Crônicas encruadas



A dor é estranha. Um gato matando um passarinho, um acidente de carro, um incêndio... A dor chega, bang, e aí está ela, instalada em você. É real. Aos olhos dos outros, parece que você está de bobeira. Um idiota, de repente. Não há cura pra dor, a menos que você conheça alguém capaz de entender seus sentimentos e saiba como ajudar.
Charles Bukowski.



Dom
Renasci aos trinta e cinco anos. Ou pelo menos acredito que sim. Praticamente tombei morto durante esse período de ganhos, perdas e empates. Mas já está fazendo mais de um ano que saí de casa e ainda não retornei ao útero caseiro. Nenhuma normalidade em meio ao meu caos particular, no meu quartinho de sacrilégios, quando a madruga insiste em querer botar suas garras de aço em minha carne emplastada de solidão e toxinas.
Depois da minha partida aluguei um quartinho nos fundos de uma residência de uma família de protestantes. Eles são legais, nunca ficam me enchendo o saco ou querendo me converter.
Às vezes também rezo em silêncio. Há momentos de uma incomensurável solidão em forma de um câncer que me mastiga pedaço por pedaço. Mas não grito. Permaneço em perpétuo silêncio choroso, apenas com dois rios caudalosos sobre a face de um homem que por um destino fudido e mal pago, sempre tem que passar por um parto para poder usufruir de um pequeno momento da vida, alguma regalia, ou um afago de mulher.

Mulher!?

É estranho e engraçado, (é claro, do ponto de vista de quem não está emocionalmente envolvido) quando você olha para uma vitrine nas ruas da cidade e vê a imagem de um homem jovem que parece que teve a vida cerceada por um solavanco que mais parece com o puxão da cauda de um cometa devastando todo o sistema solar. Ficar assim, encruado, com a alma pesada, parecendo um saco de lixo que contém todo o lixo do mundo, ou pelo menos da minha cidade de porte médio fincada em meio ao norte do Paraná.
Maringá, cidade que as árvores respiram o monoxo de carbono dos milhares de carros que trafegam por suas ruas e avenidas estreitas como veias entupidas com vaselina ou gordura de torresmo de porco. Cidade por onde os automóveis buzinam as impaciências de seus condutores que se esgoelam em palavrões ou gestos obscenos. Tudo no estilo: “Não me olha torto ou te quebro”.

Quando ando a pé pelo centro da cidade, na maioria das vezes, sinto a morte passar por mim como um grande carro envenenado que desliza em meio à uma pista de corrida que levará o condutor ao encontro de um mar imaginário que teria sua praia mais significativa às margens da Avenida Colombo.
Há momentos em que me desvencilho de uma mochila carregada de cólera e um coração selvagem à medida de um enfarte. Mas nunca morro. Acho que a grande sacada de um sujeito encruado é que ele é uma espécie de Quixote às avessas. Ele tem consciência de que está realmente diante de um moinho de vento, mas ao invés de levantar sua lança e matar o possível monstro imaginário que o ameaça com sua altivez, esse “herói” não avança com gana e a robustez de um personagem principal de um romance moderno, ao invés disso, fica olhando pros lados à procura de uma corda potente para pendurar em uma das hélices do moinho e se enforcar, assim, sem despedida.

&
Falta uma lâmpadaNunca gostei de despedidas, mas o suicídio sempre me atraiu. Deus me livre, você deve estar pensando, mas e daí, não gostou? Vá ler Bianca. Ninguém é obrigado a ler o que não gosta. Mas na maioria das vezes somos forçados a fazer o que não gostamos. Somos reféns da maldade, do amor, da inveja, da intolerância, do vazio, da amoralidade, dos subterfúgios, da ignorância e até mesmo da felicidade.
Quando saí de casa, meu coração ficou pendurado na ponta da lança do portão, ainda batendo, ainda vivo como aquele amor antigo que a gente sempre lembra ao tocar alguma música no violão. Aquela antiga emoção que nos parecia morta nos surpreende como um Lázaro do século 21, totalmente exposto, cordeirinho pronto para o que vão dizer a seu respeito. O que vão declarar em sua ausência febril de mendigo chique criado sempre pelo amor de mãe.
Mas quando cheguei ao quartinho dos fundos, eu não acreditava mais em coisas como os romances de Segal, nem na adaptação cinematográfica que vivia sendo exibida em minhas sendas de animal descontrolado. Love Story. Amor nenhum pede perdão, pois se pedir, não é puro, não é imaculado. Eu era sujo. Meu amor era sujo. O amor de Berenice também. Mas ela insistia em ser perfeita. Que de perfeição, apenas sua simetria corporal exalando tesão e adultério em relação ao restante dos pobres mortais.
Depositei minhas tralhas naquele quartinho e coloquei a mão sobre a minha cabeça, que não se desvencilhava de raios e lampejos de lembranças de que eu acabara de me livrar. Quem eu queria enganar, eu estava me sentindo um lixo e mesmo assim eu queria me enganar.
A humanidade, desde sua gênese tenta se enganar. Tenta com tanta afinidade, que por vezes, acredita em sua própria mentira a ponto de transformá-la em verdade. A sua verdade. Mesmo que seja uma verdade purulenta dentro de um quartinho infestado de baratas e paranóia. 
Afastei as malditas e nojentas baratas e fiquei assim olhando para o ventilador de teto. Por Deus, tenho um ventilador de teto. Tenho que me resiguinar dos palavrões e maldições que saem da minha boca. Há um ventilador nesse quarto quente e fechado. Minha desgraça, enfim, se alegra no horizonte incerto da minha nova vida.

&


O exílio tem um compromisso com os dias de chuva. Pingos d’água acabam por transformar a minha mente numa piscina de ilusões transparentes por onde passam monstros aquáticos capazes de infestar cidades inteiras. Eles implicam em me atazanar a vida, principalmente quando vou me deitar, me recolher numa solidão corroborada em aspectos de bizarrice e ternura. Às vezes, paranoica, angelical e até mesmo um sentimento repulsivo conforme o estado em que se encontra a pobre mente atordoada do narrador aqui que vos fala.

Mas as noites aqui dentro da minha prisão, não me ajudam em nada no sentido de me engrandecer como ser humano. Fico olhando pro teto, coçando a barriga e tentando em vão me alegrar por ainda estar vivo.

A situação faz com que eu entre em uma cápsula do tempo e volte para o passado, para o exército, pra ser mais exato, na unidade do Tiro de Guerra, aqui de Maringá.

Lembro de quando o sargento do meu grupo de combate perguntou para a turma qual era o maior bem que o homem poderia ter, e ele, sem nem ao menos esperar alguém responder, respondeu por todos nós...

“A vida”.

Bem, estou vivo, mas não sei se é o meu maior bem, pois que tipo de vida é essa em que fico olhando pro teto, matando baratas, batendo punheta e deixando a barba e as olheiras crescerem? Não dá. Eu sabia que aquele Sargento não estava e nunca esteve com a razão. Ele, talvez, estivesse direcionando tudo para seu umbigo cósmico caseiro. Imagino que deveria ter uma boa esposa, filhos, e claro, um grupo de combate para comandar e desmandar a seu modo.

As primeiras semanas em que fiquei sozinho foram tão estranhas que eu me sentia como um amputado com a lembrança do órgão decepado do resto do corpo. Do amor queimando na sanduícheira elétrica. Dos corações de plástico negro envolto às fogueiras do brejo do ribeirão Sarandi. Do canto fantasmagórico do urutau metamorfoseado em criatura da noite em pleno dia, disfarçado em sua lua de medo e desconfiança.
Estou chegando ao fim? Embromando em linhas que levam a lugar nenhum?
Não. Mas posso dizer que a sensação de estar deitado aqui nessa cama me faz um paralítico com pernas de jogador de futebol.
E como sinto a falta de uma mulher... mas não estou preso numa cadeia cheia de caras fedendo e cheios de tesão. Eu estou livre e não consigo me desgrudar da maldição de ser um romântico idiota. Os raios de sol nos penetrando as entranhas. Depois que o motor do carro pega a velocidade é constante?
Minha marcha é lenta e pesada. Meu chip está desligado. Meu cérebro não tem um funcionamento normal. Não quero olhar pra trás, mas não consigo tirar os olhos do retrovisor. Vejo apenas o meu passado abraçado ao meu senso de dever que não foi cumprido. Que foi chacinado nos fundos de um quintal do jardim Independência. Lá fizeram um sarava bem forte e enterraram todos os meus dentes e os fios de cabelo da minha barba.

Tenho pensado seriamente no personagem principal de Richard Elman, em Táxi Driver, de arrumar um emprego em que eu consiga pensar o mínimo possível em meu passado. Dirigir um táxi de madrugada pelas avenidas de Maringá até ter a sorte de uma bela mulher de sobretudo bege dar com a mão e parar o meu táxi. Eu perguntaria para onde ela gostaria de ir e ela ficaria calada, pediria meu isqueiro e acenderia um cigarro de filtro branco carimbado com seu batom comprado em alguma loja de cosméticos de Paris, aliás, ela parece uma francesa, daquelas que se faz de bem comportada, mas que no fundo só quer sexo. Sexo que não seja o de um casamento amornado pelo trabalho, pelos filhos e pelo senso de crescimento profissional, para poder mostrar para os colegas de trabalho e pra si mesmo o quanto você é bom, mesmo com eles considerando que você não passa de uma coisinha sem muita significância que saiu de uma cidadezinha medíocre do norte do Paraná, cheia de vagabundos, drogados e putas.

“Je sui Alexandre...”

“Motorista, eu sou do jardim Alvorada.”

“Desculpe, pensei que você...”

“Francesa, não é?”

“Sim”.

“Eu deveria trocar meu nome de guerra por algo francês, afinal, você não é o primeiro que me diz isso”.

“Mesmo?”

“No duro, a maioria de meus clientes também acha que eu tenho um pezinho nos bulevares de Paris”.

“Seus clientes devem ser pessoas importantes”.

“Magistrados, médicos, vereadores, empresários, gente que come sardinha e arrota esturjão.”

“Você é muito linda eu...”

“Escuta, benzinho, você tem uma cara bonita e pelo jeito uma boca gostosa, mas acho que meu preço está longe das suas possibilidades”.

“É!? quanto?”

“Qual a distância que você acha que seu carro agüenta rodando?”

“Como é que é?”

“Isso mesmo que você ouviu, quanto acha que ele agüenta rodando?”

“Essa pergunta é totalmente sem relevância”.

“Não existe pergunta sem relevância”.

“Nesse caso... não tenho a mínima ideia”.

“Não sabe o quanto agüenta seu próprio carro?”

“Não”.

“Acha que me agüentaria?”

“Quanto?”

“Cherry, não é uma questão de preço, mas sim de uma questão de garra, e já faz um tempo que você não tem a mesma garra de outrora...”

“Como pode dizer isso, acabou de me conhecer!?”

“Eu o conheço há muito tempo, você é do tipo sentimental querendo fazer o papel de comedor da madrugada, você pensa com o coração, não com o pau”.

“Quanto?”

“A distância de uma corrida daqui até a lua. Aproximadamente 125 mil quilômetros”.

“Você tá me zuando.”

“Minha criança, eu jamais brinco em serviço, pode parar ali, na praça Farroupilha.”

Fiquei olhando sua beleza me dando as costas depois de pagar a corrida e dizer pra qu’eu ficasse com o troco. Ela também não acreditava ou não gostava de despedidas. Simplesmente se foi. Assim como apareceu, desapareceu da minha vidinha encruada de motorista de táxi imaginário. Acordei às seis da manhã com a sensação de que se eu pisasse fundo, meu carro chegaria sim até a lua, e se não, eu daria um jeito. Ora, em minha imaginação (que dizem por aí que só tem a mania de “chocar”) sou um cronista encruado, mas em meu coração sou o piloto do maior foguete envenenado rumo à lua, essa musa de abandonados e reconciliados. Pra quem quiser me amar, meu coração é um bar de portas abertas esperando uma cerveja gelada e um par de mãos femininas para fazer suturas daquilo que já está curado. E tenho dito.

Democrático



cadeira de bar Se você pode pegar essa cadeira?
(sorrindo de corpete salto alto saia)
-quinta-feira quase meia-noite
Se você quiser a minha vida ela é sua
(sorrindo bêbado jeans camiseta)
-ala não fumante Democrático
Se você quiser o meu pau ele é seu
Enfia o meu pau na sua goela
Boca nariz ouvido
Mete meu pau dentro do seu umbigo
Entre os dedos dos pés esfrega a frieira
Nos seus olhos mamilos sobrancelhas
Por todo o sol tatuado nas costas
Primeiro no sofá da quitinete
Lambuzando sua barriga perna pescoço
Depois no quarto inquieto da Zona Sete
Duro no queixo testa joelho
Enquanto te rasgo aos poucos
A saia as entranhas o corpete
Bochecha sedenta me arranha
Alto grita goza

Às seis

*Lavínia Severo

“Feeling blue” – pensou. E de tanto tédio foi em busca de imagens no oráculo virtual. Feeling blue. “Patético”. 

Fechou o google imagens, olhou para a pilha de provas e decidiu que iria desistir, pelo menos por vinte minutos. Abriu a rede social, girou, girou, girou a roldana do mouse à procura de respostas para a ausência do êxtase. 

Blue, blue, blue. Pensou em correr, tomar um banho, visitar a amiga. Mas que amiga, e a uma hora dessas? Seria inconveniente. E, mesmo que não fosse, não teria disposição.

Levantou os braços, esticando-os até perceber que não se deslocariam do seu tronco. Voltou, flexionando-os e deslizando as mãos sobre os cabelos lisos, removendo a caneta que mantinha os fios presos. Reclinou-se e esticou suas pernas até alcançar a cadeira que estava na diagonal à esquerda. Encostou a cabeça no topo da sua cadeira, que imitava um móvel antigo. Inspirou e expirou com vontade. Cerrou os olhos. 

Lá fora, além dos translúcidos tecidos brancos, o dia despedia-se tímido, após uma longa e chuvosa jornada. No primeiro dia de primavera, o horizonte anunciava a noite com uma faixa amarelo-claro. 

Aquela sexta-feira de setembro dividia seus sentimentos. De um lado, o espanto pela agitação de um ano apressado que a empurrava para o fim de mais uma etapa de sua vida. De outro, a sensação de que os breves dias de inverno não lhe tinham proporcionado o descanso merecido, perdida no anseio de sentir a leve brisa de verão à beira da praia, imaginando a cena paradisíaca. 

Abriu os olhos e, percebendo as dores em suas costas, notou que havia adormecido. O cinza amarelado já se tornara escuridão. A sala, agora, era somente iluminada pela luz de seu computador e as caligrafias de seus alunos relapsos já não a desafiavam mais. 

Recolheu as pernas, fez novamente um exercício de alongamento - mas dessa vez com o pescoço e a cabeça, que responderam com silenciosos estalos. Esticou o seu braço direito em direção à parede, onde estava o interruptor, enquanto o outro segurava a cadeira. Acendeu a luz e voltou os olhos às provas que lhe aguardavam sobre a toalha branca, de fios nordestinos. Deixou a cabeça cair para trás, como se o colega de cima pudesse resolver a situação milagrosamente. 

Dirigiu-se a um banho morno e, nele, planejou um café para atender às expectativas de seus alunos, que entrariam no sistema eletrônico para consultar suas notas na manhã do dia seguinte. 

Foi à cozinha e decidiu pelo Shiraz que, junto com Nina Simone, a acompanharia até às duas.

Feeling Good.

Esquadrinhar: verbo ser


Mais uma dose?
É claro que eu tô a fim 
A noite nunca tem fim 
Por que que a gente é assim?
Frejat/Cazuza 

Derretendo... O triângulo desenhado pelas Avenidas Euclides da Cunha, Humaitá e Luiz Teixeira Mendes serve de gênese. Inflado de casas antigas e de alguns poucos prédios escassos em altura, igualmente abriga, numa contraposição inexplicavelmente branda, o que há de mais festejado no que diz respeito ao bem morar. Residem nessa delimitação seus mais antigos moradores – constatação que salta aos olhos. Se o irmanarmos com o retângulo formado pelas Avenidas Humaitá e Nóbrega, teremos demarcado o espaço menos solicitado do bairro – afinal, trata-se de uma área majoritariamente residencial (a exceção fica por conta dos barzinhos perfilados ao longo da primeira via mencionada). No duelo entre prédios e casas, quem sinaliza poder são elas, numa gritante contradição com relação às regiões mais centrais da cidade. A mescla entre edificações modestas e uma maioria suntuosa não se mostra tão contundente assim, ainda que de fácil percepção. Talvez porque seja esse desnível ofuscado pelo arremate fulgurante dessa porção municipal: o clube, o tradicionalíssimo clube da sociedade de dantes e de atuantes, com seus sempiternos muros brancos. 

Encastelado num quadrilátero reluzente, mantém-se incólume dentro de sua estirpe, sendo compartilhada esta com o bairro imediatamente vizinho, a oeste. Seu outro ponto de origem, a Rua Luiz Gama, assinalada discretamente no traço viário para aquele que vem do centro, imprime o tom da localidade: a intensa oscilação entre o velho e o novo. Nesta Rua (e nas outras que a ela se entrelaçam), concentra-se a lufada de contemporaneidade da região, notadamente constituída por altos edifícios residenciais. Todavia, a antiguidade de algumas construções comparada às mais recentes não agrega a diferenciação óbvia entre passado vencido e presente convencido – unem-se no idêntico fluxo de valorização imobiliária perene e na composição homogênea de seus habitantes (em praticamente todos os quesitos, inclusive o fisionômico; paraíso dos profissionais liberais). 

Circundado pelos dois blocos iniciais, seu mais coruscante adereço: a Praça Manoel Ribas. Ponto de convergência dos badalados bares e casas noturnas do município (trava notável e novel concorrência com a extensão Avenida JK/Avenida Laguna, mas ainda mantém vantagem), nas noites de sexta e de sábado funciona como carrossel para automóveis que orbitam ao seu redor, cujos ocupantes escolhem, na ampla vitrine boemia disposta em satélite no seu entorno, o lugar certo para “curtir a balada”. A Praça é responsável por operar, ainda, uma das transmutações mais famosas da área central: a Avenida Tiradentes, ao atingi-la, subdivide-se, formando, do lado de lá, as Avenidas Curitiba e Rio Branco. E alguma coisa muda junto – há um ganho em amplidão e austeridade. Seriedade esta que termina corroborada pelo número de clínicas médicas e laboratórios que deitam seus alicerces e estruturas sobre o ambiente silencioso e imperialmente verde-escuro que ali encontram. Ambiente igualmente perfeito para uma miríade de residências amplas e bem custeadas – retornamos ao predomínio das casas. 

Na geometria própria do lugar, Hugo mora no retângulo. Filho de advogado conceituado (adjetivo que faz muita diferença atualmente) e de mãe comunicativa e olorosa, possui, por introjeção (in)voluntária – o que, na cidade, é sempre difícil de precisar –, todos os atavismos que se manifestam naqueles que ali nascem, ativados pelos seguintes elementos (dentre outros): colégio particular não muito distante, tardes de sábado e domingo no clube, sentimento de pertencimento à região, vizinhos belamente auscultadores. Formou-se veterinário e já possui clínica aberta, ali perto, dois sócios, sendo um deles seu primo. Autossuficiência a toda prova. 

O encontro dos antigos colegas de classe aconteceu por iniciativa de uma amiga que, à época, lhe era próxima – lá se iam quase dez anos do término do ensino médio. Consultou outros dois, com os quais manteve o companheirismo de raízes colegiais, e decidiram comparecer. Noite de sexta, na casa da própria, no bairro mesmo (atentemo-nos, pois, à geometria – quadrado verde-escuro próximo à Rio Branco). Vinte e oito convivas. Estacionou o carro, atravessou o portão e sentou-se no jardim, nos fundos. Dois amigos, um que já fora muito amigo, dois grandes colegas; formada a Roda. Uísque, cerveja, vodca, gelo, gelo, copos e vidros. Gelo em pequeninos cubos simétricos e transparentes. Cubinho gelado que, ao cair da mão, escorregado, ninguém viu – mas teve aquele que chutou pra longe, fazendo-o deslizar sobre a parte ladrilhada do espaço. E o gelo foi derreter pra lá, distante. 

A obrigatoriedade do sorriso, mais propriamente do riso, vingava as expectativas. A exposição dos dentes saciava o desejo de conforto, e este não demorou nada pra chegar – pelo menos ali, na Roda. O exercício insidioso do reconhecimento, onde cada qual empunhava um espelho e buscava, nas expressões alheias, encontrar o seu reflexo. Hugo sabia o que os outros queriam ouvir, tinha plena consciência sobre aquilo que exigiam ouvir, e, sobretudo, o que não tolerariam escutar. Falava, então – era a única imposição a ser colocada sob o crivo coletivo, porque tudo o mais já fora pré-julgado através de olhares de azougues debruçados sobre o vestuário. E o gelo derretia, pra lá. 

Pulavam carros, dançavam viagens, urinavam sucessos, reclamavam bebidas, sorriam mulheres, piscavam cetros. Borbulhas de uísque, bolhas de cerveja, gelo, gelo. Gelo que, longe, fez-se água, uma pocinha de nada. Risos e dentes e olhares e sorrisos. Estava tudo ali, tudo como deveria sempre ser, nenhuma alteraçãozinha, e a Roda ficou radiante – Hugo achou que estava numa opereta, riu baixo disfarçando uma tosse desgarrada. 

Vieram as meninas, entraram na valsa, giravam, rodopiavam, sorriam, mediam, riam, mediam – a seletividade dos ouvidos e da consideração. Neste momento as divisões eram já não somente óbvias, mas irrefutáveis. Hugo percebia isso e não desgostava – afinal, estava na Roda. Sentia uma espécie de pena dos demais, estavam sabe-se lá onde. Na verdade, não sabia muito bem o que era estar aonde eles estavam, pois tudo ali era, salutarmente, imutável, como devem ser as boas aristocracias. 

Houve o momento do registro. Sobrenome F pegou sua câmera (avançadíssima, ultíssima geração) e pediu para que Aquele Ali tirasse uma foto deles. Hugo reparou na expressão do rapaz (do qual ele guardava poucas lembranças), ligeiramente encabulado, ao pegar a máquina e apontá-la pra Roda. O rapaz era a própria encarnação da discrepância, talvez como nunca jamais haverá igual. Os olhares que miravam o objeto que ele tinha nas mãos eram tais; os olhos do fotógrafo ocasional ao observar os olhares alheios no visor eram brutais, de tão banidos. Hugo, nesse momento, teve pena – e não gostou de senti-la, até perdeu a graça. A foto, porém, não saía de jeito nenhum. Sobrenome C, levemente alcoolizado e expansivo, apontou pro sujeito e disparou: alguém bate essa foto aí, porque pobre não sabe mexer em nada mesmo. Não houve silêncio algum depois dessas palavras. Aquele Ali sorriu bobamente, bobamente, passou o aparelho pra primeira mão que avistou e – Hugo viu bem – pegou um cubinho gelado e pôs na boca, num gesto bobo, bobo. Hugo teve raiva dele. 

Outro Ali tirou a foto e pronto. Houve dispersão, alguns tinham compromissos e teve início a debandada – as magnéticas Humaitá e adjacências da Praça Manoel Ribas, ali pertinho, clamavam. Hugo combinava alguma coisa com alguns quando Ela L, antiga paixonite, deu a entender que o caminho era outro. Noite ganha. Foram para o carro dele, entraram, sentaram, sorriram, riram. Hugo, antes mesmo de acionar o veículo, viu Aquele Ali entrar no seu carro, sozinho. Ao olhar para o semblante de Ela L, viu que os olhos dela denunciavam o mais vil dos desprezos. Inho, carro, Inho. Ele zangou-se. Ela deixou de olhar pro Inho, Inho, se concentrou em pegar um espelhinho dentro da sua bolsa. Aquele Ali deu a partida no automóvel e foi embora. E o mundo, dentro daquele carro, pareceu voltar ao seu estado natural e correto, porque Ela L voltara a mirar-se no seu espelho. Hugo sentiu raiva dela e do espelhinho. Ligou o veículo e andou apenas uma quadra, onde o estacionou sob uma árvore numa rua escura e fez sexo displicentemente. Não iria levá-la pra motel algum. Ela L estranhou, mas cedeu. E no instante mesmo em que consumavam o ato, a dona da casa passou um paninho na pocinha de nada formada pelo gelo derretido no piso ladrilhado. A Zona 4, enfim, pôde voltar ao normal.

Imanência urbana

*Hygor Zorak

50 Reais... A imanência é um conceito religioso e metafísico que defende a existência de um ser supremo e divino (ou força) dentro do mundo físico. 

Era uma manhã qualquer - como todas as outras – e a realidade caminhava comum, da forma que fazia todos os dias, abrindo algumas exceções, tomando posturas intolerantes umas vezes, e benevolentes em outras. O clima era sereno com o Sol brando e doce. 

Seis e meia da manhã, horário que Michael e Michel acordam, cada um em seu canto, em seu retiro, vivendo daquilo que Deus e sua Suprema Justiça pode ofertar a eles. Michael, com seus 16 anos, vivia no centro da cidade, em um apartamento duplex, repleto de aparatos eletrônicos e muita ostentação, vivendo sempre de sua rotina: Ir para a escola, comer com os amigos, seguir para a casa da namoradinha (pra dar um amasso) e depois, chegando a seu lar, jogar seu videogame de ultima geração. 

(A chaleira fervia enquanto ele estava no banheiro se masturbando) 

Michel, com seus 17 anos, vivia também no centro da cidade, em um daqueles terrenos baldios, ou então em alguma praça que parecesse agradável, não sabia o que era escola e a única namorada que teve recebia mensalidade. Sua rotina era imprevisível, sua alimentação era imprevisível, sua própria existência era imprevisível. 

(Um resto de comida fritava numa frigideira velha enquanto ele preparava sua primeira dose de crack) 

Michael e Michel tomaram o primeiro alimento do dia. Michael terminou de se vestir, colocou a mochila nas costas e seguiu para sua rotina. Michel não tinha nada mais o que vestir, então apenas jogou sobre a cabeça o gorro de seu agasalho de moletom e saiu a caminhar, tentar descobrir que rotina o dia iria lhe reservar. 

Acabou a aula, hora que Michael mais gostava, agora podia ir com os amigos ao Mc Donald comer algum lanche, comer a batata e tomar uma Coca-cola. Michel também ia, mas o máximo que podia fazer era ficar do lado de fora perguntando se alguém queria que ele vigiasse o carro estacionado, ou então ficar olhando as pessoas que estava lá dentro comendo. Nesse dia ele preferiu ficar olhando. 

Todos riam enquanto comiam os lanches, brincavam com a batata e bebiam Coca-cola pelo nariz, faziam piada sobre a empregada de suas casas, sobre o frentista do posto, sobre o pedreiro que arrumava a parede ou sobre o eletricista que ligava a luz que iriam ligar seus videogames, faziam piadas sobre o negro, o homossexual. Também faziam piada sobre Michel, que estava do lado de fora os olhando. 

Michel se sentia estranho, olhava para aqueles garotos com um desejo quase visceral, não sabia se queria o que eles tinham, não sabia se queria consumi-los, se queria que desaparecessem ou se queria ser um daqueles garotos. Naquele insignificante momento de sua vida, se entregou às mais diversas divagações, questionando se haveria algum planejamento para cada homem no mundo, sendo guiado para uma finalidade, se haveria um significado intrínseco para a própria existência, se sua vida se compunha na aleatoriedade do Universo, que bailando em sua dança elegante e caótica, o havia definido daquela maneira. Ele não sabia. 

Num ímpeto achou o mundo irracional e absurdo, sentindo um incontrolável desejo de chorar, de se entregar ao asfalto em prantos, gritando uma realidade que sabia que nunca seria sua. Então sentiu ódio. Percebendo seu reflexo no vidro da janela do lanche, pode afirmar com veemência para si mesmo, que como o poeta Rimbaud, não houvera pedido para nascer, portanto era o próprio criador de sua existência, tendo para si que, a partir daquele momento, era ele quem iria ditar qual seria sua essência, quais seriam seus passos frente a esse grande, genial, patético e perfeito Criador... 

Michael se despediu de seus amigos com aqueles cumprimentos criados como um código, como se fosse o cumprimento de uma sociedade secreta, em que apenas aqueles que eram iniciáticos poderiam conhecer o seu significado simbólico. Então saiu da lanchonete. Seguindo sua caminhada, parou para comprar flores para sua namorada – era o aniversário de um ano de namoro. No caminho, Michael resolveu entrar em um Sebo e ficou a ler diferentes poetas, diferentes versos de amor, leu Drummond, Fernando Pessoa, Vinícius de Morais, tentou algo mais complexo como Maiakovski, mas acabou preferindo escrever algum versinho de duas ou três linhas, não queria correr o risco de esquecer, ser brega ou romântico demais. 

O peito de Michel estava pesado, por isso ele caminhava, andava sem rumo, sem direção. Não tinha mais fome, o que ele queria era outra coisa, não queria alimento para seu corpo, queria algo para nutrir seu espírito. Quando caminhava, viu Michael saindo do Sebo, reconhecendo-o sentiu novamente a sensação de outrora: Ele queria ser aquele rapaz, queria consumir sua condição humana de ser, queria poder comer os lanches que comeu, queria poder entrar em uma livraria e ler aqueles traços e rabiscos que para Michel eram indecifráveis. Então decidiu segui-lo, decidiu se espelhar nele, decidiu que ele seria seu mestre, seu Sensei. 

Então caminharam. Cada qual em seus pensamentos. Michel se tornando a segunda sombra de Michael, uma sombra independente de seu senhor, independente da luz do Sol que, ao cair da noite, também desaparecia. Michael continuou com seu andar, com passos solitários, carregando apenas sua flor e seu verso, carregando um sentimento indescritível, que pulsava em seu interior. 

Quando Michael se encontrava a duas quadras da casa de sua namorada, surge Michel em um surto desesperado exigindo tudo o que Michael possui. Sim, era um assalto, mas não um assalto medíocre daqueles que ocorrem todos os dias, era um assalto diferente, ele não queria bens, Michel queria roubar a alma de Michael, queria roubar sua forma de caminhar no mundo, queria roubar a essência já existente ou a que estivesse sendo construída. Era um grande e inovador assalto. 

Michael, surpreendido, ficando possesso pelo ódio, responde de súbito e bate da forma mais violenta e desesperadora possível em Michel. Em toda sua fúria estava contido o desejo de Michael de se livrar das amarras da disciplina que lhe era imposta pelos pais, pela televisão, por sua escola e por seus amigos. Estava cansado de toda essa hipocrisia, estava farto de saber que as pessoas não almejavam ser ele enquanto indivíduo, mas sim queriam sê-lo por seu status, por sua condição, ninguém queria ser seu amigo pelo que era, mas sim pela máscara que nutria todos os dias. Então naqueles socos ele decidiu que era o fim, que aquilo havia acabado para sempre. 

Ainda perplexo, jogou uma nota de cinquenta reais sobre o corpo de Michel, que estava estirado no chão, e falou: “Isso é o que tenho. Raiva e uma nota de cinquenta reais!”. Então Michael caminhou, seguindo para a casa de sua namorada, sabendo que os dias seriam os mesmos, iniciando sempre da mesma forma, caminhando sempre com a mesma cara e terminando sempre do mesmo jeito... Sem nada de especial. Mas nesse dia, Michael só desejava uma coisa, chegar logo na casa de sua namorada, seu refúgio, e poder esquecer tudo que havia vivido até ali. 

Michel apenas podia suspirar, se entregando ao choro desesperado, até que o silêncio pudesse se alojar em sua mente, levando-o para o completo vácuo. Esse vazio foi o que o fez dormir ali mesmo: no chão, sem dar um movimento sequer. No dia seguinte acordou sabendo que a única condição que amou, o havia traído, o havia ridicularizado. Assim soube que a única coisa que restaria era um pedaço de papel com um rosto desenhado e escrito cinquenta reais.

Pais e filhos

*Thays Pretti

Me diz, por que que o céu é azul?
Explica a grande fúria do mundo. 
(Pais e Filhos - Dado Villa-Lobos / Renato Russo / Marcelo Bonfá) 

Toby's wicked right Quando ela contou que o eletricista que veio consertar a fiação da casa de manhã tinha atropelado um gato que andava pela vizinhança, ele se amargurou profundamente. Desfiou diversos impropérios, xingando o pobre homem com termos baixos que feriam os ouvidos dela e aumentavam ainda mais o desconforto que sentia com a importuna presença dele. Havia sido um acidente, não se podia fazer nada, e nem eram os gatos de casa, era um gatinho vira-latas que rasgava saco de lixos e roubava comida. Não que por isso ele merecesse morrer, mas era claramente excessiva a manifestação de fúria. Era como se o eletricista tivesse culpa, como se tivesse querido passar por cima do animalzinho. 

- Ah, se eu estivesse aqui, ele ia ouvir um monte de merda! E se fosse um dos meus gatos, então! Tava fodido! 

- Mas ele não viu... 

- Não interessa! Tinha que ver, filho da puta desatento do caralho! 

Ela mantinha silêncio, tentando manter a calma e isolar-se da presença dele. O carinho que ele tinha por aqueles bichos era obsessivo, uma espécie de carinho oferecido à força para compensar o carinho que os filhos não queriam receber. E ela não queria mesmo. Satisfazia-se plenamente com a transferência daquele sádico e violento amor para os dois gatos, ainda que às vezes sentisse pena dos bichanos. Ele apertava a cabeça deles, virava-os do avesso, jogava de um lado para o outro. Nesses momentos, ela egoisticamente pensava: “antes eles do que eu”, e ficava em paz. 

Também era extremamente irritante a forma como ele judiava das cachorrinhas. Com o pretexto de que estava brincando com elas, apertava-as até que chorassem e fugissem amedrontadas. Ela olhava para ele séria, silenciosa, com os olhos carregados de um ódio infinito que ele acabava buscando provocar, judiando cada vez mais dos animais, que ela protegia como conseguia. Como ele podia ficar tão indignado com o acidente com o gatinho se ele mesmo era tão horrivelmente violento em seu pretenso amor? Ela sangrava de ódio e ele se deliciava, vitorioso, com o olhar furioso que ela lhe lançava. 

O irmão e a mãe já haviam entrado no jogo. Especialmente o irmão. A mãe apenas agia de modo a evitar conflitos e conseguir a colaboração dele com as despesas da casa e mais um ou outro favor do qual precisasse, mas o irmão sabia relevar a violência e impertinência do pai e, mansamente, conseguia tirar dele um bom auxílio para sua baixa renda estudantil. Ganhou um carro – ainda que velho –, fazia cursos, conseguia um bom dinheiro para gasolina e despesas com a documentação do carro. Talvez até conseguisse um pouco do dinheiro que o pai estava juntando, quando ele, enfim, tomasse vergonha na cara e fosse viver a própria vida. Afinal, separado da mulher já havia pelo menos uns quatro anos e ganhando dinheiro como estava, não precisava mais de favores. Já era hora de juntar a trouxinha e ir embora. 

Mas quem disse que ia? Ficava lá, percebendo-se incômodo, incomodando. Falando alto, rindo alto, xingando e arrotando. O único, naquela casa, que agia de tal modo. Os hábitos da ex-mulher e filhos eram silenciosos, tranquilos. Não havia moralismo, nem falso moralismo, apenas uma satisfação com o que é delicadamente tranquilo. A música baixa, respeitando os vizinhos. A televisão baixa, respeitando quem estivesse lendo ou estudando. As conversas comedidas, os animais acarinhados. 

Não que não houvesse uma ou outra discussão, mas não havia aquele ódio, aquela fúria. Não. Isso era só dele, característico dele, e a isso ela respondia com a mais absoluta frieza. Ela não entrava no jogo, recusava-se, e por vezes acabava tendo de enfrentá-lo de frente. E quando brigava com ela, ele explodia em tempestades e trovoadas e ela respondia sustentando o olhar dele em silêncio, fria, impassível, uma lagoa pintada num quadro escuro: imperturbável. E era essa sua mais forte vingança: sua frieza feria-o como mil palavrões não o fariam. 

Ela tentava se convencer de que os brutos também amam, e todas aquelas coisas que as pessoas falam sobre família, amor aos pais, amor ao próximo. Mas, em seu orgulho, não queria depender dele para nada. Não queria que ele lhe fizesse favores, pelos quais cobraria uma gratidão eterna. Não. Queria poder dormir tranquila no exato momento em que ele deixasse aquela casa. Queria poder lembrar apenas de passagem, quando alguém perguntasse, dizendo: “Ah, meu pai? Já não sei por onde anda. Ouvi que se casou novamente, que está bem, com a BMW que ele sempre quis comprar”. Nada do que precisasse ter pena ou arrependimento, nada em relação a que precisasse ironizar, nada. Poderia até vê-lo, de visita, uma vez ou outra. Talvez na ocasião do nascimento dos netos – se ela se decidisse por ter filhos – e em algum Natal ou passagem de ano. Mas só. Nada de participar da educação das crianças, que ela não queria crianças medrosas e judiadas como ela foi. Nada de férias na casa do avô, nada de empréstimos pra comprar a casa nova, nada, nada. Nada. Queria a liberdade da sua alma, ainda tão amedrontada e fugidia como se estivesse petrificada no século passado, e, para isso, teria que mantê-lo a uma distância segura, a distância na qual mantemos tudo aquilo que precisamos por vezes nos lembrar, mesmo sem realmente querer. Até esse dia, até poder ser livre, defenderia-se, desafiadora, por trás de seu atordoante silêncio gelado.

A voz forte daquela mulher


Então, pela primeira vez na vida, ela resolveu me ligar. Empapuçadas suas palavras, saindo de uma garganta que já teve de gritar muito e, por meio do som alto da sua voz, conter ânimos, bradando sempre em busca de paz. Mesmo com tantas dificuldades na vida, aquela mulher nunca se abalou. É forte, e consegue até sorrir, ainda que percebendo um monstro depressivo tentando, no dia a dia, e no dia após dia, consumir suas entranhas, chupar teu sangue, comer suas vísceras. Dor. Sofrimento. Solidão. E ela resolveu me ligar. E fez questão, talvez com a ardência e loucura de uma febre que nunca mais vai passar, de cantar versos rimados, ensaiados, compostos por ela e muito bem interpretados. A voz daquela mulher é linda. É forte, ainda. É tradução de lamentação, mas que aquece a alma e aquieta o coração. Naquele domingo, completamente bêbado de sono, ouvi a sua voz. O relógio marcava 8h17. 

Ouroboros


Twins
Não lembro ao certo o horário, nem mesmo o dia, guardo apenas aquele fato, as suas cenas, seus detalhes e tudo aquilo que me marcara profundamente. Havia gemidos de prazer ou dor, não sei dizer bem... Talvez um pouco dos dois. Quando parou o barulho eu já havia saído do meu quarto e estava sentado no chão, entre a porta de meu quarto e a porta do quarto de meu irmão. Foi quando vi uma garota nua saindo do quarto dele, e se não me falha a memória, fora a primeira vez que vi uma mulher nua, com seu pequeno par de glúteos e suas costas, tão alvas e brancas... Uma bela imagem, que eu queria ter pra mim. Mas doutor, acho que isso não vai solucionar o problema... 

Você pode ter razão. Seu irmão está voltando para casa, e você está casado com a antiga esposa dele, que por sua culpa acreditava que seu irmão havia falecido... 

É doutor, e isso está destruindo minha paz e meu sono. Fico com essas lembranças, de quando a vi pela primeira vez. Também me pergunto se ele recuperou a lucidez, se ele se lembra de tudo que aconteceu e se vai querer se vingar de mim. Na verdade doutor, eu não sabia que um louco podia se recuperar... 

E eu não sabia que um morto podia voltar à vida. 

Concordo que seria melhor que ele estivesse morto. 

Sabe que não eu disse isso. 

Sim, sim, mas não importa. Talvez dessa vez eu devesse matá-lo de verdade e simular um acidente... 

Nem brinque com isso, porque quando você alimenta uma ideia em seu íntimo, ela acontece em algum plano da existência, ela se torna real no campo das ideias, em uma realidade paralela a essa, até que se consuma e se torna realidade na injunção social na qual está inserido, e você pode acabar dando vazão a esse desejo nutrido em seu inconsciente, o que será muito pior pra você... 

E seria pior por qual motivo? Eu quero que ele desapareça e passei a querer isso desde que ele se casou com a mulher que eu amava. 

Mas você tem que ter em mente que você está dentro de um Sistema que controla as ações sociais de todos os indivíduos, e esse Sistema tenta se desenvolver aos poucos para um modelo mais justo e harmônico, e não pode deixar que uma anomalia dessas ocorra. Não pode deixar que um “ente” da vida destrua outro. Você estaria desestruturando algo que é maior que você, e poderia chamar a atenção do Sistema para você. E ele iria ficar olhando pra você, para te corrigir, senão para te eliminar. 

Você está querendo dizer que sou escravo de uma condição exterior a mim e não posso fazer nada para mudar? Papo furado! Você deve estar ficando é maluco! 

O Sistema não impôs nada a você. Foi você que escolheu como ele funcionaria em sua vida. Você quis que seu irmão roubasse a garota que você amava. Você quis conhecê-la naquela condição que me narrou, e também foi você quem quis o afastamento e agora o retorno de seu irmão. 

Você fala como se entendesse perfeitamente o funcionamento desse grande Sistema. Aposto que a sua mulher está agora te traindo, emitindo aquele gemido que você gosta enquanto ela transa com seu melhor amigo. O que acha? 

O assunto aqui é o seu problema. 

Não quer falar disso? Acho que vou visitar sua esposa, quem sabe ela também não me faz uma consulta. 

Do que está falando? Estou tentando te ajudar a entender essas questões e você quer ironizar e atacar a minha vida. Realmente acha que isso pode te ajudar de alguma maneira? 

Eu sei que não vai resolver, assim como toda essa história de Sistema também não vai. 

Meu jovem, a vida real se expressa por linhas invisíveis que ninguém pode perceber. A realidade do pensamento coexiste com o mundo dito real, e isso a todo o momento. Cada escolha que faz é um momento de definição para o ser humano, não excluindo a ocorrência da alternativa deixada de lado, que ocorre em um plano distinto desse, sendo o mundo real para aquela escolha. Em seu universo de construções, você matou seu irmão inúmeras vezes e de diversas formas, você foi preso, foi morto, teve uma vida feliz, criou filhos, se casou com outra mulher, é um solteirão de meia idade, e ainda mais, todas as realidades que você pôde conceber em algum momento da sua vida ocorreram em algum lugar desse Universo, mas a escolha pertence a você, a este cara que está na minha frente, porque é você quem define a sua vida e traça o próximo passo do Sistema, e isso tudo é devido ao livre-arbítrio, que é absoluto, tão absoluto que nem mesmo Deus pode intervir e interferir nele. 

Eu não contei ainda a verdade para o doutor... 

Então conte. 

Eu já matei meu irmão centenas de vezes. Eu já me matei centenas de vezes, e ainda estou aqui, e esse é o meu problema... 

Este não é o seu problema, esta é a sua solução. 

Desculpe doutor, mas não estou entendendo. 

Você não está entendendo, mas agora pode entender. A questão é que tudo isso está ocorrendo em um plano de consciência distinto ao comum e você vai voltar para aquilo que chamamos realidade, voltaremos para a minha sala e você vai perceber que tudo poderá ser resolvido, porque o universo estará sendo refeito, você escolheu reprogramar o Sistema, e ele está corrigindo as falhas, você sentirá uma sensação de vazio, sentirá falta de algo sem saber o que exatamente é e num futuro vai me procurar novamente, com novos conflitos e novas dificuldades. Esse é o ciclo que você escolheu. 

Espere doutor. Entendi o que está fazendo, você invadiu meu Universo particular, está brincando com minhas crenças, minhas paixões e minhas dores. É hora de parar, quero acordar! Sair desse lugar! Chega! 

Você não pode. O Sistema está inicializando. 

Não quero saber essa história de Sistema. Quero acordar agora! 

Você não pode acordar porque ainda não quer acordar. E já sabe o que você vai escolher fazer quando sair desse lugar? 

Ainda não sei, e isso não importa! Mas... como você fez isso? 

Você é quem fez. Eu não existo, sou fruto da sua imaginação, você me criou para entender e encontrar as respostas que procurava. 

Então qual é a resposta? 

Eu não sei. Sou uma ferramenta da sua mente. Você talvez nem esteja aqui, talvez você esteja dormindo. Ou já esteja até morto. 

Não. Eu já sei o que vou fazer. Se isso for um estado de consciência que pode ser proposto por um conflito íntimo, vou provocar esse conflito em meu irmão e ele não vai voltar. 

Não existe irmão algum. 

Como? É lógico que existe! 

Não existe. Ele foi mais uma ferramenta criada pelo seu inconsciente para se livrar da culpa de certas atitudes tomadas por você. Não foi ele quem dormiu a primeira vez com a sua esposa, mas foi você mesmo, que assustado com o sangue de lhe romper a virgindade fugiu. Assim como em todas as brigas que você teve, assim como em todas as dificuldades. Você criou centenas de personagens fictícios que existem com você no mundo e que servem apenas para tornar sua existência mais cômoda e superficial. Acredito que agora seja o melhor momento para você voltar para a sua vida, destruindo esses personagens fictícios, apagando os ídolos que escolheu adorar. 

Está dizendo que meu livre arbítrio e meu pensamento fizeram com que eu brincasse de Deus? Está dizendo que minha vida foi toda uma mentira? Então o que é real? 

Ela não foi uma mentira, porque ela existiu, ela só não foi real. E esse seu questionamento é válido, principalmente agora que você percebeu que as pessoas vivem em um mundo projetado, que não significa necessariamente a realidade. 

Pode até ser que você esteja certo. 

Então está disposto a acordar? 

Sim. Quero ver até onde minha imaginação e essa interação com esses universos me levou e quero ver como é a minha vida real. 

Temos que dizer adeus. 

Não, não temos, porque você sou eu. 




Acordamos todos os dias e não temos respostas para nada. Algumas vezes tentamos procurá-las, outras vezes tentamos ignorá-las, mas é preciso saber que o universo particular existe e ele guarda os segredos de cada Espírito que habita este Universo onde o nosso Mundo gira.

Que venha a primavera


sinking boat
Agosto ficou para trás como um barco afundando. E posso dizer que nesse embarcação furada, o capitão Nelson morreu afogado, ficou apenas o ingênuo e interiorano Alexandre, à deriva, olhando a imensidão do mar e com força para nadar até encontrar alguma praia para não ser devorado pelos tubarões. Mas antes da embarcação afundar, na noite anterior ao fatídico acidente, (o navio foi atacado por leviatã) Alexandre teve um sonho... Viu-se fundido com ele mesmo, como gêmeos siameses, e claro, um deles era o famigerado escritor, capitão, beberrão e colérico Nelson, que não poupava "elogios" ao irmão Alexandre, frágil, amoroso, piedoso e romântico. Alexandre vivia à mercê dos gostos de Nelson, que eram em sua maioria, como as imagens de Hyeronimus Bosch elaboradas num curta metragem sem título e sem estreia prevista nos cinemas. No sonho, Alexandre, encarcerado nessa confusão de identidade, ora ele, ora Nelson, orou com toda força para que um anjo luminoso com uma espada afiada o libertasse do Maldito escritor Nelson, que não o deixava livre para seguir seu caminho e finalmente dizer que estava livre de seus vícios e mau humor. Foi quando uma imensa nave rasgou o zênite perdido de sua esperança, e de dentro dela, saiu o anjo, de asas cegamente alvas que decepou a cabeça do maldito Nelson e libertou o frágil Alexandre, dizendo uma única frase: "Espere por mim".

E passando praticamente um tempo cronologicamente impossível de ser medido, à deriva, com fome, sede, saudade, ele esperou, esperou, esperou... Até que seus olhos avistaram uma ilha paradisíaca. Areia alva. Palmeiras. Coqueiros. E até mesmo uma linda e reconfortante cascata que jorrava água doce para mitigar a sede de outrora. Bebeu da água e viu o anjo, que saiu de seu estômago ulcerado e, com olhos apaixonados disse ao moribundo: "Sou mulher e sou tua". Encontrado anos depois numa praia de Santos, dentro de uma garrafa de merlot, um bilhete tinha o seguinte dizer: "Que venha a primavera, inverno aqui, não há mais..."

À Beira


Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Nelson Cavaquinho 

Foto de Raoni Wonrath Arroyo
A Avenida Colombo, ilustrada pelos pneus dos caminhões, funciona como divisora das porções obviamente incomunicáveis do bairro. Na banda que se esparrama pelas laterais da renomada instituição de ensino superior funciona um micro(?)cosmo flagrantemente peculiar dentro das configurações municipais – onde, ultimamente, tem se desenvolvido uma estranha realidade que imiscui estudantesforasteiros, vereadores e viaturas policiais, numa crescente e inexpugnável rede de insensatez. Mas este não é o cenário da ocasião – não nos prolonguemos, pois, em assuntos belicosos. 

Assim como igualmente não se fala, aqui, da outra parte naturalmente idiossincrática dessa região da cidade: aquela que perambula, numa mescla interessante entre a correria diurna e o neo-sofisticado burburinho notívago, entre as Avenidas Duque de Caxias e Paraná. Portanto, não teremos mencionados cenários caros (e queridos) aos moradores dessa redondeza, sendo as imobiliárias e o Estádio Willie Davids, ao redor do qual há uma intensa atividade física lastreada nas caminhadas e olhadelas nas caminhantes, os mais indispensáveis. Podemos, ainda, num exercício de extensão embasado na antropologia, na sócio-economia e na filologia (!), empurrarmos a margem limítrofe desse reduto para as franjas do lado de lá da Vila Olímpica e serpentearmos, conclusivamente, até o início da Prudente de Morais. Contudo, outro é o nosso cenário. 

O último fragmento recortado da Zona 07, no qual se passa a célere história trazida à baila, situa-se entre as Avenidas São Paulo e Pedro Taques. O bairro, neste ponto, além de concentrar boa parte da população da cidade que tem ascendência japonesa, é mais silencioso e modesto, num misto de sisudez anacrônica e sensação de apequenamento bem atual – afinal, o Novo Centro, que espraia-se de soslaio na diagonal sudoeste, deixa-o com um certo ar de somenos. Seus prédios levemente antigos e razoavelmente baixos (com exceções que sacramentam a regra) convivem harmoniosamente com casas entre antigas e recém-construídas (inescapavelmente baixas – apesar dos sobrados, é claro), tendo como residentes um número inestimável de aposentados e um ainda maior contingente de pessoas da classe média – mas daquela classe média aguerrida que precisa correr atrás (seja da casa própria, do carro financiado, da escola particular para o filho, do aluguel – ou tudo isso junto). Eis o ambiente: é aqui que mora Luís. 

Luís, filho de dono falecido de uma mercearia da Tuiuti e de costureira aposentada ainda na ativa, formado administrador, apaixonado pelo Santos tal qual o pai. Casou-se com Adriana, olhos castanhos vívidos, fisioterapeuta, mais fala do que escuta por puro hábito de criação. Casaram-se porque Luís, que a pedira em namoro logo após sair de um conturbado relacionamento em que descobriu-se traído, achara aquela a hora – oito meses de namoro e casou, pronto. A mãe não gostou muito, conhecia melhor o filho que o próprio e aplicava maior lucidez à situação – não teve jeito. Adriana casou porque vira em Luís um sujeito interessante e pouco comum – uma característica complementava a outra, mas isso não vem ao caso –, e, por causa disso, acreditou que ele seria um homem próspero e bom pai, uma vez que se preocupava com certas coisas que dificilmente apeteceriam almas menos sensíveis. 

Em seis meses de casados perceberam-se dentro de um grande erro. Adriana desgostou do estilo do marido – onde antes via autenticidade, agora enxergava teimosia burra; se anteriormente visualizava-o numa introspecção constante, transmutara-se esta em pasmaceira; por detrás da vitrine que insinuava grandiosidade espiritual, percebera o engodo que disfarçava a inabilidade para a vida prática. Luís não ficou atrás e decepcionou-se amargamente ante a ausência de sintonia com a esposa, que nunca demonstrava satisfação, falava e gesticulava em demasia e não suportava vê-lo no sofá nem mesmo num domingo à tarde para ver o futebol. A conversa entre eles esgotava-se facilmente e os assuntos eram quase sempre os mesmos. 

Apesar do descompasso, tiveram um filho. Mateus já contava seus cinco anos. Fisicamente era mais parecido com o pai, mas sua constituição interior não era assemelhada a nenhum dos genitores. Era dado à pirraça, cheio de querer impor a sua vontade e do seu jeito, amante da contrariedade quando era ele quem a punha em prática – aos cinco anos. O pai tentou fazê-lo torcedor do Santos, não houve como – tornara-se um palmeirense convicto por causa de um tio materno, mas teria feito essa opção ainda que o tal tio não existisse, porque era esse o destino (e ponto). 

O problema – mesmo – era dinheiro. Luís não ganhava o bastante ou tão bem quanto gostaria a esposa. Ele, assim como ela, não achava sua remuneração lá muito atraente, mas não a colocava numa embalagem tão indecorosa como julgava Adriana. Os dois tinham rendimentos quase iguais – com mínima vantagem pra ala masculina. O que a exasperava era não ver no marido qualquer resquício de esforço (ou de iniciativa, pra ficarmos num termo recorrente em suas frases) no sentido de efetivar mudanças, as quais, positivas que seriam, propiciariam a troca do carro, a compra de um apartamento (e a consequente saída do inquilinato) e outras coisas mais que sinalizariam estabilidade e planejamento financeiro. Luís até concordava que viviam com os olhos postos no caderno de contas a pagar, mas não aceitava o argumento de que levavam uma vida superlativamente apertada como lhe pintava a esposa – e brigavam, com ocasionais alterações no grau de entonação das vozes. 

Houve, então, o sábado à tarde em que Luís decidiu levar o filho à praça que circunvolve a Igreja Divino Espírito Santo, ali perto, onde há um campinho de futebol. Alguns meninos, a maioria formada por habitantes do bairro e uns poucos oriundos do avizinhado Jardim Alvorada, já estavam lá, afoitos atrás da bola. Mateus esperneou que queria jogar também, mesmo com o pai advertindo que ele deveria esperar, pois só moleques maiores estavam na partida. Não houve jeito – o menino fez birra feia e acabou convencendo não apenas o pai, mas também os demais jogadores de que deveria entrar na brincadeira. O problema é que, apesar de seu poder de persuasão, só tinha cinco anos, e ao chocar-se, atabalhoado, contra um garoto de oito, os poucos três anos de vantagem etária que agigantavam seu adversário provaram-se suficientemente decisivos na distribuição dos prejuízos da trombada. Mateus caiu no chão, ralou o joelho e quase bateu a cabeça. O pai veio acudi-lo, enquanto o menino mais velho apenas pedia desculpas e Luís dizia que não precisava, que o acidentado fora avisado dos perigos de jogar bola com crianças mais velhas. Foi nesse instante, quando o pai se abaixou diante do filho e viu os pequeninos rasgos paralelos e vermelhos no joelho dele, que o menino, segurando o choro, apenas pronunciou, tremendo o queixo: seu medíocre. 

Naquela noite, enquanto Mateus dormia no quarto ao lado com band-aid adesivado na região machucada, Luís deitou-se ainda mais calado que o habitual à esquerda de Adriana. Virou-se para a esposa e pensou em narrar o ocorrido. Desistiu depois que a mulher, levando uma das mãos ao rosto, disse que a semana fora muito estafante, precisava dormir. Ao contrário dela, Luís não dormiu. Passeou os olhos pelo quarto escuro e por dentro de si mesmo horas a fio. E ali, naquele apartamento da terceira margem da Zona 07, um homem passou a noite toda querendo não chorar.