Mas não é à gasolina?


Não me lembro exatamente como a conheci. Só sei que “July” tinha uma verdadeira fascinação por filmes de terror. Se ela não tivesse feito uma crítica tão cativante e revolucionária em relação ao clássico Massacre da serra elétrica, eu não teria notado sua existência. July adorava a sonoridade dos nomes norte-americanos. Sempre ficava fascinada quando pronunciavam “July” ao invés de Julieta de Souza, seu verdadeiro e “maldito” nome, como ela vivia dizendo.

July era uma garota bonita. Tinha longos cabelos castanhos que destacavam um par de olhos amendoados e lânguidos. Sua beleza sempre era ofuscada por sua eventual falta de paciência com relação à opinião dos outros, principalmente, se o assunto era relacionado aos filmes de terror. Por isso, a garota não tinha muita companhia. Até mesmo os caras mais “malucos” da universidade de Space City pareciam boicotar a bela July. “Quero que esses idiotas se fodam. Nunca estiveram interessados no que eu sou realmente. Só querem me comer. Só isso.” Reclamava pra mim.

“Você não é um cara feio, por que não tem namorada?” Perguntou.

“Acho que sofremos do mesmo problema, elas também só querem me comer.”

July ficava linda quando liberava aquele sorriso angelical e cheio de uma originalidade “cult”. Parecia uma garotinha fascinada por uma ligeira fuga do berço de ouro que provavelmente ela tinha nascido. Já estava beirando os trinta. Uma Balzaquiana cheia de tatuagens e piercings. Madonna perdida num quadro de Bosch a olhar as estrelas sangrentas do seu céu de fantasia e horrores.

Certa noite nos encontramos ocasionalmente no “Tribo’s”, um bar de rock'n roll. Eu já estava pra lá das colinas da sobriedade, debruçado sobre o balcão, meditando sobre coisa nenhuma em hora inexistente. “Um filho da puta acabou de passar a mão na minha bunda!” Disse, jogando a bolsa perto da minha cabeça. Sugeri que ela chamasse um dos seguranças. Dito e feito. Nem cinco minutos depois, o “mão boba” estava sendo arrastado por um “simpático” grandalhão vestido com terno e gravata. Sentou-se novamente ao meu lado e ficamos bebendo até que a grana dela tivesse perto de chegar ao fim.

“Gosto da coloração do sol ao nascer. Parece que tudo se resume a esse tom vermelho-alaranjado. Tobe Hooper deve ter se inspirado nessa coloração ao concluir as cenas finais de Massacre, não acha?” Perguntou, segurando um Marlboro aceso entre os dedos.

“Talvez seja isso ou talvez não seja absolutamente nada. Vai saber? Eu só sei que a protagonista do filme passou por uma experiência que, no mínimo, pode ser chamada de Sado-claustrofobia-de-choque, acredito.” Respondi, com um olhar de cachorro bêbado e morrendo de vontade de beijar aquela boquinha bem desenhada. Mas naquela noite, nós apenas ficamos especulando sobre todos os tipos de bizarrices e empreitadas cinematográficas. Dos clássicos como: Assim caminha a humanidade, até produções de catalogação B, que jamais alguém irá encontrar em qualquer locadora de Space City.

Depois daquela noite, fiquei um bom tempo sem encontrá-la, imaginando apenas a cena onírica de nós dois num enorme cinema vazio, tentando convencê-la a assistir A Rosa Púrpura do Cairo ao invés de nos metermos nos confins da selva amazônica pra encarar Cannibal Holocaust. Eu pegaria em sua mão e tentaria dar uma de místico picareta, obcecado em decifrar os mistérios da linha da vida ou as sendas rudes das patologias ainda não diagnosticadas que sobreviviam entre seu cerebelo e a medula espinhal. Ela me diria que eu era um cavalheiro em tempos de barbárie tecnológica. Um romântico estigmatizado por uma sensível inadequação temporal. Um ser cronologicamente deslocado de sua origem. “Sabe, que com você eu até sinto vontade de abrir minhas pernas? Imagino que você não seria rápido e rude, seria?”

Não houve tempo pra minha resposta, quando voltei pra realidade fria e pegajosa, ela terminava de mastigar um bom pão de queijo e bebia uma coca-cola, chupando pacientemente um canudinho, escorada no balcão de uma das lanchonetes da universidade de Space City. De longe, levantou a coca pro ar como se quisesse me dizer: “Vem aqui, me sinto tão sozinha e desamparada nesse mundinho de merda.” Então, fui. Nos sentamos e ela pediu outra coca e outro pão de queijo. Bebi da coca. Comi do pão de queijo. Aquilo era o meu sangue e o meu corpo. Nossos pés se entrelaçaram por um instante. Minhas mãos suavam sangue. Senti meu coração ser dilacerado pela Serra animalesca de Leatherface. 

Eu, definitivamente, estava ferrado e apaixonado. Ela segurou minhas mãos e mostrou seus pulsos. Lá estavam dois sulcos profundos, dois inquilinos da morte que já haviam se mudado, mas que também haviam deixado algo pra ser lembrado durante o resto da existência. Fiquei espantado e com vergonha de perguntar sobre aquilo. Ela mesma narrou sua autobiografia: “A primeira vez que tentei o suicídio foi quando minha mãe morreu. Eu devia ter uns quatorze ou quinze anos. Meu pai não demorou muito pra arrumar outra mulher, uma vaca loira que só estava interessada nas lojas de maquinários agrícolas dele . A vaca não entende bulhufas sobre peças de colheitadeiras ou componentes químicos pra lavoura, mas é doutora em escolher jóias finas e perfumes importados, além de ser uma sádica que retirou todos os porta-retratos com fotos da minha mãe, lá da sala de casa.”

July soltava algumas pequenas e pegajosas lágrimas que molharam o meu pulso. Paguei a conta e a segurei pela mão. Tive vontade de beijá-la, de confortá-la de seu invólucro nostálgico de dor. Mas me acovardei. Eu só ouvia aquela frase dentro da minha cabeça: “Eles não querem saber quem eu sou realmente. Só querem me comer.” Ela percebeu meu olhar de agonia. Percebeu como aquele indivíduo estava preso, como que grudado numa indefinição de atacar ou não atacar. Você é um covarde, Wilson. Um tremendo de um galho seco em meio a um campo cheio de margaridas selvagens pendendo contra o vento. Livres. Insinuantes. Mas você, não. Você é apenas a matéria morta de algo que já foi um imponente cedro que transpassava as nuvens. July tinha os olhos cheios d'água. A boca cheia de verdades particulares. “Quer fazer amor comigo?” Metralhou. Fiquei olhando seu rosto, sua insinuante e angelical forma de sedução que a égide de uma inocência revisitada revelava-me naquele instante. “É o que eu mais quero.” 

Então, quando dei por mim, estávamos no quarto dela. Um quarto decorado em todas as paredes por pôsters de lendárias figuras do cinema de horror. Monstros psicóticos. Mocinhas indefesas. Um mundo cheio de imaginação e originalidade que ficou pra trás com a fragmentação da cápsula espacial que foi o século XX. July segurou meu rosto com as duas mãos, olhando fixamente bem lá no fundo dos meus olhos. “Eu jamais estaria me entregando agora se eu realmente não achasse que você não é alguém especial pra mim, pode ter certeza disso.” “Vou dar o melhor de mim, July.”

Aquela tarde foi um idílio em meio a um submundo plutônico. Amei. Chorei. Ri. Me droguei. Naquele quarto, rescindi todos os antigos vínculos com o mundinho de merda que estava à distância mínima de uma parede. Marcamos nova aventura para o outro dia. Naquela noite, mal consegui pregar o olho. Eu devia estar lá às 9 da manhã. Foi o que fiz. Esperei como de combinado, numa panificadora em frente ao “palacete” onde July morava. Vi um Audi A4 sair do “palacete” com duas pessoas ocupando os bancos da frente. Jóia. Era só ir até lá, apertar o interfone e esperar que os portões do paraíso se abrissem pra mim como se por um toque de mágica. E foi exatamente assim que as coisas aconteceram. July estava feminina. Linda. Embalada numa atraente camisola negra com bordados trabalhados na maioria de toda a extensão do tecido. Nem parecia aquela “garotinha” invocada da universidade. Beijei seus lábios com extremo amor. Estava praticamente andando nas nuvens, quando, num chute potente e raivoso, vi a figura de três monstros entrando pela porta do nosso cafofo de amor: O velho, a perua loira, e um cara do tamanho de um guindaste. “Quem é o vagabundo?” O velho perguntou pra ela. “Não é da sua conta!” Ouvi o estalido de um tapa e o estrondo do corpo de July ao cair no chão do quarto. Nem houve tempo d’eu tentar reagir, o grandalhão me deu uma poderosa chave de braço e meteu minha cabeça duas vezes na parede. O sangue começou a manchar o tapete que eu já havia manchado com esperma.

“Eu e o seu pai monitoramos toda a putaria dos dois na tarde de ontem. Além disso, confiscamos toda a sua “droguinha”. Pra quem disse que já estava recuperada, você me saiu uma tremenda de uma mentirosa.” Disse a loira, retirando da parede um quadro com a figura do Monstro da Lagoa Negra, onde estava escondida uma pequena câmera, daquelas de monitoramento interno de supermercados.

“O qu'eu faço com o pilantra, seu Oswaldo?” O grandalhão perguntou, apertando meu pescoço com mais força.

“O procedimento de sempre, Jaburu, o procedimento de sempre.”

O cara me arrastou até a garagem do “palacete”. Lá, desferiu umas boas lambadas. Em seguida, me enfiou dentro do porta-malas de um Opala 1972, tipo do antigo Dops, manja? Seguimos viagem. Chegamos numa “quebrada”, em plena zona rural. Vacas. Vespas. O idílio transformara-se numa sessão da meia-noite. Só lembro de ter sido acordado por um velho que conduzia uma carroça puxada por um cavalo doente e magro. Levantou minha carcaça da lavoura de soja e me colocou em cima da carroça. Apaguei novamente e acordei na ala de emergência do hospital metropolitano de Space City. Ouvia somente o comentário dos enfermeiros e do médico de plantão. “costelas quebradas, escoriações em grande parte do corpo, mas nenhum tipo de traumatismo craniano, é, ele vai sobreviver.”

Levei alguns meses me recuperando. Fiquei dentro de casa tempo suficiente pra crescer uma grande barba e gestar um ódio amargo e solitário, sem saber o que teria acontecido com July. Só me lembrava do tal Jaburu falando: “Se contar pra polícia, eu volto pra terminar o serviço, ouviu, molecão?”

Quando finalmente as feridas estavam curadas, é que dei as caras para o mundo novamente. Numa tarde perdida de agosto, tive a idéia de ficar de campana, observando a entrada e saída dos funcionários de uma das lojas de equipamentos agrícolas do pai de July. Fiquei semanas observando seus passos.

Então, em meados de setembro, vestido elegantemente com um terno preto e uma camisa de algodão branca esperei que todos os funcionários da loja fossem embora e observei que o Audi A4 era o único carro no estacionamento da loja. Entrei sem que ninguém me visse. A loja era maior do que uma igreja pentecostal. Fui até uma sessão de moto-serra e escolhi a de maior potência. O velho estava em seu escritório, quando o surpreendi. Ao me ver, abriu uma gaveta. Mas o que ele procurava, com certeza, naquele dia, não estava lá. Puxei a corda de ignição da moto-serra e retirei do bolso uma fantasmagórica máscara feita da pele do rosto da vaca loira, vestindo o meu com aquela ensangüentada máscara de couro “humano”. 

“Eu sempre disse pra todo mundo, velho, que a serra não é elétrica, é à gasolina, entendeu? À gasolina.” 

Não dei tempo pro velho levantar da cadeira. Retalhei-o da cabeça até as partes pudendas. Terminado o serviço, sentei numa cadeira e fiquei lá até ver despontar os primeiros raios de sol, naquela tonalidade vermelho-alaranjado. Pensei em July. E sobre o efeito poético do meu curta-metragem, puxei novamente a corda de ignição, fazendo o motor uivar sobre minha cabeça em circunferências dominadas pela paixão. Vruuumm... Vruuummm... Vruuummm...

A vida é dura


Nasci em Maringá, Paraná, e naquele dia o médico que fez o parto estava assistindo um jogo do Grêmio Maringá e teve que sair às pressas do estádio Willie Davis e, por pouco, tanto eu quanto a minha mãe fomos assistir a um bom clássico nos gramados alvos dos domínios do Altíssimo. 

Fui retirado à fórceps e isso deixou algumas marcas no meu crânio. Pequenas imperfeições que só são notadas com o leve toque de algum dedo feminino. Minha primeira namorada não foi nada complacente quando sentiu essas pequenas oscilações em minha cabeça como se fossem crateras lunares. 

_ Que diabo é isso? 

_ O símbolo da minha bravura ao vir a esse mundo. 

O namoro não durou muito. E ela não foi a única. Na escola, eu gostava de jogar futebol, e por Deus, cheguei a pensar que poderia vestir a camisa do Santos F.C., mas a minha trajetória como atleta terminou quando vesti a camisa 12 de goleiro e fiquei horas sentado num banco duro de madeira numa peneirada do Greminho esperando jogar cinco minutos que fosse. Um treinador magro e negro chamado Niltinho foi o meu primeiro carrasco. 

_ Você é muito magro e não tem estatura suficiente para jogar no gol, por que não procura outra coisa para fazer? 

Mas ele não me deixou nem ao menos tentar. O “Aranha Negra” jamais pisou no gramado da Vila Progresso. 

Fiquei mudo como um corpo num necrotério. Depois mandei: 

_ Sinceramente, eu ia perguntar o mesmo. 

A vida era dura, e um dia, quando estava pra completar 16 anos, resolvi sair por aí para procurar emprego. Não consegui nada. Minha mãe, preocupada com o meu futuro, me deu algum dinheiro que havia economizado vendendo algumas muambas oriundas do Paraguai e lá fui eu buscar alguns cigarros e outros badulaques para vender. Meus primeiros clientes foram os trabalhadores de uma fábrica de confecções. 

_ Esses cigarros são falsificados. Um abelhudo afirmou. 

Para não ficar por baixo resolvi acender um dos cigarros e demonstrar o sabor nacional que havia neles. Dei uma tragada e comecei a tossir como um cachorro tuberculoso. Todos riram até se esborracharem e, depois daquilo, dei por encerrada minha profissão de muambeiro. 

O tempo passava, e um dia, sentado numa das cadeiras da biblioteca pública de Maringá, eu simplesmente não sabia o que fazer e perguntei: “Deus, por que você não gosta de mim?” Então, antes de enfiar o rabo entre as pernas e sair da biblioteca, bati os olhos em um livro. Era Trópico de Câncer, de Henry Miller, li uma página, depois outra e outra e, definitivamente, havia encontrado meu irmão gêmeo que morrera no dia do meu nascimento. 

Fiquei meses como um vagabundo indo de casa para a biblioteca e vice e versa. 

Eu não passava de uma piada para todos os moradores do Jardim Liberdade, carregando aquele monte de livros embaixo do sovaco. 

Até que um dia, coloquei as palavras no papel. E todo um mundo fantástico, bem ao contrário da minha pequena existência naquele bairro, desabrochou para mim como uma virgem surreal, parecida com uma mágica reveladora de um mundo novo, e por Deus, eu finalmente descobrira o que eu tinha de ser, mesmo com essas palavras saindo de mim como um parto atrasado que primeiro expõe o coração. 

Irritação


Ouvia o som vindo lá de fora. Alto-falantes acoplados em um automóvel emanavam um som esbravejante. O intuito era anunciar que o sabão em pó lavador de roupas está custando apenas R$4,90. E o quanto aquele som me incomodava! Irritante era a voz do locutor. Irritação. Será mesmo que alguém, ao ouvir aquele som irritante, resolve escolher aquele supermercado para comprar um sabão em pó?

Por isso ainda prefiro os folhetos promocionais. Eles não falam, apenas sujam a cidade. Mas servem também para embrulhar porcelanas ou forrar gaiolas com periquitos cagadores. Assim como os jornais, que desempenham excelente função no embrulho de peças de polimento na oficina do pai de um amigo meu, que, curiosamente, é jornalista.

Esse meu amigo me conta histórias engraçadas sobre o jornal que embrulha as peças tão bem. Ele me disse que não é raro o pai dele já ir logo embrulhando as peças polidas com a edição do dia, sem nem sequer ler uma notícia.

O meu amigo jornalista leva na esportiva o fato de que nem mesmo o seu pai acompanha o seu trabalho diário com o jornalismo. Faz chacota quando, por coincidência, encontra uma bela peça polida perfeitamente forrada com uma página contendo uma reportagem que demorou uma tarde inteira para ser produzida.

Fazia calor naquela tarde de janeiro em uma cidade pequena, insuportável e arrogante. Jornais espalhados pelo chão da sala ficavam se mexendo com a força do vento de um ventilador trazido do Paraguai. Foi quando, sentado em um desconfortável e pinicador sofá laranja, eu me lembrei da história contada pelo meu amigo jornalista sobre as peças forradas com as suas reportagens sanguinolentas. Foi quando, por um impulso causado pela raiva e pela irritação, peguei um revólver e atirei nas caixas de som daquele carro de propagandas e calei a voz do locutor que anunciava o preço da caixa de sabão em pó.

Jana


Nem tudo era assim tão difícil para Janaína, mas havia as generalizações, daí a vida acabava sendo sempre dura e complicada na boca de sua mãe, como na de milhões de outras mães. 

Jana ia para a escola, assistia televisão, mas lia pouco: não tinha muitos livros em casa, como a maioria dos brasileiros; mas tinha brinquedos. Não tantos quanto as crianças ricas, mas não tão poucos quanto as crianças pobres. Tinha-os, e gostava deles, passava horas e horas inventando histórias fantásticas de lugares bonitos e coloridos. E tinha amigos na escola, e uma professora bonita, de saia e cabelo compridos. Jana ficava olhando pro cabelo da professora, virando em suas voltas, correndo em suas retas e ficava imaginando se aquele cabelo tinha fim. O da mãe de Jana também era comprido, mas nem tanto, e fazia ondas largas, largas como as ondas do mar. Jana gostava do mar. 

Um dia teve palestra na escola. Sempre havia palestras na escola de Jana, mas aquela parecia ser especial. Surgiu gente séria e sisuda de todos os lados, e os professores de todos os períodos estavam lá. Até as crianças grandes, que costumam ficar do outro lado da grade, vieram com seus professores para assistir à palestra: devia ser muito importante. Sentaram no fundo: o espaço da frente era para os menores. Jana não sentou muito na frente, porque era alta, mas espichou o pescocinho bem pra cima para prestar bastante atenção no que a vovozinha lá na frente ia falar. Jana era estudiosa, e os pais sempre pediam para que ela contasse o que aprendeu na escola, desde que começou a estudar, bem pequenininha. Por isso, Jana não perdia uma palavra. Tinha que lembrar de tudo para contar ao pai quando fossem jantar. 

Passaram uns vídeos estranhos e tristes. Em um deles havia um homem bonito e brilhoso como o pai de Jana, mas não sorria o sorriso aberto do papai: ele estava triste e sofria muito. Tinha uma raiva no olhar da qual Jana nunca tinha ouvido falar. Ela se assustou, teve medo daquele olhar. E as pessoas lá na frente defendiam e bradavam forte, mostrando fotos e vídeos de gente acorrentada e dolorida. No fim de tudo, Jana descobriu que era negrinha, mas que negrinha era um jeito feio de falar, porque na verdade Jana era afro-alguma-coisa, por que o pai também era negrinho e a mãe tinha cabelo ondulado. Jana não entendeu muita coisa, mas sentiu bem direitinho que, no fundo, tudo aquilo era só para mostrar que ela não era igual aos coleguinhas da sala. E Jana nem sabia mais quem era. 

A vovozinha era brava lá na frente, e dizia que não existiam bonecas negrinhas, e negrinhos em propagandas da TV. Jana nem tinha se dado conta, porque até ali, para ela, todos eram só pessoas, não tinha diferença de quem era branquinho e negrinho, ou meio café-com-leite, ou branco-cor-de-rosa, ou bronzeadinho. Mas a mulher falava que era errado isso, porque era preconceito. Jana não sabia o que era preconceito, então ficou só escutando os outros falarem. E os alunos grandes começaram a perguntar e reclamar e falar coisas que Jana não entendia, e professores falavam alto e brigavam entre si. Uns diziam que já não havia preconceito no Brasil, outros diziam que sim. Uns defendiam umas coisas de cota na universidade, outros diziam que é ruim, falavam de inteligência, capacidade, possibilidades... Falavam de pagar pelo sofrimento, e alguém falou dos índios e imigrantes, que também sofreram muito. Jana não sabia como e porque tanta gente sofreu, mas sabia que só tinha sabido de sofrimento e dor e preconceito e cor e negrinhos a partir daquela palestra, então toda dor que ela tivesse, nasceria dali, e não da dor em si. A palestra era sua dor, por ver todos tão bravos e tão tristes. 

Jana começou a achar que ser negrinha era uma coisa ruim, e na saída da palestra, evitou a companhia dos coleguinhas, exceto de Rita, que também era negrinha. Mas só ficou do lado dela, não comentou nada sobre o que ouviu. Na verdade, depois de sair do auditório, ninguém mais falou nada sobre o que foi dito lá dentro. Todos estavam sérios e de rosto fechado, e Jana pensou como seria bom se pudesse pintar todos da mesma cor, ou pintar todos tão multicoloridos que de tantas cores não saberiam por onde começar a brigar. Ah! E pensar que tudo isso foi só porque a natureza tem tintas diferentes para deixar a pintura mais bonita... 

O pai bonito e lustroso de Jana ficou bravo quando ela chegou dizendo que era negrinha, e que não queria mais ser, porque era ruim. Olhou sério para ela e falou para ela nunca mais dizer isso. Depois, esquentou o almoço e pediu para Jana falar o que aconteceu na escola. 

- Mas eu vou contar no jantar, papai! 

- Sim, mas me fale alguma coisa agora, estou curioso para saber como foi. 

Jana pôs as mãozinhas na cintura e fez um muxoxo. Já era uma mocinha, e o pai se orgulhava dela. Inteligente, saudável, participativa. Oito anos muito bem formadinhos. Mas aquela história de negrinha... 

- Teve palestra sobre preconceito. Daí, falaram que quem tem pele escura é afro-não-sei-o-quê, e que eles eram piores que os outros, mas viraram melhores, ou querem ser iguais, mas não dá pra ser igual, né? Porque cada um é o que é, né? Então, falaram coisas estranhas e todo mundo ficou brigando. Acho que é culpa nossa, papai. 

- Nossa! Eles falaram isso aí de melhores e piores? 

- Sim. Bom, não... Ah, falaram alguma coisa de que os escurinhos tinham que ser tratados de um jeito diferente, porque não tem escurinho na propaganda de margarina que passa na TV, mas tem em propaganda política, quando dizem que vão ajudar os pobres. Mas a gente não é pobre, né? Mas é escurinho... 

- Nós somos iguais a qualquer outra pessoa, Janaína. Não é a cor da pele que faz você ser inteligente, como não seria a cor da pele que faria você não ser inteligente. 

- Papai, a mamãe é mais clara que nós dois. Ela é melhor do que a gente? 

- Não, Jana, não. Não coloca essas coisas na cabeça. Nós somos pessoas. Pronto. Imagina se a gente fosse ficar prestando atenção nessas degringolagens e ficasse sempre com a cabeça no passado. Já foi, já foi. As pessoas de agora não são responsáveis pelo que aconteceu no passado. Agora o que nos resta é fazer um futuro melhor. 

- Papai, gringo não é pessoa branca? 

- O quê? 

- Gringo. Você falou de degringo-degringolagem... é coisa de gente branca? 

- Pára com isso, Jana. Tira essas coisas da cabeça. 

Jana terminou de comer em silêncio, mas a cabeça ainda estava em turbilhão. O que tinha acontecido no passado para as pessoas estarem tão bravas hoje? Talvez pudesse perguntar para a mãe. A mãe e o pai sabiam das coisas, de muitas coisas, e se o pai não queria falar, talvez ela falasse. Afinal, ela era mais branquinha que ele...

A medula e o espinhaço


O que acho mais engraçado em “Kid estresse” é a forma organizada com que ele elabora o fino. É... mãos de artesão. Confecciona o cigarrinho como se fosse um grande escultor. A sutileza das mãos. Ah... Um espetáculo maior é a paciência, virtude que ele perde quando pisam em seu calo. E depois, ele tem razão. Ele é quem se arrisca pra ir até a boca, negociar, pechinchar e, às vezes, até discutir com os malditos fornecedores da “maldita”. Não digo “um isso”, quando ele fica puto. Prefiro calar. Prefiro ficar sempre a favor da tempestade e nunca encará-la de frente. 

Somos um bando de gafanhotos famintos. Kid é sempre pomposo e dono de todas as verdades do mundo. A última palavra sempre tem que passar pelos seus lábios. Passar lentamente naquela boca que só diz mentiras e meias-verdades. O nosso círculo é uma coroa de perdedores, de masoquistas, ladrões e punheteiros. 

O repúdio à vida convencional e blábláblá. 

Eles sempre me perguntam o que quero ser na vida; eu sempre digo a melhor coisa que vem à cabeça: NADA... 

Eles se desesperam, me mandam à merda. “Como pode ser tão imbecil este idiota?” ou: “Trevis, você merece o fardo que carrega”. Mas eu não ligo. Fico sempre na defensiva, afinal, eles são um bando de mulas teimosas e, no fim, todos acabam saindo pela porta dos fundos, à francesa. Como cachorros magros. 

Quem mandará os primeiros ossos? Sei lá... Não sei... as frases principais da turma. A incerteza e o seu calvário. As almas perdidas, saltitantes como gazelas à procura do cigarrinho queimando. Upa... Tô ficando numa boa. Epa... Passou por fulano e não voltará mais. É assim, é o nosso mundinho, condicionado em um círculo de aspirações que nunca passam pelo verdadeiro objetivo: SIGNIFICADO. 

Fico com tédio, levanto-me e saio andando em direção aos bares de Space City, formulando uma cura para minha guerra interior e particular. Vou andando, cabeça baixa, clamando aos céus e chutando pedras em direção ao inferno. Fico com raiva, dando um salto fodido da rua para o meio-fio. Equilibro-me como um gato. Dô um alô antes de rasgar o verbo. Trezentos tiros na goela da mentira. Dá pra encarar? 

Então, eu começo a pensar no futuro incerto que eu vou ter que encarar como um herói de literatura épica: “Sou Trevis Bico, pronto pra matar dragões e salvar donzelas dos Agentes de trânsito com suas canetas ameaçadoras”. Eles ligam o som do carro pra vazar uma música rápida como a minha escrita. Eu faço música. Dá pra ouvir? Um proseado assaltando os seus ouvidos, alugando a sua idéia com um “171” convincente e cheio de um rebuscamento lingüístico e metafísico. Que se foda isso aí... eu tô mais interessado no que aquela gostosa está pensando do que no assunto que o doutor está querendo dizer. Eu fico assim de longe, sacando aquele olhar que ela insiste em me mandar como se não percebesse a minha existência no local... “ei! (mas eu grito baixinho, ok) é com você mesma, eu sou o Trevis, ainda acredito no poder entorpecente de uma boa frase de efeito e um bom buquê de flores”. Vinho chileno? Só se o orçamento não comprometer a estrutura da bolha de cristal que me engloba clandestinamente. O segredo do negócio é dar início. 

Começar... começar vários mundos e ter a idéia de que não se consegue terminar nenhum. O começo, sempre, é o dente mais doloroso, a ferida mais ruim de ser cicatrizada. O mundo é uma cobiça de olhos grandes, travando batalhas colossais com a inveja. A mortalha tola do ciúme descontrolado, a vibração com o fracasso alheio. Ah... nada como um bom chute no rabo dos amigos da onça e o reconhecimento e a caridade de estranhos. Preciso estar sozinho pra me encontrar realmente. Preciso dar saltos, além da galáxia, com um elefante equilibrado no nariz para que os idiotas que dizem saber de tudo, perceberem que são menores do que uma estrela desenhada com giz branco no asfalto esburacado. 

Dizer que o homem sabe de tudo é o mesmo que jogar o bilhete premiado da loteria na lata do lixo. É um insulto à ignorância do mais humilde. Um afago sacana na cabeça do cego. 

Tenho três milhões de parteiras trabalhando na extração de um novo feto, microscópico, mas tão barulhento quanto à explosão do cogumelo atômico. Ele fará nascer um movimento tão doce, que essa doçura botará medo nos piores torturadores. 

É com a leveza das mãos bem cuidadas que esses canalhas matam criancinhas ainda em fraldas. É com a leveza das mãos que nascem os textos que serão lidos. Se um único idiota gritasse: “Chega!!!”, um outro perguntaria: “Quando!?” 

Ligue o som e vamos dançar como aloprados. A banda vai arrebentar os tímpanos dos que não querem ouvir esses acordes sujos. Se não souber dançar, arrebente a goela de tanto cantar, pois não vai sobrar muita coisa dessas pobres almas de papel... 

Então olhei minha imagem no espelho. “Eu sou de carne e osso”, concluí. Não tenho nenhum órgão formado à base de celulose. Não tenho afinidade com entrelinhas opacas e com consistências literárias empoladas e maquiadas com pó de arroz. Minha fronteira entre a sujeira e a limpeza completa dos sentidos está consistindo na imagem amarelada da privada do banheiro do bar do “papai”. 

Kid não me abandona nunca. Olho pro espelho e ele está lá, sempre mostrando como está ligado a mim como o casco de uma tartaruga que sobrevive numa água parada, doente e morta. Ligo a torneira da pia e a cascata de água e excesso de cloro vão banhando as minhas mãos e as de Kid. As mãos de um assassino e as de um maníaco depressivo. 

“Vamos escrever um roteiro e rodar um “movie” de terror, Trevis?” Não quero papo com Kid, ele me deixa doente. Faz meu amor desaparecer como uma gota d’água numa frigideira quente. Kid é um sujeito bipolar. Ele se fragmenta em duas imagens que, no fundo, não passam de gêmeos siameses abortados numa violência extrema. Kid é um soldado que gosta de esmagar ossos com seu coturno, sem muita complacência. Kid e eu somos antagonistas. Às vezes, acredito, arrancamos os pulmões da literatura e conduzimos a prosa falada aos mais baixos níveis de calão. Xingamentos, nesse caso, transformam-se em estrelas cinzentas, constelações pífias, atrofiadas por um monólogo rude e, por alguns instantes, desafinadas e distorcidas. 

Mas até quando eu ficarei dependente de Kid? Ou melhor, até quando eu estarei subordinado às suas maldades? Às suas “não-inclusões” em rodas de “amigos”? Em participações reais a determinados tipos de sentimentos? Quando eu estarei livre dessa camada grossa que cobre meus braços e pernas, parte do rosto, das mãos e das pernas? 

Olhando minha imagem fixamente no espelho, vi a metamorfose derreter a pele clara que cobria o meu esqueleto e dar nascimento a uma figura híbrida, com barba, um olhar voltado ora para baixo, ora para uma dimensão enclausurada entre o vácuo de uma aridez desértica, ora para os seios e pernas das acadêmicas que flutuavam em outra dimensão paralela, mais ajustada com a realidade permissiva à minha nova situação. Que desespero! Que condição miserável de ir e não sair do lugar. De ficar com os pés grudados no chão e a imaginação mover-se com a velocidade de um cometa enlouquecido em direção à órbita terrestre. 

“Um monstro!” Ouvi uma linda garota oriental gritar, assim que tirei os pés daquele cubículo com patente, pia e pinturas abstratas morando a 180 graus da linha do meu nariz e da imagem congelada da figura de uma mulher mostrando suas intimidades no teto da estrutura. 

A multidão, assustada com aquela figura bizarra, recém saída de um pantanal coberto por plantas aquáticas e pequenos corpos pluricelulares, debandou rua abaixo, aos gritos, aos berros histéricos, aos suplícios incontidos aos ecos das interrogações dos transeuntes que, à margem do acontecido, não sabiam realmente o que estava acontecendo. Estavam literalmente alheios à grande explosão de personalidades que passava por um filtro dentro de um grande caleidoscópio de dúvidas e olhos curiosos. O monstro decidiu sentar-se no banco em frente ao balcão e pedir uma cerveja gelada. Sua sobrevivência, naquele instante, dependia daquela mistura etílica. 

Acho que o “Papai” ficou meio hesitante em encarar o monstro de frente. Seus olhos denotavam medo, denotavam uma desconfiança terráquea naquele “cara a cara” com o monstro de dois olhos, dois braços, duas pernas e um certo tipo de ar de distância e descaso com o resto do planeta, que na sua opinião, poderia muito bem ser chamado de LAMA ao invés de TERRA. 

“Há muita água pra pouca terra, chefe.” 

Era um monólogo sussurrante para o próprio monstro, mas ele venderia sua mercadoria, ah, sim, venderia. 

“Qual cerveja?” 

“A mais gelada.” 

Por um instante o som do copo invade os ouvidos do monstro, depois, o da garrafa sendo aberta. Um gole... silêncio... solidão... 



Trevis? Kid? É debaixo do pé de flor que eu emaranho o meu laço de fita. Afinal, eu tava pirando. Eu sei muito bem separar um Céline de um Sartre. Um Bandeira de um Drummond. Um Balboa de um Tyson. Mas como, meu santo Francisco de Assis, separar Trevis de Kid sem qu’eu destroçasse a massa visceral da carapaça ou vice-versa. No primeiro pensamento, pensei qu’eu poderia pensar em dar uma de malucão e sair correndo no meio de qualquer avenida da cidade pedindo pra que alguém descesse a lenha nas minhas costas com um açoite de ponta de pregos. Talvez, Kid fosse enxotado pelo sangue jorrando de alguns dos talhos nas minhas costas. Kid seria expulso, voando sobre uma prancha de surf, tendo como fundo musical o cover de alguma velharia nostálgica e maravilhosa dos irmãos Wilson interpretada pelos garotões do Brian Oblivion. Moralidade... subversão... pantomima... escarro... purulência... pusilanimidade... aversão... 

Sinto um leve toque feminino no meu ombro. Quem será essa criatura misericordiosa? 

“Você tá legal?” 

Em tantas galáxias, em tantas constelações onde a égide defende-se dos golpes dos guerreiros, onde as musas cantam para os bardos mortos ao lado de rios de lágrimas, rios de sangue, outrora vindouros de uma vida plena em canais internos. Eu desço do meu cérebro em revolta e pergunto: “Quem és, bela ninfa?” 

“Você tá legal?” 

A paixão é chaga aberta. É colírio leitoso nos olhos do louco. É vermelhidão ao encontro da lucidez. Enamoro-me. Há vida. Há vida... 

“I don’t know.” 

“Como não sabe? Você não sabe que na simples constatação de não saber, já sabemos?” 

Sabedoria mesclada à beleza. Sabedoria deitada nua sobre a ponte do rio Ivaí. Caminhões... carros... motocicletas... peixes... lixo... 

Ela insiste nas interrogações. É um milagre. 

“Por onde você viaja tanto? Parece estar aqui e acolá, benzinho, assim não dá?” Ela diz sorrindo. 

Não se canse de mim, eu imploro musa dos bueiros, dos náufragos em si mesmos, Narcisos imersos em cerveja cara e de qualidade dúbia. Não se vá Ambrosia dos semideuses. Iâmbico destronado dos corcéis épicos. Eu imploro... 

“Não sei exatamente por onde ando, mas eu preciso ir ao banheiro, sente-se aqui, pegue um copo qu’eu já volto...” 

“Eu não bebo, espera, aonde você vai?” 

“Eu volto... eu volto... eu juro qu’eu volto” 

Sobre o cérebro ululam idéias em perpétuo transe. Que coisa mais louca ter que voltar onde já se estava antes pra tomar uma decisão sobre falar ou não falar. O amor está ali, cara, bem ali, em frente ao balcão, esperando que você levante a sua espada de guerreiro impotente diante da timidez. Vá Himeneu de tantas batalhas! Vá à procura de um bom buquê de rosas vermelhas ou flores do pântano. Aonde vão esses insetos alados que insistem em levar-te ao Hades? 

Olhei novamente pra cima, pras pinturas, pra abstração de mim mesmo. Estavam vivas. A primeira sentença foi da mulher. 

“Ô malucão! Vê se não fica choramingando aqui dentro do banheiro, pensa que não tem um montão de gente lá fora querendo mijar ou dar umas cafungadas?” 

O homem também não foi complacente. 

“Você tá marcando, meu, a garota tá lá fora esperando que você tome uma atitude e você vem aqui pra dentro desse cubículo pra ficar falando consigo mesmo? Se liga, otário?” 

Fiquei olhando pras figuras do teto e não havia outra alternativa diante de um tremendo bombardeio de opiniões como aquele, se não, o velho, bom e popular... 

“VÃO TOMAR NO CU.” 

Saí de lá como se carregasse uma metralhadora Thompson nas costas. Olhares espantados e desdenhosos vinham de vários lugares. Mas onde estava a minha musa admiradora de seres que saem dos bueiros? O banco estava vazio. Apenas o calor morno deixado por aquela nádega que outrora fora minha película de onanismo. 

Querem qu’eu tome uma atitude, não é? 

Engatilhei a metralhadora Thompson e abri fogo contra todos os que tinham os olhares de desdém voltados para sua mira. Sobre os corpos dos inimigos, deixei apenas a poeira do meu tênis, junto, claro, com uma certa preocupação que fazia par com as luzes dos postes de energia elétrica. Por onde andará a minha musa? 

Desci a rua dos bares à procura de uma segunda chance, enquanto que sobre o asfalto carcomido da avenida, o sangue lavava as mágoas de antigas batalhas... 

Mas eu não era um idiota, um mendigo, um perdedor, um assassino. Eu era no máximo um vagabundo encruado em mim mesmo, levando na “cacunda” um maníaco capaz de mastigar os anulares do rei Xerxes fazendo uma tremenda cara angelical, como se nunca tivesse arrancado o globo ocular de uma gata angorá com cinco filhotes pra amamentar. 

Mas eu desci a avenida, pronto pra encarar aquilo que eu tanto necessitava, e sem nenhuma dúvida, era aquela garota, a musa que havia tocado as costas de um expurgo naturalmente abortado por uma contração espontânea. 

A vi atravessando o portão principal da universidade pra depois entrar em um dos blocos. Corri como um Hermes apaixonado. Corri mais do que meus pés podiam agüentar. E sobre o meu olhar vertiginoso, pude vê-la sentada em um banco, suas pernas contraídas, amassando toda a extensão do tórax. Seios esmagados. Coração pululando numa tristeza infinita. Ela chorava. Não gostei de vê-la sofrendo. 

“Desculpa ter deixado você lá me esperando. Às vezes sou um tremendo imbecil, quero dizer, na maioria das vezes”. 

Ela sorriu. 

“Não sei cantar e nem dançar, o quê posso fazer pra agradar você?” 

“Senta aqui comigo”. 

Por um instante senti Kid me esmurrar as costas. Senti sua picareta querendo perfurar meu crânio num golpe violento. Mas juro por Deus que, quando ela entrelaçou suas mãos em minha nuca, e num leve beijo sua língua invadiu a minha boca, a prancha de surf arrebentou as minhas costas e, com certeza, Kid mergulhou diretamente contra um recife de corais, dilacerando sua raiva que sentia contra o resto do mundo. E, no entanto, eu participava de um milagre. Era sim. O milagre do amor.

Contemplação


Há três minutos - por aí - falara pela última vez; e isso era estranhamente inusitado. Nunca era assim - a verborragia, a prolixidade, ..., onde? Após a conclusão do ato (e isso fazia parte do seu ritual), deixava sempre aberta a torrente irrefreável de observações. Não naquele fim de tarde - 18h e minutos quaisquer, hora de verão, Avenida Cerro Azul (pra baixo um pouco daquela praça que margeia a JK, num prédio alto). Sentou-se na cama, diante do espelho, e passou, durante todos aqueles 180 segundos, as duas mãos em seu cabelo. 

- Minha filha disse que eu devo cortar. Você concorda? 

Olhei-a um tanto quanto surpreendido; aquele inédito silêncio fizera-me (seria possível?!) esquecê-la. Pigarreei, recobrando a voz. 

- Cortar...? 

- O cabelo. Devo? 

Preferi observá-la – resposta pra quê? Estava imersa além do habitual. Onde? 

- Ela não entende nada e quer me dar conselhos. Só pra você ter uma ideia: sabe como ela foi pra faculdade hoje? – piscou os olhos de uma maneira elétrica – Horrível. Simplesmente feia. E ainda quer que eu a escute. Não corto e pronto. 

Ajeitei-me buscando uma posição confortável. O colchão dela era excessivamente macio - circunstância percebida nas duas vezes anteriores, mas que incomodou-me nesta terceira. 

- Na idade dela eu já estava casada. – enfim liberou as mãos daquele gestual ininterrupto vinculado à escovação capilar. 

Pôs-se ao meu lado, pegou minha mão esquerda e a pousou em seu seio direito. 

- Sabia que eu tenho maior sensibilidade neste aqui? Sempre foi assim. 

Deixei a minha mão sob a dela, em contato com um mamilo levemente intumescido. Seu rosto sofreu uma oscilação abrupta na expressão - isso muito me espantava nela; suas feições não variavam de forma gradativa, tênue, sutil – eram mudanças bruscas, violentas, como se alguém jogasse um balde com água fria sobre o palco e surpreendesse a atriz. Ah, o despreparo... 

- Tive um namoradinho, faz pouco tempo, que falava que isso é culpa do silicone, que teria me extirpado o peito esquerdo. Afirmo que não; sempre foi assim. - e me olhou com uns olhos bem abertos, sustentando uma máscara contrariada. 

Retirou a minha mão de seu seio e a colocou aonde a tinha encontrado - porém, como que atingida por uma corrente insondável de componentes químicos, tornou a pegá-la e, desta vez, a pousou sobre a minha coxa esquerda, diferentemente do lugar original; suspirou um tanto quanto satisfeita. Levantou-se e aproximou-se do imenso espelho afixado na parede frontal à cama; virou-se de costas e observou suas nádegas. 

- Vou ter de trocar a minha série de exercícios. Olhe só quanta flacidez... – e imediatamente tornou a vista pra mim, aguardando meu posicionamento. 

Preferi redirecionar os meus olhos para a sua barriga. 

- Tenho feito muito abdominal. – disse ela, prontamente, em frenética conexão à minha condução visual. 

Voltou à cama. Olhou pro meu nariz (sim, pro meu nariz). 

- Tem muita mulher na academia se separando, também. Dou o maior apoio sempre que posso. Falo que é a melhor atitude a se tomar. 

Mordiscou a lateral da unha de um dos dedos da mão esquerda. 

- Uma lá está separada há um mês. Aconselhei-a muito pra que tomasse coragem. Mas, pelo que percebo, está arrependida. Fazer o quê? Tem mulher que não sabe viver. 

Puxou o travesseiro, arrumou o cabelo, coçou o pulso da mão direita com os dedos da esquerda, deitou a cabeça. 

- Fui numa loja ontem e a vendedora me elogiou, disse que tem muita menininha por aí que não tem a metade da minha forma física. 

Novamente a mudança vertiginosa de expressão facial. O balde despejado, a inabilidade, a ausência de linearidade, o percalço - simples como a existência das mudanças -; mas ela rejeita - e a plasticidade?!. O assombro. 

- Ela diz que sou ridícula. Inveja. A desejada sou eu. 

Enlaçou os dedos de sua mão na mesma mão que havia deixado sobre a minha coxa. Conduziu-a, desta vez, para o seu pescoço, para a sua nuca, para debaixo dos seus cabelos. Massageou-se utilizando-se de um tecido epitelial alheio - e isso a fez abrir um grande sorriso, expondo todos os seus dentes artificialmente brancos. 

- É bom, não é? – questionou-me (questionou-me?!). 

Ficamos nesse quadro por algum tempo, até ela decidir parar. Devolveu a mão alheia ao seu dono, recolheu o sorriso, trocou de máscara (abrupta, abrupta...), voltou pro espelho. Acompanhei tais movimentos com algum cansaço. “Alguém a afaste do rio! Irá morrer afogada!” Dedicava-se, agora, a redesenhar o nariz com a ponta dos dedos. Depois, como que atormentada por um barulho que apenas ela pudesse captar, virou-se bruscamente de costas e deitou a mão espalmada sobre a banda direita das nádegas. 

- Tanta dedicação e ainda tenho de conviver com isso... 

Bocejei - e sequer fiz questão de disfarçar. Levantei-me, vesti a cueca, a calça, a camisa (presente da namorada), o sapato. Entretida com seu reflexo, demonstrava-se tão absorta que receei despertá-la. 

- Vou indo. – sentenciei. 

A água fria na cabeça, o desequilibrar, as gargalhadas da plateia, a auto-comiseração, o choro, o vazio. 

- Calma. Não quero que você vá. 

Pegou uma toalha (mais alaranjada impossível) e a enrolou em seu corpo. Veio em minha direção e tapou meus lábios com seu dedo indicador direito. 

- Não quero. – repetiu, peremptória. 

Ficamos ali, com os rostos muito próximos, durante um longo tempo (e quando dois rostos estão assim, em vias de se tocar, até mesmo vinte segundos adquirem amplitude indefinível, tamanha é a quantidade exposta de informações - por vezes, à revelia). Ao cabo deste ato - o mais importante, talvez - as cortinas se fecharam e ela entrou no banheiro do quarto. Não entendi se sinalizava, com esse súbito recolhimento, uma autorização tácita à minha retirada ou se almejava submergir para, em seguida, empreender um reaparecimento triunfal. Na dúvida, optei pela espera. 

- Você não entende. – foi o que ela pronunciou ao sair do banheiro, sem a toalha e com uma expressão insípida. 

- E também não critico. – falei, com algum desprendimento calculado. 

Tornou a passar as mãos no cabelo e a coçar o pulso. 

- Antes a pena à indiferença. – disse, caminhando em minha direção e estacando, logo em seguida, a uma distância de passo e meio. 

- Nem tudo pode ser controlado. – ao ouvir isso, confrangeu o rosto. 

Uma leve risada foi-me incontrolável – e nesse momento ela entendeu tudo, assim como eu. O balde, a água fria, a correria, a camareira acode a mulher prostrada diante de uma plateia que ri de forma histérica, que atira tomates, que vai embora como se nada tivesse acontecido, e a camareira some, e a água evapora logo, e a cortina cai, e as portas se abrem, e o teto se abre, e está noite, e está frio, e está chovendo, e a moça chora, a moça grita, a moça ri, a moça dorme. 

Atirou-se na cama com o rosto virado pra parede. Era a deixa. Fui embora pra nunca mais voltar.

Ao meio-dia


Sol de meio-dia. Tudo ao redor queima e um vapor denso sobe do asfalto para a mente de Luana como o perfume que tem a tontura de quem está prestes a desacordar debaixo de um sol quente de meio-dia de início de verão. As pessoas se reúnem em torno e ela não tem bem certeza do que está fazendo ali, quer apenas que aquele dia termine e ela possa estar de volta em seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente segura e tranquila. Mas aquelas pessoas todas olham para ela como se vissem um animal estranho e ela não consegue perguntar por que, pois está tonta e confusa e as palavras parecem fugir-lhe pelos cantos de sua mente como crianças, como crianças que brincam na grama. 

Alguém toca de leve em seu corpo e diz alguma coisa com um olhar preocupado, mas ela não entende exatamente do que se trata. É uma pessoa que está contra o sol, as pessoas não deviam ficar contra o sol, elas machucam nossa visão e não sabemos quem são. Luana não gosta de não saber quem é. 

De repente, não tem noção de si. Não tem bem certeza de onde ficam os limites de si. Até onde ela é? Não sabe. Alguma coisa aconteceu, é certo, e Luana sabe, pois agora seu braço começa a doer, e sua cabeça está muito confusa. Luana não consegue coordenar a si, não sabe mais que ordem deve dar ao seu corpo para ele levantar, e tudo o que queria agora era estar em seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente segura e tranquila e pode esconder seu coração desse mundo hostil. 

Mas, de repente, está confusa e não tem noção de si. Onde estão meus limites? 

Alguém segura seu pescoço dizendo coisas que são incompreensíveis, como se viessem de muito, muito longe até seus ouvidos, contra o sol. As pessoas não deviam ficar contra o sol. Mas agora só queria estar em seu quarto, pois... o mundo é hostil? 

Luana podia não estar debaixo do sol do meio-dia. Tudo foi culpa de apenas uma palavra. Mas é a palavra a chave do destino? Se sempre soubéssemos o caminho correto, creio mesmo que tentaríamos sempre caminhar por ele, mas como saber? Qual é a palavra certa a se dizer? Qual é o caminho? 

Mas ele não falou. Ela só pediu para que ele dissesse, era apenas uma palavra, e duas vidas estariam mudadas. Se seria bom ou mau, é impossível afirmar, mas uma ação diferente tem consequências diferentes, e por toda a vida caminhamos fazendo coisas que excluem milhões de possibilidades que são nosso não-fazer. Mas qual é o caminho correto? O sol parece subir do asfalto e as costas de Luana estão quentes. O braço dói. E tudo o que Luana queria era... onde está? 

Ela está parada em frente daquele portão velho. O muro baixo e cheio de musgo já é seu familiar, muitas conversas em sua mente têm o cheiro daquele verde. Sua pele está acostumada ao verde mais verde do musgo, mas o sol que sobe do asfalto machuca e deixa Luana confusa. E ela tem certeza, ela tem toda a certeza do mundo quando diz: “Me peça para ficar, apenas me peça para ficar.” Ela depositaria toda sua vida no verde daquele muro se ele dissesse “fique!”, mas ele abaixa os olhos e ela não entende por que as pessoas ficam contra o sol, isso machuca. 

Ele baixa os olhos e não há palavra a ser dita, mas ela já tirou sua vida de dentro de si, precisa depositar em algum outro lugar, precisa entregar a ele na sombra que bate nesse muro, caindo da árvore mais perfumada mãe que Luana já tocou. Sua vida não cabe mais em suas mãos e ele não lhe estende as dele para sustentá-la. 

Mas se ele apenas balbuciasse ‘fique!’, ela teria entendido e depositaria o sol daquele meio-dia em suas mãos. Não. Luana está confusa. Não é o sol, é sua vida. Sua vida não é como o sol, mas ela esteve brilhando muito durante os dias que passaram juntos. E o calor do colo dele não é como o calor dolorido do asfalto, é suave, ameno. Não fere como esse asfalto de meio-dia. Essa luz. E Luana apenas queria que pudesse estar verde no muro da árvore que iluminava a calçada mais amena que já visitou e fique! Era apenas uma palavra contra todo aquele sol, é claro que ele não resistiria, nunca foi tão forte, mas ela perdoava sempre, porque isso é amar, não é? Luana quer que deixem em paz suas pernas e pescoço e prestem atenção a suas dúvidas. Tem tantas dúvidas desde que pedira para ele ‘me peça para ficar’ e o rosto baixou, e deve haver mais alguém lá dentro, porque ele não me tocou. As pessoas a tocam, devem estar mexendo em suas pernas, mas ela não tem certeza, está sol de meio-dia e o asfalto é confuso, já não pode precisar há quanto tempo está guiando sem rumo na bicicleta que ele comprou no último dia dos namorados, e naquele dia guiaram juntos cada um em sua bicicleta, mas é estranho porque não tem tanto sol. Chove um pouco nesse dia, um dia dos namorados chuvoso, mas saíram de bicicleta para molharem os rostos felizes e, quando voltaram, tomaram banho e beberam chocolate com leite vendo um filme alegre, ele dá mordidinhas em seu pescoço, mas não é dessa vez. É no anterior. Dessa vez ela resfriou por causa da chuva, mas ele sempre cuidou dela. Da outra vez teve um urso, e ele fingia que o urso atacava quando dava mordidinhas em seu pescoço. 

Alguma coisa gira e brilha e pára perto de Luana e tem gente de todo lado, e barulho, e alguém asfalta. Não. Alguém afasta as pessoas porque precisam passar e pegar o sol do meio-dia que está de pescoço mordidinho no chão. Colocam de uma vez para não doer, mas eles não sabem que já dói tanta coisa do lado de dentro que uma dor a mais ou a menos nem faz muita diferença, pois, no fim, ele realmente enjoou dela e abaixa a cabeça, não tem verde no muro. Mas deve ter mais alguém lá dentro, porque ele não me beijou, mesmo depois de uma semana longe. Luana treme quando ele pede um tempo, diz que vai espairecer, mas ela é a forte dos dois, então sorri e entende que ele queira um tempo sozinho antes que ela deponha sua vida nas mãos que brincavam com seus cabelos no verde. Mas isso foi antes, agora parece um contraste, essa cor é vermelha ou é o sol que confunde a visão? Ele pede um tempo e tudo o que Luana quer é que o dia acabe e ela possa estar novamente em seu quarto, é só em seu quarto... 

Desde a primeira vez ela soube que ele era o mais fraco, por isso ela perdoava, aquela moça é uma sem-vergonha mesmo. Piranha. Fica dando em cima do namorado de outra pessoa, queria ver se fosse com ela. Ela sempre soube que ele era fraco, ela não consegue responder o que perguntam, mas entende quando lhe dizem para manter os olhos abertos, responde com a expressão confusa, porque não tem bem certeza do que está fazendo ali, quer apenas que aquele dia termine e ela possa estar de volta em seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente segura e tranquila. 

E eles conversaram tanta coisa na frente da sombra verde, mas ela não consegue se lembrar. Lembra apenas que ele abaixa a cabeça e ela insiste ainda, com a voz cheia de lágrimas, e ele apenas aperta os lábios dela contra os dele. Não. Isso foi na primeira vez, ele estava sobre ela e apertou os olhos com força, pressionando os lábios contra os dela, mas não estava tão calor, e nem tinha tanto barulho ou buracos na pista, era inverno. Mas na sombra verde ele apenas abaixou os olhos e fechou mais os lábios, como se estivesse costurado de falar. Luana abriu muito os olhos cheios de névoa, e sem chorar, com tudo quebrado e doendo por dentro, sangrou a bicicleta avenida abaixo, não sabia há quanto tempo estava guiando quando descobriu que era meio-dia. O sol estava muito em cima e as pessoas apareciam contra o sol, tudo brilhava muito contra o sol, qualquer coisa era repentina como uma resposta não dita, como uma máquina que fizesse uma curva. O muro tinha um musgo vermelho com cheiro de sangue. 

Se tinha trovão ela se encolhia, ele apertava Luana contra o corpo e ria, boba, é só um trovão, é a voz da chuva, mas se tudo chovia por dentro dela, qual seria o barulho da chuva? Luana se lembra da buzina, teve uma buzina que era meio vermelha e gritada, não era trovão, então ela não gritou ou fez escândalos, ela deu as costas, montou em sua bicicleta e partiu, e esperava que fosse para sempre, mas de repente era meio-dia e algum sino buzinou um musgo vermelho dizendo que devia ter alguém lá dentro. Piranha. Ele não me beijou. Ela tinha mascado chiclete verde de menta e passado brilho de fruta vermelha na boca, mas ele abaixou a cabeça e ela só queria que ele pedisse para ela ficar. São caminhos estranhos esses que nos levam adiante, as palavras que dizemos ou deixamos de dizer podem mudar toda uma vida, e sempre deixamos para trás os caminhos que não pudemos escolher quando decidimos por um deles. E isso porque ela podia ter ido por outro caminho com menos sol, mas tudo o que fosse verde lembraria que ele abaixou a cabeça, e ‘me peça para ficar’, ele pediu um tempo. Era meio-dia, temos metade do tempo, ‘me peça para ficar’. Evitamos outros caminhos quando nos decidimos por um, e ela podia ter esperneado na calçada, xingado, batido no peito dele, mas ela sempre foi mais forte, ele era fraco, por isso ela perdoava. Ela deu as costas e sangrou seu peito avenida abaixo, com o sol ofuscando suas lágrimas de meio-dia no asfalto vermelho da ambulância, o sino tocando a buzina que são as cornetas dos anjos que anunciam o Reino dos Céus, a palavra que não foi dita e evita os caminhos que não foram escolhidos, as portas enfim são brancas como as paredes do seu quarto, só em seu quarto sente-se realmente tranquila e segura, as pessoas vestem branco e já não há sol, as lâmpadas são como estrelas mortas, e ela só queria que ele lhe pedisse para ficar...

Esquinas Desertas


Maringá impregnou em mim.
Certa vez, saí por aí
de madrugada,
empreitada arriscada.

Essa história começa
com as pernas dormentes
de quem sabe que algo está errado.
Abri a porta
que soltou um rangido rouco
reclamando de ser acordada
pelo aventureiro inesperado.
Na verdade, dessas verdades que sabemos mas não falamos,
eu estava saindo atrás da morte.
Encafifei de encontra - lá em uma encruzilhada
no ponto de ônibus, na praça
no balanço, na rua conhecida.
Ao contrário do que todos pensam
encontrar a morte não é assim tão fácil.
Ela não tem cartão de visitas,
página na internet, listas amarelas.
Quando se quer encontrar com ela, tem que se procurar bem.
Foi nessa premissa que andei
e procurei.

Na ida, não achei a dita cuja e,
quando estava voltando
ali da Av. Morangueira
perto da Uem, ouço um chamado:
'onde vai, tão apressado?'
'Quem eu esperava não veio
me vou agora porque de tanto esperar
já estou de saco cheio.'
'Ora, mas você marcou hora?'
'Não. Pelo que dizem ela está, sempre, em todo lugar'
'Deixa de ser bobo menino, não é tempo de ficar
indo e vindo.'

Fui dormir, como de costume, de lado.
E vi um vulto, sentado
na cadeira que em frente ao computador fica.
'Esteve me procurando?'
'Sim'
'Não sabe que sou eu que procuro as pessoas? Não gosto de ser achada.'
'Perdão, mas eu só queria tirar uma dúvida.'
'E qual seria?'
'Ser achado por você é melhor do que em vida
nunca se encontrar?'

Passou em frente à lotérica e quis metralhar todo mundo


Passou em frente a uma casa lotérica e percebeu considerável fila invadindo a calçada do estabelecimento. Pessoas com alguns papéis nas mãos e com caras de poucos amigos. Raciocinou e se recordou que era dia 20 do mês, data em que muitos recebem um adiantamento do salário. Estariam pagando as contas? Ou seria a Mega Sena, prometendo pagar, no dia seguinte, quase R$ 50 milhões? Por uma fração de segundos, vacilou, sentiu sua pressão cair, não controlou bem seus pensamentos e quase pegou no banco de trás do carro a metralhadora que acabara de utilizar, não fazia nem vinte minutos, em um assalto à banco. Em uma rajada de balas só, veria corpos caindo ao chão e papéis picotados de documentos, que já não valeriam mais nada, flutuando no ar. Depois do som ensurdecedor causado pelos trovões de sua arma, sairia dirigindo tranquilamente pela ruas, ao som de um velho e bom blues. Ao ouvir a buzina do carro de trás, meio sonolento e assustado, sentiu um calafrio e quase afogou o carro ao pisar no acelerador vacilante. Em poucos minutos, conseguiu se livrar daqueles pensamentos tórridos e também do trânsito caótico. Já na rodovia, sentiu a refrescância do vento batendo em sua cara, momento em que notou que havia suado frio e que poderia estar com um princípio de febre. Acendeu o último cigarro do maço e se deixou levar pela sonoridade da música enquanto olhava as plantações de milho ao lado e imaginava o quanto seria bom ter uma garrafinha gelada de refrigerante para beber. Parou em um posto de gasolina para comprar uma lata de Coca-cola. Já com a lata na mão, destravando o alarme do carro, quase não conseguiu controlar a bambeada de suas pernas ao ver, bem ao lado do seu carro, um viatura da polícia. Nada fez, o enfardado. Apenas se concentrava no ato de devorar um cachorro quente melecado de mostarda e catchup, que parecia já ter sujado seu uniforme. Devagar, nem sabe como conseguiu entrar e ligar o carro. Saiu. Olhou para trás. Olhou para a frente. Nada nem ninguém, a não ser o asfalto eterno, o acompanhava. Começou a rir alucinadamente! Tomou sua lata de refri quase quê de um gole só e acelerou o seu Gran Torino 72.