o mar
Tuas mãos na minha pele
Minha pele no teu corpo

Marolas de calor
Águas vivas
Tua boca
Na minha boca

Ondas leves na areia
Nos aprofundamos no mar

Ele nos carrega
Arrasta
Enrosca
E como quase náufragos
Nos agarramos um ao outro
Para não tombar

Pés
Pernas
Braços
Língua
Boca
Boca
A minha na tua crista ilíaca
Teus dentes nas minhas coxas

E o vento quente
E a água morna
E somos barco

Você, mastro
Eu, vela
Você me ergue
Eu te navego

E o balanço do mar
E o chacoalhar das ondas
E o céu escurece
E o vento aumenta
E o barco balança
Balança
Balança

Já não respiramos mais
Coração de ondas batendo no casco
E a tempestade que chega

Peito
Mãos
Suor
Saliva

Minha onda quebra
E sou espuma
E você é ressaca
Que me inunda e recolhe

Fluxo de pensamentos errantes no ônibus

*Diego Teodoro

A circular não espera ninguém
Foto de César Miguel
Não que eu me sentisse orgulhoso de estar tão mal vestido, eu apenas não me importava. Quantos maltrapilhos não entram em ônibus todos os dias? Eu só era mais um.
Subo os degraus.
Agarro-me às ferragens. 
Retiro o vale transporte. 
Passo a roleta e, só então, depois de todos os imperiosos impulsos automáticos, é que olho ao redor; miríades de pessoas em pé, lutando por seus diminutos territórios, fleumáticas. 
Gordas, brancas, negras, pardas; negros, gordos, pardos, brancos. 
E pensam: “Mas que merda de motorista é este, tá carregando boi?”. E penso eu: “Qual é a diferença se ninguém sobreviver?”, cogitando um suposto acidente fatal. O motorista quase sempre acelera ainda mais, como se ouvisse todos aqueles pensamentos. Sempre há o que não se segura e provoca, ou por estar acompanhado, ou por estar sepulcralmente mal-humorado: “Tá carregando boi, porra?”, e todos o olham e depois o esquecem até que finalmente o motorista irredutível, reduz. Quer dizer, no final das contas só conseguimos nos odiar ainda mais. E isto só por pegarmos o ônibus todos os dias juntos, sem nem sequer olharmos um para a cara do outro. Nós somos odiosos, amigos! 
 Para onde vamos? Paris, laranjeiras, Alvorada? Centro? – Alto lá marujo! 
Eu me sinto bem, mesmo em pé, com os nervos do braço pulando para fora e gritando por socorro junto ao sangue que se empedra em meus dedos. 
Nós, trabalhadores, somos felizes, grandiosamente felizes com nossos empregos, apenas não gostamos um do outro. 

O único sentimento do qual nutrimos além do ódio é a dó. A piedade mútua. Uma coisa intrigante que acontece nos ônibus é que se você é trabalhador, você não senta. As pessoas que conseguem acentos nos ônibus são aquelas que vão passear no Maringá Park ou alimentar os pássaros na praça. Trabalhadores de verdade, aqueles sujos e sebentos, não sentam. As velhas precoces de quarenta anos não sentam. Quem senta são aqueles que em muitas vezes tem carros na garagem e um estoque de arenque vermelho no freezer. 
O pão com ovo; o leite com açúcar; o cesta básica, não senta. 
A bolacha de cesta sofre até o fim. Sofre na rua. Sofre no mercado. Sofre no trabalho, e volta para a casa sofrendo, cheio de sacolas da porra do Mercadorama. O comum é ludibriar o embriagado, o sem cultura. O importante é fazer parte de uma casta de coexistentes falidos. O comum é estar por cima em todas as situações. 
Eu estava em pé, segurando as ferragens. A garganta seca, implorando mais que um cristão por um gole de qualquer coisa. Eu estava com roupas sujas. Sapatos surrados. Desodorante desgraçadamente fétido! Minhas pernas imploravam-me, não como a garganta que gritava por clemência, imploravam por descanso, por um colchão e cobertores limpos. 
E eu pensava: “Qual é a diferença se ninguém sobreviver?”. 
E as pessoas exclamavam: “Mas que cheiro horrível!” 
E as pessoas pensavam: “mas que cabelo asqueroso!” e eu pensava: “Qual é a diferença se ninguém sobreviver?”. 
Estávamos indo ao mesmo lugar, o diferencial era que faríamos coisas diferentes, trabalharíamos com coisas diferentes, que no final, dariam na mesma. O mesmo objetivo. O mesmo paupérrimo salário. 
Deveras... Deveras... 
E o motorista acelerava novamente e as pessoas pensavam: “Será que eu quero mesmo que ele não nos mate?” E as pessoas pensavam: “Espero que nos mate depois de termos passado o cartão”. E eu pensava: “Que bunda maravilhosa, minha querida!” E o motorista acelerava e fazia curvas arriscadas. 
Uhhhh!!! Apertem os cintos! Vocês estão bem? - Eu quase sempre abria um sozinho com esses meus pensamentos e algumas pessoas me olhavam desdenhosas como se elas fossem perfeitamente normais. 
Eu me perguntava: “Será que haverá vagas para todos no HU?”. 
As pessoas inquiriam: "Que dia é hoje? Ah, é sexta-feira. Será que tenho que cozinhar feijão?". 
E eu me entorpecia felicíssimo ao pensar: "Yeah, sexta-feira! Pegue a direita, rodopie a catedral, siga reto até o limiar da rotatória, pegue uma cerveja no Guadala e suba a Cerro Azul até o CBGB's Maringaense, Tribão, e gaste seu salário". 
No final todos nós bateremos o cartão. 
Minhas roupas perderão um pouco da importância. 
Você me esquecerá por toda tarde até me ver novamente ao cair da noite, grudado nas ferragens, com o mesmo olhar impassível. 
Eu estava orgulhoso de me sentir indiferente. As pessoas pensavam: “Faltam duas ou três prestações para quitar minha geladeira?” E as pessoas imprecavam: “aquela droga de TV só vive chiando”. E eu pensava: “Qual é a diferença se ninguém sobreviver?”, e o motorista acelerava. Até que todos sobreviviam, trabalhavam e, em pé, segurando nas ferragens, se amontoando, chegavam a suas casas para suas novelas enquanto eu, ainda indeciso, me questionava qual dos bares da vizinhança beberia meu primeiro trago.

A Casa de Irene

Foto retirada do Blog: http://maringaparanabrasil.blogspot.com.br/

Naqueles longínquos anos, havia na Vila Operária, próxima à Igreja São José e ao Cine Horizonte, uma casa de tolerância pouco tolerada pelas mulheres do bairro.  Chamavam-na Casa de Irene. A Liga das Senhoras Cristãs chegou a fazer uma manifestação pública, que começou na praça da igreja e seguiu em caminhada até o difamado lugar, mas sem resultado para elas. A casa era grande, de alvenaria pesada, pintada de branco, com telhas de barro vermelho pretejadas pelo tempo. O muro baixo, o simpático jardim com canteiros de rosas e margaridas e dois gatos sem raça definida sempre deitados na varada durante o dia diziam ser uma residência comum, habitada por alguma respeitada família maringaense. Mas era a partir das sete horas da noite que o movimento começava e seguia até a madrugada. Aos sábados e domingos, alguns homens iam à missa e depois à Casa de Irene. 

A casa era frequentada por muitas pessoas comuns e evitada pelos figurões da cidade, pois não havia nenhuma privacidade na entrada e qualquer um via quem entrava e saía.  Mas um vereador, que chamarei aqui pelo improvável nome Josevaldo,  era assíduo na casa. Era um homem respeitado, esposo de esposa respeitada. Ela, da Pastoral da Família, comprava roupas caras nas lojas da XV de Novembro em época em que não havia shoppings na cidade. Ele, vereador em segundo mandato, treinava tênis de campo num clube todas as manhãs de quinta-feira. Eles, os cabelos pintados, sorridentes, frequentavam as colunas sociais. A um colunista Josevaldo pagava para ver estampadas num jornal fotografias suas em festas de aniversário, batizados, jantares beneficentes. 

Josevaldo chegava a pé à Casa de Irene, vestindo roupas com as quais não era visto nas sessões da câmara e nem no seu escritório de advocacia, usando uma peruca ridícula e óculos escuros. Sentava-se num canto do bar improvisado e aguardava alguma das meninas de Irene se aproximar e pedir que lhe pagasse uma bebida.  Com a primeira já se retirava para o quarto, demorava pouco mais de meia hora e ia embora sem falar com mais ninguém. 

Um dia chegou à Casa de Irene uma menina de Ivatuba a quem chamavam de Monique pela semelhança com a Evans, que era capa de muitas revistas na época. Pois aconteceu: Josevaldo se apaixonou por ela. Não era a mais bonita, nem a mais gostosa, mas tinha uma voz rouca que sussurrava, uns olhos perdidos no nada, e Josevaldo não quis mais outra, perdeu-se naqueles olhos perdidos e na voz sussurrante. E se antes ele ia à casa de Irene a cada quinzena, passou a frequentá-la duas, três vezes por semana. Chegou a faltar à sessão da câmara. E depois de dois meses, quis exclusividade, não conseguia imaginar a menina nos braços de outro homem. Seu plano era tirá-la da casa, alugar para ela um quarto e sala em um prédio barato da cidade.

Mas antes que isso acontecesse, sua esposa descobriu o malfeito. Apesar dos honorários advocatícios, do salário de vereador e da gratificação de 30 por cento dos vencimentos de dois assessores da câmara, trocou o filé-mignon pela alcatra ou mesmo pelo patinho, começou a perguntar à mulher se não desperdiçava nas lojas o dinheiro que ganhava com tanto suor. Ela não era trouxa e juntou os pedaços: os compromissos noturnos quase que diários, a sovinice e a ausência na cama. Pagou um moleque para seguir o marido, logo descobriu onde o sem-vergonha deixava a diferença entre o filé-mignon e o patinho. E soube de Monique. Contratou o mesmo moleque: queria que retalhasse o seu rosto, que ela ficasse desfigurada. Ele a seguiu numa manhã de domingo até a igreja, onde a vigiou durante a missa, acompanhou o seu fervor nas orações. Seguiu-a no retorno à Casa de Irene e, no meio do caminho, apontou-lhe uma faca e a levou para uma casa abandonada na Marcílio Dias. Com a mesma arma, fez três cortes profundos em seu rosto.

Hospital, delegacia, investigação. Josevaldo acompanhou tudo à distância. Um dia, no carro, a esposa ao lado, ouviu a notícia: Monique prestara depoimento à polícia, contara que um rapaz a ferira e que não sabia o motivo. Josevaldo olhou a esposa, que desviou o olhar. Então soube.

A polícia arquivou o inquérito, ficaram as cicatrizes no rosto de Monique. Então ela não pôde permanecer na Casa de Irene. Foi trabalhar na rua, atendendo moleques com pouco dinheiro e até mendigos nos terrenos baldios, atrás dos muros. Um dia, pouco mais de meio ano depois, Josevaldo a viu na Joubert de Carvalho. Era pouco antes das 19 horas, e ela já se oferecia aos transeuntes. Vestido curto, os cabelos maltratados, um sorriso simulado e as cicatrizes. Josevaldo desviou os olhos antes que ela os descobrisse. Aumentou o volume do rádio, sorriu para a esposa, que estava ao lado, e seguiu para a igreja. Era dia de missa.

Cérebros flatulentos não pensam na eternidade

*Nelson Alexandre

DSC_7087Lá fora Maringá dorme. As formigas destrincham uma barata morta no canto do cativeiro. Nenhuma radioatividade vinda dos raios solares pode penetrar as engomadas sendas cerebrais do raptado. Modigliani não existe. Namoradas não existem. Só os filmes de terror. O medo. O medo...
O quê cê acha?
Sei lá, parece que ele tá meio pálido, né?
Frescura desse cara.
Dá um rango pra ele.
Tá com fome ô gente fina?
Fala, pode falar.
Como é que ele vai falar com a mordaça na boca, esperto?
Pronto tirei, pode falá, gente fina.
NÃO... NÃO ESTOU COM FOME...
Não falei que era frescura desse cara.
EU QUERO IR AO BANHEIRO, PORRA...
O quê cê acha?
Cê não vai querê que o cara faça nas calças, vai?
É... Mas essa gente rica é cheia de história pra querer enrolar a gente, fica esperto.
Bala nele se tentar alguma gracinha.
Sei não, o Perivaldo não tá aí, melhor a gente esperar ele chegar.
MAS EU PRECISO IR AO BANHEIRO, PORRA...
Cala boca gente fina, tâmo resolvendo a parada!
Então, quem vai com ele ao banheiro?
Você!
Eu!?
Cê que tá dando uma de anjo protetor do cara, cê que limpe o rabo dele ué?
Tá achando que eu sô viado é?
Não é nada disso, cê tá entendendo errado.
VOCÊS JÁ RESOLVERAM?
Mais uma palavra e cê vira peneira, tá ligado, gente fina?
Cê é que vai levar o cara!
Não vô não, o problema é seu, cê é quem se preocupou com o gente fina aí, não vô bancá a mamãezinha de ninguém, tá ligado?
E o cara? Vai cagá nas calças?
Cê que sabe.
PORRA, EU QUERO IR AO BANHEIRO...
Tá vendo, vai logo com o gente fina no banheiro, fião!
Quem cê acha que é? Já tá querendo mandá na operação?
Vai se fudê.
Vai se fudê você, seu merda.
Que merda tá acontecendo aqui?
Aí, fala pro Perivaldo o que tá acontecendo aqui, boiolão.
Boiolão é seu rabo.
Bico fechado os dois. Que porra de confusão do caralho é essa? Tão querendo que a vizinhança toda fique sabendo que esse cara tá aqui?
EU SÓ QUERO IR AO BANHEIRO...
Ô gente fina, você só fala aqui quando eu mandar, sacou? Eu sou o chefe dessa baiuca aqui, tá sabendo?
É isso aí, Perivaldo.
Puxa saco do caralho.
Cala boca, boiolão.
Tá querendo sair no braço? Já falei que boiolão é o seu pai, seu irmão, seu...
Já mandei os dois calarem a boca, não mandei.
Porra, Perivaldo, é que a boneca aí tá querendo dar uma de anjo protetor do gente fina.
Não é verdade, só tava tentando explicar pra esse cretino a situação do bacana aí. O cara vai cagá nas calças!?
É, mas se for frescura desse cara pra chamar atenção, todo mundo se fode aqui, Perivaldo.
NÃO É NÃO, JURO, EU SÓ QUERO IR AO BANHEIRO, NÃO AGUENTO MAIS.
Já falei, ô gente fina, que você só fala quando eu mandar.
A família já tá ciente do valor exigido pra ter de volta o gente fina?
Não precisa se preocupar, não é a primeira vez que faço esse tipo de trampo. Além do mais, a família do bacana tá colaborando. Não são idiotas. Sou bem convincente pelo celular.
Mas Perivaldo, e o cara? Vai ou não vai ao banheiro?
Não falei, Perivaldo, não falei que o boiolão aí quer dar uma de protetor do cara!
Eu te arrebento seu filho da puta!
Se eu ouvir mais uma discussão aqui vai todo mundo pra pica!!! O gente fina vai ter que segurar as pontas aí, vô comprá um rango pra gente, quando eu voltar você caga, copiô?
MAS EU PRECISO IR AGORA!
Aguenta aí, bacana.
ESPERA, EU PRECISO IR AGORA!
Cala a boca, porra, já falei, quando eu voltar.
Deixa o cara cagá, mano.
Quando eu voltar ele caga.
Caralho, esse cara não vai parar de reclamar.
Se ele continuar falando eu vou enchê ele de porrada.
Legal, aí cê enche ele de porrada e fode o esquema. Ele tem que tá inteiro seu burro.
Eu vô batê de leve.
Ah, cala essa boca e liga a televisão.
Em qual canal?
O canal que vai passá o jogo do Galo.
Ah, vai assisti jogo do Galo lá na puta que te pariu. Eu vou assisti um filme, isso sim.
Então vai ao cinema seu cuzão.
Seu boiolão vai se comê com o dedo vai. E me dá um cigarro aí.
Vai fumá lá na cadeia, seu escroto.
Me dá um cigarro se não te arrebento na porrada.
VOCÊS DOIS, PELO AMOR DE DEUS, TÔ PRA DEFECAR NAS CALÇAS. AI, PORRA!
Aguenta as pontas que o negócio agora é entre a gente, bacana. Vai me dá o cigarro ou não?
Vem pegar ele aqui.
Tá me provocando?
Nunca leu uma frase que picharam lá num muro perto da UEM?
Quê?
Sabe ler?
Vai tomá no cu.
“Cérebros flatulentos não pensam na eternidade.”
Que porra é fratulento?
Flatulento, seu babaca, peido, exatamente o que você tem na cabeça. Um monte de bosta em estado gasoso.
Tá vendo o meu ferro, boiolão? Você para bala no peito? Cê pensa que é o superman? Merda na cabeça teve a sua mãe em botá você no mundo.
Você não tem coragem de atirar.
Qué vê?
Duvido.
AI, MEU DEUS, AI MEU DEUZINHO DO CÉU, TÁ NA PORTINHA JÁ.
Seu puto vô te enchê de chumbo.
Perivaldo entra carregando quatro marmitas. Vê o canhão apontado.
Que merda é essa?
AI, MEU DEUS, AI, MEU DEUS!
Larga a arma Tião, tô mandando.
Vai se fudê você também, Perivaldo.
Seu bosta, eu sô o chefe dessa baiuca.
Era, toma.
Um disparo seco.
Você atirou no Perivaldo, seu burro.
Tá morto?
Mortinho.
EU NÃO AGUENTO, EU NÃO AGUENTO!
Desamarra o cara, vai.
Você sempre quis ser o chefe, né?
Anda logo.
Tudo bem vou desamarrar o cara.
Anda logo.
Pronto tá solto.
Agora vira de costas.
Nem fodendo.
Então atiro pela frente mesmo.
Outro corpo no chão.
E aí gente fina? Seu célebro é fratulento?
HEIN?
É fratulento?
NÃO...
Me diz a razão.
Silêncio.
Me diz, vai!
EU ME CAGUEI TODO...
Huuummm... Porra, então vai fedê lá no inferno.
Terceiro corpo no chão.
Na televisão nenhum filme interessante. Tião senta na poltrona e rasga a tampa de alumínio de uma marmita. Arroz, feijão, uma coxa de frango enorme e batatas fritas. Troca de canal, e por um instante percebe que está assistindo ao jogo de futebol. O Galo abre o placar contra o Nacional de Rolândia.

Uma nova geração

*Gabriel Montechiari e Silva

No ano de 2020 um grande otimismo atingia a comunidade científica. Os transistores óticos postos no mercado pela IBM na metade da década anterior aumentaram consideravelmente o poder de processamento dos computadores que, em abril de 2017, já haviam superado a marca de operações por segundo realizadas pelo cérebro humano. Resultados inconclusivos do LHC conduziram a ajustes promissores nos modelos físicos vigentes. Um em particular, proposto pelo colombiano Salvador Dias, proporcionou um grande avanço na direção da teoria unificada. Suas previsões estavam sendo testadas pela equipe do Grande Interferômetro Orbital, experimento monumental conduzido pela Universidade de Tóquio.

Em janeiro desse ano dois aglomerados de computadores avaliados em 2,6 bilhões de dólares cada foram destinados ao inquérito científico. O modelo GO-5b foi dedicado à astronomia, enquanto seu semelhante da série A realizaria a simulação do universo mais detalhada até então. O chefe do projeto explicou em uma entrevista para a NewScientist que, mesmo com o detalhamento excepcional, com a capacidade de processamento disponível levaria apenas 18 meses para a simulação atingir os 13,3 bilhões de anos do universo.
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25/12/2020 - 11 h 05 min. - Depoimento de Albert Fishermann, vigilante noturno do Instituto Tecnológico de Massachucetts.

_ A que horas o senhor começou o expediente?

_ Eu cheguei no Campus por volta das 7 da noite, guardei minhas coisas no armário, conversei um pouco com Larry, o guarda do dia... Devo ter batido o cartão às 19:15.

_ Aconteceu alguma coisa atípica antes do incidente?

_ Estava tudo certo. Na medida do possível, claro. Porque não é nada certo ter que trabalhar arriscando a vida na véspera de Natal! Fora isso, estava tudo bem calmo. Até que lá pelas nove o sujeito apareceu.

_ O que ele queria?

_ Me disse que era membro de sei lá que clube inglês e que precisava falar urgente com o senhor Harold. Eu disse “olha , eu sinto muito mas hoje ele deve estar com a família”. Ele disse que poderia haver um problema com a distribuição de energia e me perguntou onde ficavam os geradores. Aí eu ví que tinha alguma coisa esquisita. Disse pra ele que estavam seguros, em um compartimento à prova de explosão. Depois disso ele foi embora nervoso e eu liguei pra central de segurança.

_ O senhor sabe quem era aquele homem?

_ Olha, rapaz, eu não me importo se aquele mexicano era o jovem Einstein, mas ele me deve uma bela ceia de natal.
_

25/12/2020 - 14 h 23 min. - Depoimento de Harold Berkley, chefe do departamento de computação do Instituto Tecnológico de Massachucetts e responsável pelo projeto de simulação Jeová.

_ Dr. Berkley, eu entendo que o senhor esteja muito frustrado, mas gostaria que o senhor respondesse a algumas perguntas.

_ Frustrado? Você sabe como é angariar fundos em um governo de criacionistas, detetive? Cada peça do departamento é fundamental. Foram anos de planejamento e negociações e eu quero que esse homem pague por isso!

_ Justamente para isso que eu preciso da ajuda do senhor.

_ O que você quer saber?

_ Quando foi a última vez que o senhor viu o doutor Salvador Dias?

_ Ontem à noite, às 22 h e 17 min. precisamente. Eu estava cozinhando para a minha família quando a campainha tocou insistente. Eu fiquei surpreso ao vê-lo. Eu não sei se você sabe, mas toda a minha pesquisa foi baseada no trabalho dele. Fui um bom anfitrião, perguntei a que devia a honra de ter o maior físico da atualidade em minha casa e convidei ele para a ceia.

_ …

_ Ele estava descontrolado, não parava de dizer “você tem que parar!”. Eu respondi “mas o peru já está quase pronto”. É claro que ele estava falando da simulação, mas aquela situação era ridícula.

_ O senhor sabe o porquê da urgência dele?

_ Qualquer que seja o motivo, pra ele era uma questão de vida ou morte. Minha hipótese é de que Dias achou alguma falha nos cálculos e queria se poupar do embaraço de alguém notar antes que ele pudesse corrigir. Isso provavelmente o põe nos livros de História como o cientista mais obsessivo de todos os tempos, não acha?

_ O que aconteceu em seguida?

_ Eu pedi para ele se acalmar. Disse que não era a hora nem o lugar para termos aquela discussão. O que quer que fosse, nós poderíamos resolver com calma. O projeto estava indo bem, e caso acontecesse alguma coisa ele seria o primeiro a saber. Então ele dilatou as narinas, me olhou como se fosse me dar um soco na boca do estômago e saiu.

_ Obrigado pelo seu tempo, doutor Berkley. O manteremos informado.

_ Detetive...

_ Sim?

_ Eu não quero que ele pague... Só quero saber por que ele fez isso.

_

25/12/2020 - 20 h 31 min. - Depoimento de Aurora M. Dias, esposa do doutor Salvador Dias.

_ Boa noite, senhora. Como foi de viagem?

_ Como o senhor esperava que fosse? Eu quero ver meu marido.

_ A senhora poderá vê-lo assim que colhermos o depoimento dele. Por enquanto, eu gostaria que me respondesse algumas perguntas.

_ Eu aposto que o senhor tem mais respostas que eu, detetive. Só me contaram que tinham Salvador sob custódia há doze horas e a pessoa ao telefone foi incapaz de me dar qualquer detalhe.

_ À meia-noite de ontem, Albert Fishermann comia sozinho o frango que sua mulher havia preparado, quando o marido da senhora entrou com um carro pela porta de vidro do prédio sede do departamento de computação do MIT. Enquanto o vigia ainda estava atordoado com a surpresa, o doutor Salvador Dias alcançou a arma do coldre do pobre homem e deu dois tiros na perna direita dele. Depois disso ele se dirigiu ao segundo andar, pegou um machado de incêndio e destruiu um computador valiosíssimo.

_ Hum... Pelo menos agora eu tenho certeza de que ele não está me traindo, não é?

_ Senhora Dias, me conte sobre a última vez que viu seu marido.

_ Nós estávamos na nossa casa em Los Angeles. Desde o começo do ano Salvador não é mais o mesmo, ele está agitado. Ele disse que era por causa do trabalho. Por mais que eu quisesse ajudar, quando se trata de equações não existe nada que eu possa fazer, não me ensinaram cálculo na Belas Artes. Há três dias ele recebeu uma ligação do Japão, e foi isso. Ele pegou a carteira, arrancou o calendário da parede da cozinha e sumiu.

_ O doutor Salvador é um homem agressivo?

_ Eu nunca conheci alguém mais calmo. Isso até já me irritou bastante...

_ Entendo. Muito obrigado, senhora. Não se preocupe, logo poderá vê-lo e o vigia está bem. Tenha uma boa noite.
_

25/12/2020 - 22 h 0 min. - Depoimento de Salvador Dias, físico teórico e professor da Universidade de Cambridge.

_ Eu nunca me destaquei em nenhuma área científica, mas...

_ Não se engane, detetive. A ciência é uma investigação como qualquer outra.

_ Mas... Já ouvi falar na constante cosmológica. Einstein a chamou de o erro de sua vida e, pelo que ouço falar, não foi o único. Inclusive, ao que me parece, dr. Dias, o erro é uma parte importante do processo.

_ Exato.

_ Então o doutor me responda: Por que, por tudo que eu li a seu respeito, um pacifista chegaria ao extremo a que o senhor chegou? Encobrir seu erro era tão importante assim?

_ Erro? Não, detetive. Eu me envergonho em admitir isso, mas sempre tive certeza dos meus cálculos e de suas consequências de uma forma que seria até inapropriada para alguém no meu ramo. Os números estão corretos. Eu gostaria que o senhor fosse capaz de entender, mas só existem três pessoas capazes disso no mundo. Uma sou eu, outra só está viva pelo milagre de aparelhos e a terceira não é o senhor.

_ Tente, doutor.

_ Está bem. Há uns sete anos, um experimento muito similar ao que está se conduzindo em órbita foi realizado. Ele nos deu indícios de que, em escalas muito reduzidas, o universo é granuloso e formado por bits de informação. O senhor sabe o que é um bit, detetive?

_ Eu posso só ter completado o ensino superior, mas não sou ignorante, doutor.

_ Certo. Isso mudou alguns conceitos importantes na cosmologia. E ainda que o foco do meu trabalho não fosse exatamente aquele, feitos os ajustes teóricos necessários eu não podia fugir das implicações. Foi então que eu me deparei com um modelo satisfatoriamente acurado para o universo: ele era como um fractal. E ainda que as primeiras iterações dele estivessem sujeitas ao Princípio da Incerteza, minha descoberta mostrou que esse era apenas um limite técnico. Segundo uma simetria inusitada, as escalas menores são simplesmente repetições do mesmo tema. E ele é tão elegante que pode ser escrito em apenas uma linha.

_ Acho que o senhor tinha razão sobre as três pessoas.

_ Minha descoberta implica na reintrodução do conceito de um universo determinístico. Dadas as condições iniciais, ele poderia ser reproduzido. E foi isso que o dr. Berkley fez, inconsequentemente, antes mesmo das minhas previsões serem confirmadas.

_ E o senhor não queria que ele simulasse o universo que descobriu.

_ Não é assim tão simples. Para mim estava claro o que ia acontecer, isso me preocupou seriamente. Mas eu não podia fazer nada pelo que outras pessoas chamariam de um palpite. Na terça-feira recebi um telefonema de Tóquio confirmando não oficialmente minha descoberta. Aí eu não podia mais esperar.

_ Eu ainda não entendo. Aquilo era só uma simulação...

_ Nada é só uma simulação, detetive. No final de Janeiro deste ano um universo começou. E, mesmo que as limitações computacionais tolhessem parcialmente a sua resolução, em tudo que importa ele funcionaria exatamente como o nosso. Hoje ele teria quase nove bilhões de anos. Estrelas de segunda e terceira geração já teriam se formado há um tempo, com elas átomos complexos como os que formaram, em pelo menos um caso, a vida. E isso eu não poderia deixar, detetive.

_ A existência da vida?

_ Um ser humano com o mínimo de consciência ética e alguma noção do que está fazendo nunca permitiria que a vida se repetisse. É um erro ela ter se formado, em primeiro lugar.

_ Sim, doutor Dias, eu entendo perfeitamente. No entanto, o senhor deveria saber que um ser humano com alguma noção do que está fazendo saberia diferenciar um supercomputador ótico de um sistema de meteorologia.

_ O quê?

_ O aglomerado GO-5a está seguro no subsolo do prédio que o senhor invadiu. Infelizmente, graças ao senhor, não saberemos precisamente se vai chover na virada do ano. Mas posso garantir que a vida vai acontecer, e não existe nada que o senhor possa fazer pra mudar isso.

Fragmento de conversa V


Pão com manteiga Abre cortinas.

Acordo. Faz uma linda manhã (chuvosa e fria). Ainda sonolento, deparo-me com uma bandeja cheia de comprimidos, xaropes, pílulas de todos os tamanhos e cores. Abro os braços em plena exclamação de alegria, saudando o dia que chega. Oba! Café da manhã! Nham, nham...

Bom, cansado de entupir-me de remédios, finalmente resolvi ir ao médico para ver se eu sofria da lendária gripe suína. Dor, febre, tosse... Não aguentava mais essa podridão. No consultório, após dizer às recepcionistas sobre meus sintomas, perguntaram-me se eu havia tido contato com alguém de fora. Disse que não sabia, e logo me enfiaram uma máscara: meu mais novo acessório. Mas, fazendo o exame, descobri que não passava de um resfriado forte. Recomendou-me apenas uma injeção para dor e febre e... mais uma porção de remédios.

Fui, então, conduzido para uma sala, onde aguardaria ser furado. Mantive-me comportado, sentado em uma poltrona, enquanto evitava olhar os outros enfermos que padeciam de coisas que meu pudor não me permite dizer. Mas isto não pude conter, não conseguia parar de olhar: um rapaz com uma garrafa na mão, cortada ao meio, contendo um líquido vermelho (digo assim pois, não sei por que idiotice, imaginei que fosse iogurte). Aquilo era seu sangue que ele ia regurgitando aos poucos.

- Brigou? perguntou um menino gordo sentado a seu lado.

- Nem. Eu fiz cirurgia das amígdalas e da adenoide, faz uns dez dias, e não sei por que começou a soltar sangue.

Só rindo. Briga... (eu também cheguei a pensar que fosse). Mas, ah!, meus caros, o rapaz então, de uma só vez, encheu a garrafinha inteira. Até então não passavam de umas cuspidinhas, mas daí vieram vômitos de sangue violentos e, no susto, acabou derrubando no chão todo. Sangue coagulado aos baldes. Eu imaginava que depois de perder tanto sangue a pessoa desmaiava... Enfim, após a seringada, levantei-me, dei um pulinho pra passar por cima da sujeira (upa!), e saí, levando comigo aquela cena sangrenta. Como será a sensação de escorregar no sangue?

A injeção não tardou a fazer efeito: a febre passou, não sinto mais dores nem tonturas... Com meu humor restabelecido, predispus-me a aprender coreografias de danças etéreas. Consegui até tirar a música da Sheila Mello da cabeça ("água/ tô virando água/ corredeira abaixo/ inundando o mundo..."). O flautista anônimo, que há duas semanas eu não ouvia, voltou a tocar sua musiquinha. Ah! e, também, após dias comendo maçãzinha, torradinha, chazinho, etc., dei-me ao prazer de comer pão com manteiga!... Babei. Enfim, a vida voltou a sorrir (a seu modo, claro). Ah!... aquele sangue...

"Vai correndo água/ tô virando água/ teu corpo suado!/ você me secando e eu virando água!" Bom, nem tudo é perfeito, né?

Fecha cortinas.